Review: ROSALÍA – El Mal Querer (2018)

O novo álbum da Rosalía é um dos mais empolgantes e apaixonadamente produzidos da esfera pop e experimental de 2018. É preso em sua tensão, paixão e engenhosidade criativa.

Rosalía Vila Tobella é a mais recente estrela viral da Espanha – uma revivalista do flamenco com uma mentalidade pop e um impressionante número de seguidores online. Para o seu segundo álbum, “El Mal Querer”, a cantora catalã dá uma nova vida para uma arte secular – expondo os lamentos tristes e as palmas urgentes do flamenco com uma camada do brilho pop dos anos 2000. Ao longo do repertório, os elementos orgânicos costumam ser os mais estimulantes – um LP romântico e sem esperança que respeita a tradição sem se sentir escandaloso. Este registro com certeza a impulsionará com sua fusão imediata e multi-camadas de flamenco tradicional com a mistura de pop minimalista e R&B contemporâneo. “El Mal Querer” é realmente uma visão perfeitamente moderna da música pop; estruturalmente ousado, infinitamente cativante, melancólico, introspectivo e repleto de carisma. Produzido pela própria Rosalía e seu colaborador Pablo ‘El Guicho’, é um álbum conceitual que segue uma representação honesta do quão complicado o amor pode ser. Cada faixa é composta de um título, uma legenda e o nome de um capítulo. A própria Rosalía afirma que encontrou inspiração em uma novela medieval para tal conceito. “El Mal Querer” é uma obra-prima construída com a essência do flamenco, no entanto, constata com diferentes gêneros musicais que dificultam sua classificação. A ordem dos capítulos faz do ouvinte uma testemunha do desenvolvimento de um relacionamento obscuro e tóxico, no qual a mulher é a principal vítima.

A voz da Rosalía é apresentada como poderosa e emotiva, mas com uma certa influência do Oriente Médio em seus melismas, deixando grandes evidências do seu amplo alcance vocal. Este álbum pode ser considerado uma ode ao fortalecimento feminino; uma obra peculiar que incentiva as mulheres a se levantarem e mostrarem do que são capazes. Os radares sobre Rosalía já vinham surgindo desde “Los Ángeles” (2017), um álbum produzido por Raül Refree que continha floreios de flamenco e R&B, além de vídeos produzidos pelo coletivo CANADA. Então, o single “Malamente” e um primeiro show em Barcelona, ​​sua cidade natal, impulsionaram o hype antes do verão do Hemisfério Norte. Uma pergunta permaneceu: aos 25 anos, Rosalía poderia assumir a dupla responsabilidade de modernizar o flamenco enquanto finalmente colocava a Espanha no mapa da música urbana? “El Mal Querer” possui um estilo significativamente mais chamativo do que seu antecessor; ele desencadeia uma gama vertiginosa com as palmas batendo sobre o baixo sintético – uma fórmula repetida na maioria das músicas. Ele oferece 30 minutos de vocalizações sensuais, texturas contemporâneas e imagens de carros de alta potência, além de um flamenco puro e tradicional. Cada música é um capitulo e todo o álbum gera um livro: baseado em um manuscrito anônimo do século XIV. A história mostra uma mulher presa em uma torre por um marido ciumento com medo de ser enganado. Assim, Rosalía nos conta essa triste história alternando entre o flamenco visceral e a liberação mística das palmas.

É um álbum bastante inteligente, enraizado culturalmente e estilisticamente diverso, que tem o potencial de atrair um público moderno, desfrutar de algo impulsionado pelo talento e ao mesmo tempo ser acessível. O principal presente musical da Rosalía, como mostrado neste disco, é o seu vocal maravilhosamente flexível e controlado. O primeiro single, “MALAMENTE (Cap.1: Augurio)”, chicoteia sem esforço entre gêneros e estilos, e dá um novo tom para o flamenco. Se você dissesse que o flamenco seria uma das coisas mais interessantes de 2018, certamente diriam que você está viajando na maionese. No entanto, Rosalía ficou conhecida justamente pela fusão incomum de flamenco e R&B, bem como por suas habilidades vocais ornamentadas. Sua capacidade artística não foi rejeitada, assim como a elaboração do tema: a busca pela cura pessoal e o destino como um incentivo. Há palmas e cliques intricados substituindo a programação de bateria usual pelo qual o gênero é conhecido. Também há tambores, sintetizadores e mensagens em camadas, que levam a música para um território mais moderno e urbano. “MALAMENTE (Cap.1: Augurio)” é uma música extremamente sedutora e aquela que consegue extrair os melhores tons da Rosalía. Em seguida, “QUE NO SALGA LA LUNA (Cap. 2: Boda)” também correlaciona o flamenco com a música urbana. Seu tom é mais escuro, ao passo que fornece alguns acordes acústicos e uma voz que nos lembra de onde ela veio.

Os efeitos sonoros – apoiados pelo som de uma guitarra espanhola – faz tudo soar muito oculto, mas a voz da Rosalía se mantém intacta e em primeiro plano. “PIENSO EN TU MIRÁ (Cap. 3: Celos)”, o segundo single do álbum, apresenta alguns elementos eletrônicos para hibridizar a música tradicional. Aqui, a cantora prevê um final ruim, liricamente falando. Um tema complexo e igualmente belo, cujo refrão é formado por uma frase que se repete e forma uma linda melodia. “DE AQUÍ NO SALES (Cap. 4: Disputa)” e “RENIEGO (Cap. 5: Lamento)” mostram claramente o sofrimento de uma mulher que se torna vítima dentro do seu relacionamento. Em “DE AQUÍ NO SALES (Cap. 4: Disputa)”, somos esmagados por um flamenco desesperado que se torna muito mais alto – graças ao ritmo das palmas, sirenes e rugidos de um motor. É certamente a proposta mais experimental do álbum. Rosalía canta como se fosse o homem: “Com as costas da mão, deixo bem claro para você”. Mais uma vez ficamos surpresos: uma vocalização impressionante finaliza a canção. O seu vocal e as cordas orquestrais são os protagonistas absolutos de “RENIEGO (Cap. 5: Lamento)”, que assim como o capítulo sugere, é um verdadeiro lamento. No interlúdio “PRESO (Cap. 6: Clausura)”, há uma mulher que conta como foi para o inferno, enquanto “BAGDAD (Cap. 7: Liturgia)” brinca com uma interpolação extravagante de “Cry Me a River” do Justin Timberlake. A produção moderna acrescenta uma dimensão única, ao passo que o auto-tune desempenha um papel importante.

Quem poderia imaginar algo do Justin Timberlake em uma música de flamenco? Felizmente, Rosalía modificou tudo à sua maneira e nos envolveu com um coro litúrgico. Em contrapartida, “DI MI NOMBRE (Cap. 8: Éxtasis)” é um corte mais tradicional. O uso do staccato de uma harpa inquietante provoca um fluxo confortável. Além disso, há uma maior afinidade na instrumentação. A espiritualidade da Rosalía coexiste no folk de “NANA (Cap. 9: Concepción)”, uma canção minimalista inspirada no canto gregoriano – onde ela canta acapela durante o refrão. Aparentemente, a narrativa está chegando ao fim, uma vez que Rosalía quis mostrar apenas sua voz e nada mais. Embora criada com um sintetizador, “MALDICIÓN (Cap. 10: Cordura)” ainda contém a essência do flamenco. Os primeiros riffs dessa música são simplesmente deslumbrantes. O álbum fecha com “A NINGÚN HOMBRE (Cap. 11: Poder)”, que apresenta o despertar da personagem feminina. Mais uma vez, Rosalía canta acapela enquanto o auto-tune é usado nos backing vocals e instrumentos. É uma faixa minimalista na qual ela se lembra do que aquele homem fez. Ao todo, “El Mal Querer” respira poder e juventude. É um experimento inovador e bem-sucedido, mesmo que não seja para todos os públicos. Rosalía escreveu esse álbum primeiro para si mesma, depois para a Espanha e o flamenco e, por último, para aqueles que apreciarão sua revolução. O que ela aprendeu nos dez anos de estudo do flamenco fez deste álbum um espelho para muitos outros artistas.

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Favorite Tracks:

“MALAMENTE (Cap.1: Augurio)” / “PIENSO EN TU MIRÁ (Cap. 3: Celos)” / “BAGDAD (Cap. 7: Liturgia)“.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.