Review: Rudimental – Toast to Our Differences (2019)

É muito longo, exageradamente diversificado e, acima de tudo, possui um tédio ocasional. Não há nada de errado com suas ambições unificadoras, mas é um projeto difícil de amar.

Entrando no mundo mainstream, a Rudimental aprimorou seu drum and bass a fim de atender ao mercado pop. O seu terceiro álbum, “Toast to Our Differences”, é um excelente exemplo de um cabo de guerra musical, porque há duas estéticas diferentes lutando constantemente pelo domínio. É um produto de autodescoberta e um mergulho mais profundo no mundo pop em que eles se tornaram imersos. O grupo tem promovido este disco como uma fusão de gêneros, com a intenção de destacar várias origens estilísticas. No entanto, apesar de parecer uma boa intenção no papel, “Toast to Our Differences” é estranhamente sintético e artificial em sua execução. É uma pena também porque há uma grande variedade de gêneros por aqui. Em uma música você ouvirá sons tradicionais inspirados no reggae; enquanto em outra você ouvirá um drum and bass que emite vibrações mais urgentes. O registro funciona como uma espécie de sacola de compras; não há organização na tracklist, apenas um monte de músicas cativantes que não causam reação ou comoção. “Toast to Our Differences” está no seu melhor quando cumpre a promessa de polinização cruzada de diversos gêneros e alguns momentos orgânicos reais. Há um pequeno interlúdio chamado “Thula Ungakhlai”, cujos cantos africanos acapela me lembraram imediatamente do clássico disco “Graceland” (1986) do Paul Simon. Inicialmente, Daniel Caplen escreveu a demo do segundo single, “These Days”, em meados de 2016.

Depois de ser produzida por Rudimental, ele mostrou para o Macklemore em Los Angeles e ele ficou animado para participar da canção. A última convidada foi Jess Glynne, que colocou seus vocais na música depois de uma sessão de estúdio em 2017. O Rudimental é responsável por alguns dos crossovers mais tocados dos últimos anos no Reino Unido. Eles colaboraram com alguns dos maiores artistas britânicos, incluindo Ed Sheeran, Emeli Sandé, John Newman e Dizzee Rascal, apenas para citar alguns. “These Days” é uma faixa que olha para trás a fim de agradecer pelo relacionamento que você teve com alguém. Macklemore abre a música com uma introdução confessional e pensativa sobre melódicas teclas de piano. “Eu sei que você encontrou alguém novo / Espero que a vida seja bela / Você foi a luz para eu encontrar minha verdade / Eu só quero dizer, obrigado”, ele recita. O rapper ajusta o clima da música e permite que Dan Caplen assuma o próximo verso, enquanto Jess Glynne interpreta o belo refrão. Macklemore retorna no final da música para entregar outro rap de assinatura. O vídeo, dirigido por Johnny Valencia e filmado em Londres e Seattle, documenta o ciclo de um relacionamento em detalhes minuciosos. Macklemore e Glynne estrelam como um casal apaixonado. Ele capta momentos iniciais de um relacionamento, à medida que o casal se diverte, vai à uma loja de discos e um bazar cheio de brechós.

O conteúdo lírico explora o término de um relacionamento, mas de uma forma otimista. “Espero que algum dia / Vamos sentar juntos / E rir um com o outro / Sobre estes dias, estes dias / Todos os nossos problemas / Vamos deixar pra lá / E gostaríamos que pudéssemos voltar a esses dias”, Jess Glynne canta no refrão. Os amantes relembram os bons tempos que compartilharam no passado e não sentem remorso um pelo o outro. “These Days” é uma canção comovente que capta os sentimentos que surgem com o fim de um namoro. Rudimental ficou à cargo da produção e não decepcionou, mesmo que tenha optado por um refinamento pop. Além da forte presença do piano, a banda inseriu instrumentos de metais, handclaps e um coral gospel em segundo plano. “Sun Comes Up” é marcado por tons sutis de melancolia que emanam do delicado violão, enquanto a batida oferece um sabor exótico. É uma dicotomia perfeita que sugere coisas melhores do que esse álbum costuma oferecer. “Dark Clouds” é outra melodia decente que alterna agilmente entre versos carregados de teclado e uma bateria que pega o ouvinte desprevenido. O maior problema, no entanto, é o fato de que o lado “sintético” da banda simplesmente não funciona bem. Algumas das músicas não possuem qualquer vestígio de toques humano, à medida que os arranjos apenas entram em um ouvido e saem pelo outro. É a definição do piloto automático musical, especialmente acentuada pela chata midtempo “Walk Alone”.

Os vocais do Tom Walker soam ridiculamente desinteressantes, ao passo que as batidas são exageradamente super-produzidas.  O mesmo pode ser dito de “Let Me Live”, que usa uma progressão de acordes sobrecarregada e passagens vocais maçantes para tentar impulsionar sua composição sem vida. Deixe-me ser claro: não me importo de ouvir um álbum que incorpore elementos eletrônicos. O que quero dizer é que, se você for promovê-lo como uma potência diversificada entre diferentes culturas, pelo menos traduza isso para a música em si. Não é suficiente apenas apresentar um grupo de cantores populares e chamar o álbum de uma grande “celebração da diferença”, como eles o rotularam. E considerando todas as letras hipócritas e o polimento de estúdio, algo me diz que as ambições da Rudimental não vão além de fins comerciais. Essa coleção de dezesseis faixas mostra suas forças como banda, mas também destaca o quanto eles comprometeram sua visão para se tornar mais consumível. O seu álbum de estréia foi bem sucedido porque era diferente de qualquer outra coisa no mercado da época. Mas ao longo dos anos, a banda rastejou para uma produção mais polida e começou a perder seu senso de direção. Como um todo, “Toast to Our Differences” não é tão coeso quanto deveria e, com uma quantidade saturada de faixas, você acaba pulando algumas a fim de encontrar algo que realmente queira ouvir. As melodias são cativantes, mas quando se trata de lirismo, realmente não há nada particularmente profundo ou significativo para atingir um pico emocional.

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Favorite Tracks:

“Let Me Live (with Major Lazer feat. Anne-Marie & Mr. Eazi)” / “These Days (feat. Jess Glynne, Macklemore & Dan Caplen)” / “Sun Comes Up (feat. James Arthur)”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.