Review: Migos – Culture II (2018)

Com pontos de destaque suficientes para formar um esforço digestível, Migos domina o seu ofício. No entanto, com um corte na enorme tracklist, eles poderiam ter criado algo muito mais consistente.

Quase um ano depois de lançar o “C U L T U R E” (2017), o Migos está de volta com a sequência do mesmo. Foi este álbum que colocou o trio no mapa, principalmente depois que o “Bad and Boujee” estourou. Conforme o ano foi passando, os rappers só conseguiram aumentar sua popularidade. Por isso, “Culture II” vinha sendo ansiosamente aguardado pelos fãs de hip-hop. Embora seja outro projeto poderoso, é extremamente longo. Ele possui vinte e quatro faixas e mais de 1 hora e 45 minutos de duração. Nenhuma música é particularmente ruim, mas várias podem ser consideradas fillers. Como o esperado, “Culture II” está repleto de temas habituais de Quavo, Offset e Takeoff, como mulheres, carros, sexo e drogas. O grande problema é a forma preguiçosa e repetitiva que eles abordam tais assuntos. Eu tinha uma grande expectativa com relação ao “Culture II”, uma vez que o disco anterior era tão bom. Atualmente, o Migos é um dos maiores nomes da música trap, ao passo que dominou o gênero e o tornou cada vez mais difundido. Certamente, “Culture II” está preenchido com grandes nomes do hip-hop, como Drake, Post Malone, Travi$ Scott, 21 Savage, Nicki Minaj e Big Sean. Além disso, vários produtores conhecidos marcam presença, como Metro Boomin, Murda Beatz, Pharrell Williams e Zaytoven. Entretanto, conforme você vai escutando o álbum, começa a encontrar diversas repetições, redundâncias e semelhanças entre as músicas.

O trio poderia ter cortado quase metade das faixas do repertório, a fim de criar algo mais conciso. Provavelmente, os fãs do trio de Atlanta não procuram substância em suas músicas. Mas às vezes suas rimas, por mais que sejam bem elaboradas, tornam-se demasiadamente repetitivas. Como um todo, “Culture II” não é completamente ruim, mas há grandes falhas dentro dele. Como mencionado, o maior problema é sua duração, pois o trio não possui um lirismo aperfeiçoado para suportar um álbum deste tamanho. Aliás, o longo comprimento parece apenas uma maneira de capitalizar o álbum nos serviços de streaming. Enquanto o trio não se esforça para inovar, os raros momentos em que eles saem da zona de conforto são os melhores. O melhor exemplo disso é “Stir Fry”, o segundo single do álbum. Produzida pelo Pharrell, é uma faixa cheia de referências alimentares e frases espirituosas. Além de ser imensamente cativante e sonoramente otimista, é um irresistível banger. Sem dúvida, a produção desempenha um papel muito importante. O groove sedutor e extremamente rítmico, bem como os sintetizadores, alimentam o vocal do Migos. A influência de funk e soul partiu do Pharrell, da mesma forma que a batida incrivelmente dinâmica. Porém, Quavo, Offset e Takeoff também merecem créditos pelas rimas instantaneamente contagiantes. A produção é a mais funk, rítmica e complexa que o Migos já colocou às mãos. Em outras palavras, o baixo, a batida cativante, os bongôs, chimbais e sintetizadores provocam uma audição incrivelmente divertida.

O álbum começa com uma introdução chamada “Higher We Go (Intro)”, que pavimenta o caminho para o fluxo ágil do trio. Enquanto cordas são colocadas ao fundo e Quavo lidera o refrão, a música fala sobre a fama que o grupo ganhou nos últimos anos. “Supastars” mostra os três membros divertindo-se ao falar sobre carros, dinheiro e estilo de vida luxuoso. Produzida por Honorable C.N.O.T.E. e Buddah Bless, é uma faixa com um alto valor de produção, apesar de não possuir o mesmo encanto de “Stir Fry”. Embora não tenha nada de especial, traz uma batalha trap futurista sobre uma ótima estrutura. Sua produção é realmente deslumbrante, com várias texturas e camadas trazendo um brilho real. Os acordes de teclado encaixaram-se muito bem com a percussão e sintetizadores atmosféricos. Como mencionado, “Supastars” é uma descrição bem direta da vida de Quavo, Offset e Takeoff. Linhas como “superestrelas, carros novos, nós compramos o bar agora”, descrevem o estilo de vida selvagem e despreocupado dos três. As batidas são provavelmente uma das mais interessantes do “Culture II”, principalmente por complementar perfeitamente os sintetizadores de alto timbre e a linha de baixo ameaçadora. Uma faixa que segue pelo método tradicional do Migos, incluindo as múltiplas ad-libs. Não dá para negar que “Supastars” é o Migos no piloto automático, falando sobre dinheiro, drogas, mulheres e fama. Em outras palavras, é um banger grave, agressivo e profundo com a sua típica comutação vocal.

Embora não seja tão empolgante, é mais um testemunho do estilo cativante e temperamental do Migos. Em seguida, “Narcos” apresenta uma vibe sul-americana em referência à série de mesmo nome da Netflix. Ela começa com uma batida produzida a partir de uma guitarra e fornece leves toques latinos. Uma canção vibrante e um interessante passeio inspirado em Pablo Escobar. Sonoramente, a tradicional vibração do Migos é mesclada com notas de baixo, sintetizador e um sabor latino. “BBO (Bad Bitches Only)”, com 21 Savage, foi produzida por ninguém menos que Kanye West – apresenta um fluxo confiante e grande química entre os quatro rappers. Lançada como terceiro single, “Walk It Talk It” é uma colaboração entre Migos e o Drake. Uma música com versos incríveis, mas um pouco irritante por causa do terrível gancho interpretado pelo Quavo. Ao todo, ele repete descontroladamente a linha “walk it like I talk it” cerca de oitenta vezes. Para você ter uma ideia, Quavo repete a mesma linha por 45 segundos seguidos no início da música.  Na verdade, Drake é provavelmente o maior destaque. Quando ele aparece é justamente o momento em que a faixa torna-se mais interessante. Os sinos ecoando ao fundo conseguem criar uma atmosfera assustadora, ao passo que a batida oscila ao longo da música. Os bizarros ganchos de “Walk It Talk It” dão à ela um ambiente escuro que a diferencia das demais, assim como a entrega excêntrica. O único ponto negativo é realmente a sua repetitividade.

A batida é extremamente sólida, mas a repetição lírica faz ela perder o seu valor. Se Quavo tivesse gasto tempo com outras pronúncias, ele teria facilmente deixado a música melhor. “Emoji a Chain” traz o estilo comum e automático do Migos, que já ouvimos com frequência no passado. Um ritmo simplista cria uma música aparentemente básica, mas felizmente contém boas melodias. Certamente, o seu lirismo divertido entrou em consenso com a produção do Metro Boomin. O papel proeminente do Offset no pré-refrão combinou com a batida cativante e o estilo descontraído das letras. “CC” possui uma sensação vintage, um fluxo suave e versos de Gucci Mane. Desta vez, encontramos vários sintetizadores etéreos e um baixo pulsante fazendo o papel principal. Produzida por Zaytoven, “Too Much Jewelry” combina a delicadeza das teclas de piano com toques de flauta. Mesmo com o pesado auto-tune, é uma canção que oferece um maior impulso criativo e ambicioso. “Gang Gang”, por sua vez, possui letras repetitivas e satíricas, mesmo que pareça autoconsciente. A sutil linha de baixo e os vocais escuros dão lugar a um refrão repetitivo e igualmente cativante. Apesar do enorme elenco de “White Sand”, suas linhas de sintetizador e batida groovy são muito básicas. Um número tão esquecível que nem mesmo a presença de Travi$ Scott, Ty Dolla $ign e Big Sean conseguiu salvá-lo. Conforme ultrapassamos a metade do álbum, encontramos o Migos distorcendo seu estilo em torno de produções mais incomuns, como em “Crown the Kings” e “Flooded”

Em ambas faixas eles realmente conseguem transformar suas letras genéricas em algo mais ousado. “Crown the Kings”, em particular, contém elementos de “Get Up, Stand Up”, single do Bob Marley and the Wailers. Enquanto “Beast” é extremamente simples, “Open It Up” apresenta órgãos e sintetizadores a fim de aumentar sua grandeza e empurrar as rimas do trio acima de sua energia habitual. O primeiro single do álbum, “MotorSport”, é um número de hip-hop e trap com vocais das rappers Nicki Minaj e Cardi B. Sem dúvida, a presença de ambas artistas conseguiu elevar a escuta desta canção. Elas dominam a faixa ao lado das batidas e reverberações, e adicionam uma maior intensidade e ferocidade à mesma. Enquanto o Migos continua falando sobre seu estilo de vida luxuoso, Nicki Minaj e Cardi B concentram-se em competir com seus inimigos. O verso da Cardi está no ponto, conforme ela faz referências à canção “Gasolina” do Daddy Yankee: “Eu sou a Selena do trap / Dame más gasolina”Ademais, “MotorSport” faz referências à várias celebridades, como Jackie Chan, Yo Gotti, Britney Spears e Lil Boosie, e à diversas marcas, como Chanel, Lamborghini, Givenchy, McDonald’s e Porsche. Apesar da instrumentação intrigante, “Movin’ Too Fast” e “Work Hard” não agregam em nada e são enfraquecidas pelas mensagens vazias das letras. “Notice Me”, por outro lado, é um dos maiores destaques da segunda metade do repertório. Apresentando Post Malone, é uma música mais calma, lenta e descontraída.

Mesmo que possua os temas familiares do Migos, como a fama e o luxo recém-adquirido, é uma faixa surpreendentemente introspectiva. Falando sobre seu estrelato e riqueza, os quatro colaboraram para criar uma música de destaque. É uma lufada de ar fresco, após uma sequência de faixas monótonas. Embora a música tenha um senso de arrogância, termina com uma nota humilde quando Offset diz: “Fiquei de joelhos, orando para Deus me cobrir”. “Too Playa”, com 2 Chainz, apresenta um inesperado saxofone jazzístico em conjunto com outra pesada batida de trap. “Made Men”, em contrapartida, é uma peça de R&B com uma energia mais clássica e otimista. Assim como boa parte do longo repertório, “Top Down on da Nawf” possui uma batida repetitiva e um lirismo extremamente fraco. Felizmente, o álbum termina com a suave batida e linda melodia de piano de “Culture National Anthem (Outro)”. Inesperadamente, o trio resolve focar na igualdade social, em vez de explorar novamente temas como sexo, dinheiro e drogas. Uma música que compartilha uma mensagem positiva, especialmente para a comunidade negra. “Meu povo orou e se ajoelhou / Não precisamos de listras porque temos estrelas brilhantes”, Quavo diz no último verso. Em “Culture II”, podemos dizer que a quantidade ficou acima da qualidade. Um álbum em boa parte monótono e particularmente preguiçoso. Há algumas faixas muito boas, mas é impossível evitar a sensação incômoda de que poderia ser um disco muito melhor. Em outras palavras, é um álbum bem chato e arrastado.

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    SCORE - 64%
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Favorite Tracks:

“Narcos” / “BBO (Bad Bitches Only) [feat. 21 Savage] / “Stir Fry”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.