Review: The Weeknd – Beauty Behind the Madness (2015)

Lançamento: 28/08/2015
Gênero: R&B, Pop, R&B alternativo
Gravadora: XO / Republic Records
Produtores: Abel Tesfaye, Illangelo, Jason Quenneville, Ali Payami, Ben Billions, Che Pope, DannyBoyStyles, Kanye West, Labrinth, Max Martin, Mano, Martijn Garritsen, Mike Dean, Noah Goldstein, Omar Riad, Peter Svensson e Stephan Moccio.

“Beauty Behind the Madness” foi o passaporte definitivo de Abel Tesfaye para o cenário mainstream. É um álbum que revisita as glórias do passado, enquanto ele aproveita o presente.

Oano de 2015 foi excelente para Abel Tesfaye, uma vez que ele dominou as paradas musicais e lançou o seu segundo álbum de estúdio, “Beauty Behind the Madness” (2015). Este disco fez uma mistura de R&B, pop, hip-hop, soul e música eletrônica com diferentes influências. Em algumas momentos você ouve sons de synth-pop e funk dos anos 80, enquanto em outros temos hip-hop e glam-rock. “Beauty Behind the Madness” mostrou um lado mais vulnerável de sua arte, em colaboração com produtores como Illangelo, Kanye West, Max Martin e Mike Dean. Durante quatorze faixas, Abel leva o ouvinte numa jornada pessoal e fala abertamente sobre eventos do passado e como eles impactaram o seu futuro. Ele não aparece imediatamente como uma típica estrela pop, em vez disso descreve a si mesmo como um introvertido emocional preso por sua dependência pelas drogas. Temas como estes, além do amor e desgosto, andaram de mãos dadas com a produção sombria e melancólica. Ao abraçar uma sensibilidade pop recém-descoberta em 2015, The Weeknd lançou músicas como “Can’t Feel My Face”. Neste single, ele conseguiu equilibrar o pop com letras sombrias, em algo que parecia uma típica canção de amor à primeira vista. Sua primeira aparição acessível aconteceu na música “Earned It” da trilha sonora do filme “Cinquenta Tons de Cinza”. Uma canção de R&B com arranjo e batida viciante, humor abafado e vocais sensuais.

Definida por um instrumental orquestral e lindamente produzido, “Earned It” trocou o baixo e piano por toques de violino e batidas extremamente contundentes. A faixa de abertura, “Real Friends”, começa com poderosos riffs de guitarra sobre uma produção ousada e moderna. Em sua composição, ainda encontramos cordas sintéticas e pesados sintetizadores. A dinâmica da faixa é particularmente fantástica, principalmente pelo contraste entre as guitarras e cordas orquestrais. Aliás, a orquestra continua através da música e dá alguma profundidade para as letras. Aqui, o cantor é liricamente revelador e introspectivo, conforme se abre sobre o quão insustentável ele é. “Mamãe me chamou de destrutivo / Disse que eu me arruinaria um dia”, ele canta no pré-refrão. A catarse lírica é impulsionada pela produção estrondosa, utilizando piano e cordas para complementar a melodia e voz de The Weeknd. “Losers”, com Labrinth, muda completamente de ritmo, pois é um experimento funky que transita pelo dramático glam-rock dos anos 80. Inicialmente, temos uma instrumentação guiada por riffs de piano, mas depois há sintetizadores, refrão eletro-house, seção de metais extravagante e um final jazzístico. Em seu conteúdo lírico, ambos artistas refletem ao lembrar de suas ambições profissionais. Depois do primeiro refrão, a produção baseada no piano é substituída por sons muito mais eletrônicos.

Mas, embora possua uma premissa interessante, “Losers” não é uma música poderosa ou emocional o suficiente para causar impacto. Produzida por Kanye West, “Tell Your Friends” é uma canção de R&B com instrumental reminiscente de “Runaway” do próprio rapper. Os acordes de piano são emocionantes graças à produção e é um enorme passo para longe da atmosfera sinistra das mixtapes “House of Balloons” (2011), “Thursday” (2011) e “Echoes of Silence” (2011). Inesperadamente, “Tell Your Friends” é uma jam lenta e melodiosa onde The Weeknd se sente confortável enquanto reflete sobre sua carreira. Um fator importante das músicas do Abel são suas letras intransigentes. Nesta faixa, por exemplo, ele proclama: “Eu sou aquele cara com o cabelo / Cantando sobre tomar pílulas, fodendo vadias / Vivendo a vida no limite”. Ademais, a faixa é complementada por um delicioso riff de guitarra elétrica. O primeiro single, “Often”, é uma faixa sólida e uma das mais atraentes do repertório. Depois de começar de forma sinistra e misteriosa, Abel imediatamente expressa sua vontade de sair da solidão. O restante da canção é claramente sexual e com refrões que grudam facilmente na cabeça. Sua nítida batida e os sintetizadores são combinados perfeitamente com a voz de Abel. Sua habilidade para criar algo totalmente hipnótico é demonstrado em “The Hills”.

A produção é grande e diferente ao mesmo tempo, conforme ele cria uma imagem obscura para o ouvinte. Mais uma vez, The Weeknd derrete suas letras na instrumentação a fim de criar um ambiente onde qualquer um viaja mentalmente. “Quando eu estou fodido, esse é o meu verdadeiro eu”, ele se auto-define em um dos versos. Muitas vezes, suas composições servem como uma brecha para falar de sonhos, sexo, drogas e álcool. Depois de desviar ligeiramente disso em “Earnet It”, ele voltou com suas reflexões sedutoras através da elegante estética de “The Hills”. Produzida por seu colaborador de longa data, Illangelo, é uma faixa de R&B alternativo que abrange uma batida sufocante e absolutamente hipnotizante. Logo no primeiro segundo da canção, você já é surpreendido por um riff de guitarra instável, antes de alguns elementos eletrônicos tecer o caminho para os vocais de Abel.  No momento que o refrão chega, você já está totalmente envolvido com a paisagem sonora da música. Após o segundo refrão, o cantor surpreende ainda mais ao flexionar os seus vocais e utilizar com maestria seu incrível falsete, que já é uma de suas marcas registradas. O gancho, “Hills have eyes, these hills have eyes”, é certamente uma das minhas partes favoritas. Outra coisa muito interessante nesta canção é a forma como sua voz aparece filtrada, distante e nebulosa. Em “Acquainted”, existem algumas padrões de bateria tropical e elementos de trap. 

Estilisticamente, a escuridão e o mau humor desta faixa é uma boa representação do álbum. Originalmente gravada como “Girls Born in the 90’s”, esta canção foi re-intitulada depois de ter vazado antecipadamente. A sétima faixa é nada menos do que “Can’t Feel My Face”, o grande hit do álbum. Uma canção de pop e disco-funk com grandes semelhanças a algumas obras do eterno rei do pop Michael Jackson. “Can’t Feel My Face” mantém várias características do típico som de The Weeknd, como por exemplo os falsetes. Liricamente, também permanece dentro da proposta do cantor, girando em torno de drogas, sexo e muitas vezes uma combinação dos dois. “Eu não posso sentir meu rosto quando eu estou com você / Mas eu amo isso”, ele canta comparando a companhia de uma mulher com drogas. Sua produção é incrível e fornece uma batida diferente de qualquer outra apresentada por ele anteriormente. Tem um apelo pop mainstream muito perceptível, mas com a típica perspectiva influenciada por vícios e vida noturna. Seu ritmo é bastante otimista e combinou muito bem com as letras relacionáveis e o baixo funky. O sintetizador oscilante da abertura, a queda de graves no refrão e a guitarra no segundo verso, também foram complementos notáveis. Em outras palavras, essa faixa é irresistivelmente cativante. O desempenho de The Weeknd foi canalizado de uma forma tão saltitante e energética, que ficou em perfeita sintonia com a produção do Max Martin. 

“Shameless” é uma balada sombria e acústica com um suave alcance vocal. Desta vez, ao invés de se desculpar por seus erros, The Weeknd culpa a garota. No entanto, as referências narcóticas distorcem inicialmente essa dedução. Liricamente, “Shameless” é uma das faixas mais preguiçosas do álbum. Além disso, é muito monótona do ponto de vista instrumental, e só causa algum impacto quando a guitarra elétrica é exposta. “In the Night”, por sua vez, é outra canção fortemente influenciada pelas obras de Michael Jackson. É uma canção synth-pop com um tema pesado de abuso sexual, onde o cantor revela algo trágico que aconteceu com uma garota na infância (“Ela era jovem e foi forçada a ser uma mulher / Sim, o tempo todo, o tempo todo”). Portanto, embora a produção geral da música seja energética e dançante, o verdadeiro significado por trás das letras é bastante pesado. Aqui, Abel entrega versos que mostram que a garota se tornou uma stripper depois da infância extremamente traumática (“Na noite ela está dançando para aliviar a dor”). Musicalmente, a canção utiliza uma sonoridade synth-pop e disco-funk conforme fornece sintetizadores no mesmo âmbito de produções oitentistas. Outra ponto positivo da música é, como de costume, o frágil e belo registro vocal do Abel. O som sinistro e escuro da música torna-se ainda mais intrigante ao ser elevado por seus equilibrados vocais.

Como já mencionado, “In the Night” realmente induz comparações com o falecido Rei do Pop. Ela soa o que poderia ter sido uma parte do grande catálogo de hits de Michael Jackson. Isso com certeza é um grande elogio para The Weeknd. Enquanto possui uma das letras mais sombrias do “Beauty Behind the Madness” (2015), é também uma das faixas mais cativantes que encontramos por aqui. Na sequência, “As You Are” abre com sintetizadores deliciosamente melancólicos, enquanto apresenta um refrão arejado, belos falsetes e versos sutis. Desta vez, The Weeknd se concentra num relacionamento onde ambos parceiros são infiéis. Este é um tema recorrente do canadense desde o “Trilogy” (2012), como já ouvimos anteriormente em canções como “The Knowing” e “Kiss Land”. Portanto, “As You Are” é outra música que mostra as atitudes conflitantes de Abel Tesfaye em relação ao amor. “Dark Times”, com Ed Sheeran, apresenta riffs de guitarra levemente abafados, batidas sutis e alguns graves profundos. O britânico ajuda The Weeknd a falar sobre seus vícios durante a depressão. No refrão, por exemplo, ouvimos ele mencionar os tempos em que caía sobre velhos hábitos. “Nos meus momentos sombrios, voltando para rua / Fazendo essas promessas que eu não podia cumprir / Só minha mãe poderia me amar como sou”, ele canta. As letras em “Dark Times” são bem emotivas e profundamente introspectivas. Entretanto, dado a participação de Ed Sheeran, esta canção tinha potencial para ser algo maior. 

Em seguida, é a vez de Lana Del Rey se juntar a The Weeknd na faixa “Prisoner”. As melodias e harmonias são muito boas, à medida que seus vocais estão ofegantes e inevitavelmente melancólicos. Sobre os acordes sombrios e sintetizadores, The Weeknd e Del Rey falam em ser prisoneiros dos seus vícios. Enquanto o Abel aborda o amor, ela contempla seu relacionamento com Hollywood. A boa produção envolve ambos num pacote brilhantemente sintético. A última faixa, intitulada “Angel”, é perfeita para encerrar o álbum. Sua voz soulful exala uma sensação de intensidade, assim como as harmonias angelicais são estelares. “Angel” é uma balada épica, atmosférica e totalmente convincente. É exatamente nesta canção que o título do álbum se torna claro. Mesmo que este disco seja um pouco atormentado por letras previsíveis e misóginas, The Weeknd conseguiu criar um ótimo corpo de trabalho. Sem dúvida, “Beauty Behind the Madness” (2015) é um grande álbum que se destaca no que diz respeito à produção. The Weeknd combinou uma grande quantidade de gêneros num material em constante mudança. “Starboy” (2016) pode ser uma versão ainda mais pop deste LP, mas seu som sempre estará enraizado nos elementos encontrados aqui. Para um artista com um catálogo tão obscuro quanto o dele, a transição para o mainstream nunca seria uma tarefa fácil. Apesar dos seus erros, “Beauty Behind the Madness” (2015) é um registro onde The Weeknd conseguiu encontrar um excelente equilíbrio.

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Favorite Tracks:

“The Hills” / “Can’t Feel My Face” / “Angel”.

São Paulo, 22 anos, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas e séries. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.