Review: Kanye West – ye (2018)

Lançamento: 01/06/2018
Gênero: Hip hop
Gravadora: G.O.O.D Music / Def Jam Recordings
Produtores: Kanye West, Mike Dean, 7 Aurelius, Aaron Lammer, Andy C, Apex Martin, Benny Blanco, Caroline Shaw, Che Pope, Eric Danchick, Francis and the Lights, Irv Gotti, Noah Goldstein, Pi’erre Bourne, Scott Carter e Ty Dolla $ign.

“ye” não é o melhor momento do Kanye West, mas é um lembrete de suas produções exuberantes. Apesar de possuir um protagonista às vezes irritante, esse álbum é francamente autoconsciente e cativante.

Kanye West sempre foi um criador de tendências. Quando você ignora seus comentários insípidos, e se concentra apenas em sua música, você encontra um homem que consistentemente quebrou as barreiras a fim de se tornar um gênio do hip hop moderno. Cada um de seus álbuns tem estado à frente da concorrência, seja utilizando samples de soul e gospel em “The College Dropout” (2004) e “Late Registration” (2005), incorporando sintetizadores de forma empolgante no “Graduation” (2007) e “Yeezus” (2013), ou usando poderosas batidas e auto-tune, que mais tarde inspirariam artistas como The Weeknd e Drake, no “808s & Heartbreak” (2008), Kanye West sempre criou tendências e lançou grandes projetos. Em 01 de junho de 2018, ele lançou o seu oitavo álbum de estúdio, simplesmente chamado de “ye”. De certa forma, é um registro direcionado apenas para os fãs. É o segundo de uma série de álbuns lançados durante o verão, que ele produziu nas montanhas do estado de Wyoming. Musicalmente, “ye” é parecido com o “The Life of Pablo” (2016), no entanto, ao contrário do mesmo, é muito curto, conciso e possui apenas sete faixas no decorrer de 23 minutos. No Twitter, Kim Kardashian revelou que a capa do álbum foi uma foto que Kanye West tirou das montanhas cobertas de neve – a caminho da festa de lançamento em sua propriedade em Wyoming.

Na capa podemos observar uma frase que diz: “Eu odeio ser bipolar sua incrível”. Enquanto West pagou US$ 85 mil em uma foto do banheiro de Whitney Houston para usar como capa do “Daytona” do Pusha T, ele resolveu tirar essa simples foto do seu iPhone para seu próprio álbum. Parece generoso chamar “ye” de um álbum, especialmente considerando que é o trabalho do mesmo artista que uma vez nos deu uma grandiosa obra-prima como o “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” (2010). O prazer do ouvinte será diretamente proporcional à paciência dele com as artimanhas do rapper. Porque, por mais breve que seja, ainda há muita coisa escondida no “ye”. Não é o desastre que algumas pessoas esperavam, e o disco tem alguns momentos brilhantes. Mas, certamente, West poderia ter feito algo muito melhor, se ele tivesse trabalhado mais tempo nisso e colocado mais sentimento e profundidade no que ele estava tentando dizer. Basicamente, o que cercou o corpo deste trabalho foi seu retorno às redes sociais e certos comentários sobre Donald Trump e a escravidão.  Mas apesar de toda controvérsia, Kanye West conseguiu criar um álbum brutalmente honesto, que combina letras cruas com um alto nível de produção. Embora não seja tão bom quanto o “Late Registration” (2005) ou “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” (2010), ainda é um registro cativante.

Liricamente, ele confronta questões que envolvem sua saúde mental e batalhas com a realidade. Por mais que ele seja o rapper mais polarizador dos últimos anos, Kanye West aparentemente nunca se sentiu tão isolado como agora. Enquanto o “The Life of Pablo” (2016), apresentou um cara mais instável e maníaco, “ye” o encontra no seu momento mais frágil e paranoico. Em uma primeira inspeção, “ye” parece sonoramente descuidado. Porém, depois de repetidas escutas, você percebe o quanto ele é introspectivo e conciso. O repertório começa bem escuro com a faixa “I Thought About Killing You”, conforme Kanye West admite que ele deveria dizer algo mais brilhante para equilibrar os pensamentos sombrios. O resultado é perturbador e arrepiante, pois ele aborda um assassinato presumidamente premeditado, misturado com uma infinidade de anedotas suicidas. Essa faixa não vê problema algum em mostrar a escuridão que uma pessoa pode ter com sua saúde mental. Ele mostra sem hesitação seus pensamentos de amor-próprio, auto-ódio, suicídio e vício. Sua voz fica mais e mais profunda enquanto seus pensamentos permanecem obscuros. E isso é apenas o começo. Seu monólogo é franco, perturbador e define um tom essencialmente ameaçador para o que se segue.

Embora as letras não sejam as melhores, a produção é imaculada e audível, como na maior parte do álbum. “Yikes” é outra música sombria que mergulha na escuridão dos pensamentos do rapper e fornece uma natureza provocativa. Aqui, ele faz referências à drogas, Russell Simmons, movimento #MeToo, Coréia do Norte e Wiz Khalifa (“Nós poderíamos estar na Coréia do Norte, eu poderia fumar com o Wiz Khalifa”). Esses momentos líricos são clássicos do rapper, pois são embalados com um senso de ironia e arrogância. O ritmo aumenta nessa faixa, ao passo que Kanye West apresenta seu rap mais convencional. “Yikes” é realmente energética, conforme ele adota um fluxo irregular semelhante ao de “Wolves” do álbum “The Life of Pablo” (2016). No primeiro verso, West faz uma viagem sombria e fala sobre o vício em drogas: “Mexendo, mexendo com o 2CB, hein? / Ele vai fazer isso?”. 2CB é chamada de “droga da alta sociedade” devido ao seu grande custo. Certamente, Kanye West sabe como abordar o vício em drogas de forma angustiante e obscura. Mais tarde, ele mostra apoio a Russell Simons, que tem várias alegações de agressão sexual contra ele.  Logo em seguida, ele avisa durante o refrão: “A parada pode ficar perigosa, sinistra, encontre ajuda / Às vezes eu mesmo me assusto”. Outro ponto abordado em “Yikes” é o transtorno bipolar do rapper, conforme ele declara que isso é o seu super-poder.

“Essa é a minha terceira pessoa / Essa é minha merda bipolar, mano o que? / Essa é minha superpotência, mano não é nenhuma deficiência / Eu sou super-herói! Eu sou super-herói!”, ele diz nas últimas linhas. “All Mine” é provavelmente uma das coisas mais assustadoras que você vai encontrar no álbum. Aqui, você escuta temas como infidelidade, mas com um senso de humor um pouco estúpido. É uma música que lembra o “Yeezus” (2013), com uma batida extremamente sólida e sombria. Dessa vez, Kanye West aponta o dedo para celebridades como Chris Rock, Kobe Bryant e Tristan Thompson (o namorado de sua cunhada Khloe Kardashian). Inicialmente, “All Mine” começa com um interlúdio de órgão, mas é interrompido por Valee Taylor cantando o refrão em falsetes. A voz do Valee combinou bem com as batidas, embora esteja em desacordo com o fluxo confiante do Kanye West. A parte do Ty Dolla $ign, por sua vez, dá um tom ainda mais sexual para a faixa. Os versos do West fazem referências ao suposto caso entre Chris Rock e Kerry Washington. “Se eu aparecer com uma Kerry Washington / Isso vai ser um enorme escândalo / Eu poderia ter Naomi Campbell / E ainda assim querer uma Stormy Daniels”, ele rima. Liricamente, o rapper usa um lirismo bastante sexual, por isso também nos remete às letras sexualizadas de “I’m in It”.

Embora possua algumas linhas interessantes, o trabalho lírico de “All Mine” é praticamente apagado por causa de frases extremamente grosseiras. “Wouldn’t Leave”, por outro lado, é um tributo sutil às influências gospel apresentadas no álbum “The Life of Pablo” (2016), na qual ele reflete sobre acontecimentos recentes. Enquanto West parece arrependido, a letra aborda sua declaração sobre a escravidão e o subseqüente estado de pânico de sua esposa. “A gente ouve dizer que a escravidão durou 400 anos. 400 anos? Parece uma escolha”, ele disse ao TMZ. Não há forma de remediar tamanho absurdo dito por ele. Entretanto, “Wouldn’t Leave” é uma faixa musicalmente incrível. Outra coisa que ele aborda no primeiro verso é o remorso por deixar Kim Kardashian tão angustiada. “Tive que acalmá-la porque ela não conseguia respirar / Disse a ela que ela poderia me deixar agora, mas ela não iria embora”, ele confessa. Segundo o rapper, Kim ficou extremamente aflita por conta da péssima repercussão causada por sua entrevista. “Wouldn’t Leave” também reflete sobre o seu diagnóstico de bipolaridade, uma vez que está impactando na sua vida familiar e profissional. A reação de Kim Kardashian aos comentários controversos sobre a escravidão, é um grande ponto discutido por aqui. Em alguns lugares, “Wouldn’t Leave” possui uma vibe que lembra “Real Friends”.

Enquanto isso, há uma combinação de amostras de soul com batidas de hip hop, linhas de piano e um refrão cantado por PARTYNEXTDOOR. É certamente um dos momentos mais emocionantes e vulneráveis do “ye”. Enquanto Charlie Wilson canta em “No Mistakes”, Kanye West faz uma homenagem aos seus amigos que passaram por momentos ruins e agora estão no topo. Nessa música, ele também responde às recentes críticas de Drake ao admitir que ainda gosta do artista. Ao brincar com seu velho truque de utilizar canções de soul como sample, ele conseguiu criar uma bela celebração da vida. A melodia de piano retirada de “Children (Get Together)”, interpretada por Slick Rick, forma a base da música. Liricamente, “No Mistakes” é uma música sólida com produção otimista que toca nos muitos erros que West cometeu no passado. Embora extremamente eficaz, “Ghost Town”, possui ferramentas muito similares às do “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” (2010). As guitarras são quase uma homenagem para “Gorgeous” e, quando combinadas com o gancho do Kid Cudi e a introdução de PARTYNEXTDOOR e Trade Martin, anunciam o arco emocional do álbum. Aqui, Kanye admite seu vício em fentanil: “Anos à frente, mas muito atrás, eu estou em um, dois, três, quatro, cinco / Sem meias-verdades, apenas mentes nuas, presas entre o espaço e o tempo / Isso agora, com o bem em mente, mas talvez algum dia”.

Ele é o Kanye West e sua honestidade é o destaque do álbum. A produção possui boas batidas e uma mixagem que parece criar uma sensação de pavor. Entretanto, às vezes os sons bizarros entram em desacordo com eles mesmos. Mas embora seja uma faixa sem uma clara identidade, é ambiciosa e singular. Implementando sua marca registrada e uma guitarra elétrica matadora, West construiu um dos destaques do álbum. Além do próprio rapper, quem também rouba o show é o 070 Shake, um jovem cantor contratado da G.O.O.D. Music. A faixa final, “Violent Crimes”, vê Kanye West falando sobre como sua atitude em relação às mulheres mudou desde que sua filha nasceu. Enquanto 070 Shake canta o refrão de forma auto-sintonizada, West reflete sobre sua paternidade. Suas letras costumam ser misóginas, mas agora ele parece estar reconsiderando sua posição. Depois de ouvir o “ye” várias vezes, pude perceber que se trata de um projeto muito mais intimista do que seus esforços anteriores. Aqui você poderá encontrar algumas das letras mais pessoais do Kanye West. Portanto, se há uma coisa positiva sobre este disco é que o processo de escrita o ajudou a superar certas coisas. E isso não tirou o efeito polarizador e ceticismo que faz parte de sua personalidade. Sonoramente deixa um pouco a desejar, especialmente vindo de um artista tão prolífico quanto ele. Mas embora não seja tão memorável quanto seus melhores álbuns, “ye” consegue ser sólido e coeso.

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Favorite Tracks:

“Yikes” / “Wouldn’t Leave” / “Ghost Town”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.