Review: Janelle Monáe – Dirty Computer (2018)

Lançamento: 27/04/2018
Gênero: R&B, Funk, Pop, Hip hop, Neo soul
Gravadora: Bad Boy Records / Atlantic Records
Produtores: Janelle Monáe, Nate Wonder, Chuck Lightning, Sean “Diddy” Combs, Nana Kwabena, Roman GianArthur, Jon Jon Traxx, Wynne Bennett, Jon Brion, Mattman & Robin e Organized Noize.

“Dirty Computer” é uma perfeita celebração do poder feminino e valor próprio. A música da Janelle Monáe é engenhosa, ambiciosa e inspiradora. Como um todo, este álbum oferece um relato profundo sobre suas experiências pessoais como uma mulher negra.

Os álbuns da Janelle Monáe sempre colocaram a perspectiva de seu alter ego Cindi Mayweather a frente, um androide que está sendo punido por se apaixonar por um humano. Através desta personagem, Monáe passou a explorar temas que envolvem a injustiça racial e social dentro de comunidades minoritárias. Após um hiato de cinco anos, finalmente chegamos ao “Dirty Computer”, um álbum sobre o amor, igualdade, sexualidade, medo, raça e cultura sob a visão de sua nova personagem, Jane. Musicalmente, este disco possui fortes influências dos anos 80 que foram misturadas com tendências modernas de uma forma magistral. Com o complicado clima político da atualidade, o timing do “Dirty Computer” não poderia ser melhor. O repertório reúne diferentes gêneros que passam pelo pop, R&B, funk, hip hop, soul e sci-fi. Inspirada por artistas como Prince e Janet Jackson, e apresentando faixas que caracterizam os gostos de Stevie Wonder e Grimes, Janelle Monáe conta sua própria história e as experiências de ser uma mulher negra pansexual. Desta vez, a linguagem sonora da cantora é completamente exuberante e focada na liberdade de expressão. Sua mensagem a respeito de liberdade é tão vital quanto os sons que a transmite. Com este registro, ela quer empoderar as mulheres, os negros e a comunidade LGBTQ que tanto sofrem em decorrência da discriminação da sociedade. A breve faixa-título, “Dirty Computer”, começa de forma extravagante e recebe vocais de um improvável colaborador, Brian Wilson.

Acompanhada pelos sintetizadores e as guitarras rítmicas, seus belos vocais nos trazem para um momento completamente doce e angelical. Em seguida, Monáe explora sua identidade como mulher negra nas raízes oitentistas de “Crazy, Classic, Life”. Ancorada por uma programação de bateria contemporânea, sua mensagem é “viver a sua verdade” e ser “fiel a si mesmo”. Na funky “Take a Byte”, ela incorpora um espírito feminista em relação à sua sexualidade, enquanto “Jane’s Dream” é uma faixa de transição em homenagem a sua personagem, um Computador Sujo que quer ser livre. O fluxo de “Screwed”, canção que fornece uma cativante melodia, é formado por letras cheias de poder. Trata-se de uma música com um duplo sentido que defende a liberdade sexual. “Estamos tão ferrados / Vamos nos ferrar, não me importo”, ela canta aqui. O título da música se refere às insinuações sexuais e ao estado do seu país. A música termina com uma transição que nos leva diretamente para a próxima faixa. “Django Jane” começa com uma introdução enigmática e nebulosa. Assim que o trabalho de produção é concluído, fica claro que o som lembra uma música de rap contemporânea. Existem sintetizadores, chimbais, linhas de baixo e uma bateria rítmica. Seus versos são poderosos e a batida de trap aumenta a intensidade de suas letras. Monáe cita versos sobre feminismo, auto-estima e orgulho por passar de uma fase difícil e chegar até onde está agora. Nessa música, ela faz referências ao filme “Moonlight”, números de bilheteria para filmes afro-americanos e a distinção entre Jane Bond e Jane Doe.

Além da presença de Grimes, “Pynk” possui amostras de “Pink” do Aerosmith, com os membros da banda sendo creditados como co-escritores. Assim como “Django Jane”, esta música mantém o foco no emponderamento feminino. Janelle Monáe descreveu esta canção como “uma celebração da criação, amor próprio, sexualidade e poder da buceta”. Produzida por Wynne Bennett, “Pynk” contém batidas de R&B, riffs de guitarra, sintetizadores pulsantes, estalar de dedos e um ritmo misterioso. Um dos principais componentes de “Pynk” é o maravilhoso riff de guitarra elétrica do refrão. Ele dá uma textura necessária para a música, uma vez que os versos são um pouco monótonos. Além disso, a guitarra injeta um ar psicodélico e punk no refrão, conforme Janelle Monáe e Grimes cantam: “Ah, sim, alguns gostam disso / Ah, ah, alguns gostam disso / Ah, sim, alguns gostam / Porque, garoto, tudo bem / Se você tem o azul / Nós temos o rosa”. Delicada, encantadora e caprichosa, essa música é um hino para as mulheres. Produzida pela dupla sueca Mattman & Robin, “Make Me Feel” é um funk de alta energia com algumas semelhanças à “Kiss” do Prince. Além disso, nos faz lembrar de faixas do passado da própria Monáe, tais como “Q.U.E.E.N.” e “Dance Apocalyptic”. Influências dos anos 80 são bastante claras ao longo de toda a música. Tal como o seu disco anterior, “Make Me Feel” mostra o quanto Janelle Monáe é eclética e diversificada.

Liricamente, ela expressa seus desejos sexuais, enquanto fornece um som peculiar e atraente. Possui uma melodia soul cativante e produção elevada por riffs de guitarra funky. Os tons sedosos de Monáe surgem sem esforços sobre a percussão, baixo e fortes linhas de sintetizador. O tom oitentista da música torna tudo mais divertido e nostálgico, conforme harmonias aveludadas adicionam uma camada extra. “Make Me Feel” é uma faixa experimental, energética e groovy que a vê combinando o melhor do funk e R&B. “É assim que você me faz sentir / Tão bom, tão bom e real pra caralho! / É assim que você me faz sentir”, ela canta no refrão. É um trilha sexualmente carregada que analisa a maneira como alguém pode fazer você se sentir. “I Got the Juice”, com Pharrell Williams, faz referências explícitas ao prazer sexual. É outra música inspirada pelo Prince que combina o R&B, funk, rap e o rock com uma borda eletrônica. “Se você tentar pegar minha buceta, essa buceta te pega de volta”, ela canta aqui. Nos versos de “I Like That”, ela pinta um quadro sobre ecletismo e inconformismo sobre elementos de reggae. Mas há um dualismo sobre as letras, conforme ela afirma que é uma pessoa especial e verdadeiramente única que não pode ser rotulada. É uma canção nostálgica e uma carta de amor-próprio direcionada especificamente para a comunidade afro-americana. A música mais longa do álbum, “Don’t Judge Me”, possui um ritmo lento e emotivo, através do qual ela canta com franqueza sobre suas percepções.

Apesar de seu comprimento, é incrivelmente agradável e bem arredondada. Uma música sexy, onde Monáe parece capturar a importância de uma conexão emocional e o respeito em um relacionamento. O baixo pesado e os suaves riffs de guitarra criam um cenário delicado, enquanto ela questiona a legitimidade dos relacionamentos dominados pelo sexo. “Stevie’s Dream” é uma transição que lembra “Jane’s Dream” e nos dá uma bela melodia sob um poema falado de Stevie Wonder. Monáe também mostra um lado vulnerável durante “So Afraid”. Uma canção poderosa com uma camada de insegurança, que utiliza elementos de soul para dar uma visão mais profunda dos seus pensamentos. No refrão, ela proclama: “Estou na minha concha”. O refrão entra em cena com uma melodia suave e harmonia coral incrivelmente acolhedora. Na maravilhosa “Americans”, a última faixa do álbum, Janelle Monáe aborda a América moderna tocando em assuntos que envolvem racismo e misoginia. Sob influências gospel, ela criou uma canção angelical e a mais socialmente carregada do repertório. Destaque para o fascinante coral da introdução que causa arrepios e te leva para outra dimensão. Ao todo, “Dirty Computer” é um manifesto político e uma poderosa obra artística. Seu terceiro álbum é tão significativo e sublime quanto seus dois discos anteriores. Ele transborda sobre questões socialmente carregadas e concentra-se no feminismo, identidade e sexualidade. Em suma, “Dirty Computer” é um álbum impressionante que te deixa com uma forte impressão!

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Favorite Tracks:

“Pynk (feat. Grimes)” / “Make Me Feel” / “Americans”.

São Paulo, 22 anos, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas e séries. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.