Review: The Weeknd – Beauty Behind the Madness (2015)

“Beauty Behind the Madness” foi o passaporte definitivo de Abel Tesfaye para o cenário mainstream. É um álbum que revisita as glórias do passado, enquanto ele aproveita o presente.

Em 2015, Abel Tesfaye dominou as paradas e lançou o seu segundo álbum de estúdio, “Beauty Behind the Madness” (2015). Esse disco possui uma mistura atraente de R&B, pop, hip-hop, soul e eletrônica. Em algumas momentos você ouve sons de synth-pop e funk dos anos 80, mas em outros de trap e glam rock. “Beauty Behind the Madness” mostra um lado vulnerável de sua arte, em colaboração com Illangelo, Kanye West, Max Martin e Mike Dean. Abel nos leva por uma jornada pessoal enquanto fala abertamente sobre como eventos do passado impactaram o seu futuro. Ele não aparece imediatamente como uma típica estrela pop, em vez disso descreve a si mesmo como um introvertido emocional preso por sua dependência química. Temas como estes, além do amor e desgosto, andam de mãos dadas com a produção sombria e melancólica. Ao abraçar uma sensibilidade pop recém-descoberta, Weeknd lançou músicas como “Can’t Feel My Face”. Neste single, ele conseguiu equilibrar o pop com letras sombrias, em algo que parecia uma típica canção de amor. Sua primeira aparição acessível aconteceu em “Earned It” da trilha sonora de “Cinquenta Tons de Cinza” (2015) – uma canção de R&B com arranjo exuberante, humor abafado e vocal sensual. Definida pelo instrumental orquestral, “Earned It” trocou o baixo e piano por toques de violino e batidas extremamente contundentes. A faixa de abertura, “Real Friends”, apresenta poderosos riffs de guitarra, cordas sintéticas e pesados sintetizadores.

Sua dinâmica é particularmente fantástica, principalmente pelo contraste entre as guitarras e cordas orquestrais. The Weekend é liricamente revelador e introspectivo, conforme se abre sobre o quão insustentável ele é: “Mamãe me chamou de destrutivo, disse que eu me arruinaria um dia”. A catarse lírica é impulsionada pela produção estrondosa, utilizando piano e cordas para complementar a melodia e os vocais. “Losers”, com Labrinth, muda completamente de ritmo, pois é um experimento funky que transita pelo dramático glam rock dos anos 80. Inicialmente, temos uma instrumentação guiada por riffs de piano – mas posteriormente há sintetizadores, refrão eletro-house, metais extravagantes e elementos jazzísticos. Enquanto isso, ambos refletem sobre suas ambições profissionais. Depois do primeiro refrão, a produção baseada no piano é substituída por sons muito mais eletrônicos. Mas embora possua uma premissa interessante, “Losers” não é tão poderosa ou suficientemente emocional para causar impacto. Produzida por Kanye West, “Tell Your Friends” é um número de R&B com emocionantes acordes de piano e riffs de guitarra elétrica – um enorme passo para longe da atmosfera sinistra do “House of Balloons” (2011), “Thursday” (2011) e “Echoes of Silence” (2011). É uma inesperada peça lenta e melodiosa onde ele reflete sobre sua carreira. Um fator importante de suas músicas são as letras intransigentes. Aqui, ele proclama: “Eu sou aquele cara com o cabelo / Cantando sobre tomar pílulas, fodendo vadias / Vivendo a vida no limite”.

O primeiro single, “Often”, é um dos mais atraentes do repertório. Depois do início sinistro e misterioso, Abel imediatamente expressa sua vontade de sair da solidão. É uma canção claramente sexual – a nítida batida e os sintetizadores são combinados perfeitamente com os vocais. A produção de “The Hills” é grande, hipnótica e exótica, conforme as letras invocam imagens obscuras. Mais uma vez, Weeknd derrete suas letras na instrumentação a fim de criar um ambiente mentalmente escuro. “Quando eu estou fodido, esse é o meu verdadeiro eu”, ele se auto-define. Muitas vezes, suas letras servem como brecha para falar de sonhos, sexo, drogas e álcool. Depois de se desviar ligeiramente em “Earnet It”, ele voltou com suas reflexões sedutoras através da elegante estética de “The Hills”. Produzida por Illangelo, é um número de R&B alternativo com batidas sufocantes e absolutamente hipnotizantes. No primeiro segundo, você é imediatamente surpreendido por um riff de guitarra instável, antes dos elementos eletrônicos tecerem o caminho para os vocais. No momento que o refrão chega, você já está totalmente envolvido com a paisagem sonora exuberante. Após o segundo refrão, ele surpreende ao flexionar seus vocais e utilizar com maestria seu incrível falsete – uma de suas marcas registradas. O gancho “hills have eyes, these hills have eyes”, é certamente uma das minhas partes favoritas. Outra coisa interessante é a forma como sua voz aparece filtrada, distante e nebulosa. Em “Acquainted”, existem algumas padrões de bateria tropical e elementos de trap. 

Estilisticamente, sua escuridão e mau humor são uma boa representação do álbum. Originalmente gravada como “Girls Born in the 90’s”, ela foi re-intitulada depois de ser vazada antecipadamente. “Can’t Feel My Face”, por sua vez, é uma canção de pop e disco-funk com grandes semelhanças a algumas obras do Michael Jackson. Liricamente, permanece dentro da proposta do Weekend – girando em torno de drogas, sexo e muitas vezes uma combinação dos dois. “Eu não posso sentir meu rosto quando eu estou com você, mas eu amo isso”, ele canta comparando a companhia de uma mulher com as drogas. Sua produção é incrível e fornece uma batida diferente de qualquer outra apresentada por ele anteriormente. Tem um apelo pop mainstream perceptível, mas com a típica perspectiva influenciada por seus vícios e vida noturna. Seu ritmo é bastante otimista e combinou perfeitamente com as letras e o baixo funky. O sintetizador oscilante da abertura, a queda no refrão e a guitarra também são complementos notáveis. Em outras palavras, é uma canção irresistivelmente cativante. O desempenho do Weeknd foi canalizado de forma tão saltitante e energética que ficou em perfeita sintonia com a produção do Max Martin. “Shameless” é uma balada sombria e acústica com um suave alcance vocal. Desta vez, ao invés de se desculpar por seus erros, The Weeknd culpa a garota. No entanto, as referências narcóticas distorcem inicialmente essa dedução. Liricamente, é uma das faixas mais preguiçosas do álbum.

Além disso, é monótona do ponto de vista instrumental, e só desperta atenção quando a guitarra elétrica é exposta. “In the Night” é outra canção fortemente influenciada pelo Michael Jackson. Uma canção synth-pop com tema pesado de abuso sexual, onde ele revela algo trágico que aconteceu com uma garota na infância (“Ela era jovem e foi forçada a ser uma mulher”). Embora a produção seja energética e dançante, o verdadeiro significado por trás das letras é bastante pesado. Abel apresenta linhas que mostram que a garota se tornou stripper depois da infância extremamente traumática (“Na noite ela está dançando para aliviar a dor”). Musicalmente, “In the Night” utiliza uma sonoridade synth-pop e disco-funk conforme apresenta sintetizadores no mesmo âmbito de produções oitentistas. Outra ponto positivo é o seu frágil e belo registro vocal. Enquanto possui uma das letras mais sombrias do álbum, é também uma das mais cativantes. “As You Are” abre com sintetizadores deliciosamente melancólicos enquanto apresenta um refrão arejado e belos falsetes. Desta vez, ele se concentra em um relacionamento onde ambos parceiros são infiéis. É outra música que mostra suas atitudes conflitantes em relação ao amor. “Dark Times”, com Ed Sheeran, apresenta riffs de guitarra levemente abafados, batidas sutis e graves profundos. O britânico colabora ao falar sobre vícios e depressão. No refrão, ele relembra dos tempos em que caía sobre velhos hábitos.

“Nos meus momentos sombrios, voltando para rua / Fazendo essas promessas que eu não podia cumprir / Só minha mãe poderia me amar como sou”, ele canta. As letras são emotivas e profundamente introspectivas. Entretanto, dado a participação do Ed Sheeran, ela tinha potencial para ser maior. Em seguida, é a vez de Lana Del Rey se juntar ao The Weeknd. “Prisoner” possui melodias e harmonias muito boas, à medida que os vocais estão ofegantes e inevitavelmente melancólicos. Sobre acordes sombrios e sintetizadores, eles falam em ser prisoneiros dos seus vícios. Enquanto ele aborda o amor, ela contempla seu relacionamento com Hollywood. Dito isto, a produção envolve ambos em um pacote brilhantemente sintético. A última faixa, “Angel”, é simplesmente perfeita. Sua voz soulful exala uma sensação de intensidade, assim como as harmonias angelicais são estelares. “Angel” é uma balada épica, atmosférica e totalmente convincente. É exatamente aqui onde o título do álbum se torna claro. Mesmo que seja um pouco atormentado por letras previsíveis e misóginas, The Weeknd conseguiu criar um ótimo corpo de trabalho. “Beauty Behind the Madness” é um álbum que se destaca principalmente pela produção. Weeknd combinou uma grande quantidade de gêneros num material em constante mudança. Para um artista com um catálogo tão obscuro quanto o dele, a transição para o mainstream nunca seria uma tarefa fácil. Apesar dos erros, “Beauty Behind the Madness” é um registro onde ele conseguiu encontrar um equilíbrio ideal.

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Favorite Tracks:

“The Hills” / “Can’t Feel My Face” / “Angel”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.