Review: Kanye West – ye (2018)

“ye” não é o melhor momento do Kanye West, mas é um lembrete de suas produções exuberantes. Apesar de possuir um protagonista às vezes irritante, esse álbum é interessante e francamente autoconsciente.

Kanye West sempre foi um criador de tendências. Quando você ignora seus comentários insípidos, e se concentra apenas em sua música, você encontra um homem que consistentemente quebra barreiras a fim de se tornar um gênio do hip-hop moderno. Cada um de seus álbuns tem estado à frente da concorrência, seja utilizando samples de soul e gospel em “The College Dropout” (2004) e “Late Registration” (2005), incorporando sintetizadores de forma empolgante no “Graduation” (2007) e “Yeezus” (2013), ou usando poderosas batidas e auto-tune – que mais tarde inspirariam artistas como The Weeknd e Drake – no “808s & Heartbreak” (2008). Em 01 de junho, ele lançou o seu oitavo álbum de estúdio, simplesmente chamado de “ye”. De certa forma, é um registro direcionado apenas para os fãs. É o segundo de uma série de álbuns lançados durante o verão, que ele produziu nas montanhas do estado de Wyoming. Musicalmente, “ye” é parecido com o “The Life of Pablo” (2016), no entanto, ao contrário do mesmo, é muito curto, conciso e possui apenas sete faixas no decorrer de 23 minutos. Kim Kardashian revelou que a capa é uma foto que Kanye West tirou das montanhas cobertas de neve a caminho de sua propriedade em Wyoming. Na capa podemos observar uma frase que diz: “Eu odeio ser bipolar, é incrível”. Parece generoso chamar “ye” de um álbum, especialmente considerando que é o trabalho do mesmo artista que uma vez nos deu uma grandiosa obra-prima como o “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” (2010).

O prazer do ouvinte será diretamente proporcional à paciência dele com as artimanhas do rapper. Porque, por mais breve que seja, ainda há muita coisa escondida no “ye”. Não é o desastre que algumas pessoas esperavam – pelo contrário, tem alguns momentos brilhantes. Mas certamente, ele poderia ter feito algo muito melhor se tivesse colocado mais sentimento e profundidade no que estava tentando dizer. Basicamente, o que cercou o corpo desse trabalho foi seu retorno às redes sociais e certos comentários sobre Donald Trump e a escravidão. Mas apesar de toda controvérsia, Kanye West conseguiu criar um álbum brutalmente honesto, que combina letras cruas com um alto nível de produção. Embora não seja tão bom quanto o “Late Registration” (2005) ou “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” (2010), ainda é um registro cativante. Liricamente, ele confronta questões que envolvem sua saúde mental e batalhas com a realidade. Por mais que ele seja o rapper mais polarizador dos últimos anos, Kanye West aparentemente nunca se sentiu tão isolado como agora. Enquanto o “The Life of Pablo” (2016) apresentou um cara mais instável e maníaco, “ye” o encontra no seu momento mais frágil e paranoico. Em uma primeira inspeção, parece sonoramente descuidado. Porém, depois de repetidas escutas, você percebe o quanto ele é introspectivo e conciso. O repertório começa com “I Thought About Killing You”, conforme ele admite que deveria dizer algo mais brilhante para equilibrar os pensamentos sombrios.

O resultado é perturbador e arrepiante, pois ele aborda um assassinato presumidamente premeditado misturado com uma infinidade de anedotas suicidas. Ele mostra sem hesitação seus pensamentos de amor-próprio, auto-ódio, suicídio e vício. Sua voz fica mais e mais profunda enquanto seus pensamentos permanecem obscuros. E isso é apenas o começo. Seu monólogo é franco, perturbador e define um tom essencialmente ameaçador para o que se segue. Embora as letras não sejam as melhores, a produção é imaculada como a maior parte do álbum. “Yikes” é outra música sombria que mergulha na escuridão dos seus pensamentos e fornece uma natureza provocativa. Ele faz referências às drogas, o movimento #MeToo e a Coréia do Norte (“Nós poderíamos estar na Coréia do Norte, eu poderia fumar com o Wiz Khalifa”). Esses momentos líricos são clássicos do rapper, pois são embalados com um senso de ironia e arrogância. O ritmo aumenta, ao passo que Kanye West apresenta seu rap mais convencional. “Yikes” é realmente energética, conforme ele adota um fluxo irregular semelhante ao de “Wolves”. No primeiro verso, West faz uma viagem sombria e fala sobre o vício em drogas: “Mexendo, mexendo com o 2CB, hein? / Ele vai fazer isso?”. 2CB é chamada de “droga da alta sociedade” devido ao seu grande custo. Certamente, Kanye West sabe como abordar o vício forma angustiante e obscura. Mais tarde, ele mostra apoio a Russell Simons, que tem várias alegações de agressão sexual contra ele. “A parada pode ficar perigosa, sinistra, encontre ajuda / Às vezes eu mesmo me assusto”, ele avisa no refrão.

Outro ponto abordado em “Yikes” é o seu transtorno bipolar, conforme ele declara que isso é o seu super-poder. “Essa é a minha terceira pessoa / Essa é minha merda bipolar, mano o que? / Essa é minha superpotência, mano não é nenhuma deficiência / Eu sou super-herói”, ele diz nas últimas linhas. “All Mine” é provavelmente uma das coisas mais assustadoras que você vai encontrar no álbum. Há temas como infidelidade, mas com um senso de humor um pouco estúpido. É uma música que lembra o “Yeezus” (2013), com uma batida extremamente sólida e sombria. Dessa vez, Kanye West aponta o dedo para celebridades como Chris Rock, Kobe Bryant e Tristan Thompson (o namorado de sua cunhada Khloe Kardashian). Inicialmente, “All Mine” começa com um interlúdio de órgão, mas é interrompido por Valee Taylor cantando o refrão em falsetes. A voz do Valee combinou bem com as batidas, embora esteja em desacordo com o fluxo confiante do Kanye West. A parte do Ty Dolla $ign, por sua vez, dá um tom ainda mais sexual para a faixa. Os versos do West fazem referências ao suposto caso entre Chris Rock e Kerry Washington. “Se eu aparecer com uma Kerry Washington / Isso vai ser um enorme escândalo / Eu poderia ter Naomi Campbell / E ainda assim querer uma Stormy Daniels”, ele rima. Liricamente, o rapper usa um lirismo bastante sexual, por isso também nos remete às letras “I’m in It”. Embora possua algumas linhas interessantes, o trabalho lírico de “All Mine” é praticamente apagado por causa de frases extremamente grosseiras.

“Wouldn’t Leave”, por outro lado, é um tributo sutil às influências gospel apresentadas no “The Life of Pablo” (2016) – na qual ele reflete sobre acontecimentos recentes. Enquanto parece arrependido, ele aborda sua declaração sobre a escravidão e o subseqüente estado de pânico de sua esposa. “A gente ouve dizer que a escravidão durou 400 anos. 400 anos? Parece uma escolha”, ele disse ao TMZ. Não há forma de remediar tamanho absurdo dito por ele. Entretanto, “Wouldn’t Leave” é uma faixa musicalmente incrível. Outra coisa que ele aborda no primeiro verso é o remorso por deixar Kim Kardashian tão angustiada. “Wouldn’t Leave” também reflete sobre o seu diagnóstico de bipolaridade, algo que está impactando em sua vida familiar e profissional. Enquanto isso, há uma combinação de amostras de soul com batidas de hip hop, linhas de piano e um refrão cantado por PARTYNEXTDOOR. É certamente um dos momentos mais emocionantes e vulneráveis do “ye”. Enquanto Charlie Wilson canta em “No Mistakes”, Kanye West faz uma homenagem aos seus amigos que passaram por momentos ruins e agora estão no topo. Nessa música, ele também responde às recentes críticas de Drake ao admitir que ainda gosta do artista. Ao brincar com seu velho truque de utilizar canções de soul como sample, ele conseguiu criar uma bela celebração de vida. A melodia de piano retirada de “Children (Get Together)”, interpretada por Slick Rick, forma a base da música. Liricamente, é uma música sólida que toca nos erros que ele cometeu no passado.

Embora extremamente eficaz, “Ghost Town” possui ferramentas muito similares às do “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” (2010). As guitarras são quase uma homenagem para “Gorgeous” e, quando combinadas com o gancho do Kid Cudi e a introdução de PARTYNEXTDOOR, anuncia o arco emocional do álbum. A produção possui boas batidas e uma mixagem que parece criar uma sensação de pavor. Entretanto, às vezes os sons bizarros entram em desacordo com eles mesmos. Mas embora seja uma faixa sem uma clara identidade, é ambiciosa e singular. Implementando uma guitarra elétrica matadora, Kanye West construiu um dos destaques do LP. Além do próprio rapper, quem também rouba o show é 070 Shake, um jovem cantor da G.O.O.D. Music. “Violent Crimes” o vê falando sobre como sua atitude em relação às mulheres mudou desde que sua filha nasceu. Enquanto 070 Shake canta o refrão de forma auto-sintonizada, West reflete sobre sua paternidade. Suas letras costumam ser misóginas, mas agora ele parece estar reconsiderando sua posição. Depois de ouvir o “ye” várias vezes, pude perceber que se trata de um projeto muito mais intimista do que seus esforços anteriores. Aqui você poderá encontrar algumas das letras mais pessoais do Kanye West. Portanto, se há uma coisa positiva sobre este disco é que o processo de escrita o ajudou a superar certas coisas. E isso não tirou o efeito polarizador e ceticismo que faz parte de sua personalidade. Sonoramente deixa um pouco a desejar, especialmente vindo de um artista tão prolífico quanto ele. Mas embora não seja tão memorável quanto seus melhores álbuns, “ye” consegue ser sólido e coeso.

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Favorite Tracks:

“Yikes” / “Wouldn’t Leave” / “Ghost Town”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.