Review: Charli XCX – Pop 2 (2017)

Lançamento: 15/12/2017
Gênero: Eletrônica, Pop Experimental, Dance-Pop
Gravadora: Asylum Records / PC Music
Produtores: A. G. Cook, EasyFun, Life Sim, King Henry, Lil Data, Sophie, Umru e Ö.

Charli XCX ganhou fama em 2013, depois de emprestar seus vocais para o single “I Love It” do duo Icona Pop. Em 2014, ela ajudou Iggy Azalea a tornar “Fancy” em dos maiores hits do ano. Concomitantemente, XCX conseguiu o seu primeiro sucesso internacional com “Boom Clap”, faixa da trilha sonora do filme “A Culpa é das Estrelas”. O estilo de Charli XCX é uma mistura singular de pop, punk e música eletrônica, algo que a diferencia de outros artistas contemporâneos do mainstream. Em sua mais recente mixtape, “Pop 2”, XCX nos apresenta uma visão de um possível futuro da música pop. Aqui, ela fornece colaborações inesperadas, diversidade, experimentação, melodias pouco convencionais e letras acima da média. Os efeitos instrumentais e os seus vocais trabalham em conjunto, a fim de entregar emoções desordenadas e sensações estranhas.

Há um pouco de tudo no “Pop 2”, desde vocais distorcidos e modificados até colaborações com artistas de diferentes países. Com o lançamento da mixtape “Number 1 Angel” no início de 2017, XCX capturou a atenção dos seus fãs. Mas quando o ano estava quase terminando, ela ainda teve tempo para lançar uma mixtape muito melhor. Uma das coisas mais especiais sobre este projeto é como a escrita fornece um grande contraste sobre as batidas. É um material que proporciona um aceno para o estilo mais profundo e emocional da Charli XCX, algo que nos faz recordar do “True Romance” (2013). Onde o “Number 1 Angel” (2017) extraiu forças do eletropop, o “Pop 2” assume um ritmo mais vertiginoso e influências de outros gêneros. Com este trabalho, XCX nos mostrou que, ao lado de músicos e produtores talentosos, é possível experimentar e compartilhar diferentes experiências.

Há uma incansável energia criativa sobre esta mixtape que cruza as fronteiras e continentes. O fundador da PC Music, A.G. Cook, possui crédito de produção em todas as dez faixas, por isso não é surpreendente que a maior parte do repertório faça uso de ritmos hiperativos, arpejos de sintetizadores e vocais agressivamente modificados. E, mesmo onde não existe este tipo de acrobacias musicais que desafiam a música pop, XCX e seus produtores exibem um senso de diversão e experimentação. Auto-sintonizada e totalmente descontraída, “Pop 2” é o pop no seu estado mais experimental. Como já mencionado, A.G. Cook foi um dos principais responsáveis pela criação desta mixtape completamente original. Ele está por trás das batidas eletrônica pulsantes e sintonização automática. Cook e XCX mostraram como é possível usar o auto-tune com qualidade!

Ademais, “Pop 2” vê a britânica reunindo um elenco formidável de diferentes artistas num só lugar, que incluem a sueca Tove Lo, a dinamarquesa MØ, a canadense Carly Rae Jepsen, a filandesa ALMA, a drag-queen brasileira Pabllo Vittar, o estoniano TOMM¥ €A$H, a alemã Kim Petras e as rappers americanas Brooke Candy e CupcaKke. Tantas colaborações assim podem ser um tanto arriscado, entretanto, no “Pop 2”, isso só ajudou a elevar o projeto para novas alturas. Assim como as batidas futuristas e honestidade lírica, os artistas de diferentes países só colaboraram positivamente. Ao lado de tantos músicos talentosos, Charli XCX conseguiu criar um trabalho verdadeiramente único. Livre de qualquer restrição, ela foi capaz de aprofundar-se num mundo experimental. Doce e sincero em algumas faixas e alimentada por drogas e sexo em outras, XCX criou um projeto intrigante de eletropop e dance-pop.

“Pop 2” pode estar muito longe do estilo musical encontrado nos álbuns “True Romance” (2013) e “SUCKER” (2014), mas isso é apenas um testemunho da versatilidade e evolução de Charli XCX. Embalado até a superfície pela estranheza, harmonias dissonantes e batidas complicadas, esta mixtape exige ser tocada num volume alto. Em vez de abraçar completamente o mainstream genérico, Charli prova que é corajosa o suficiente para experimentar. “Pop 2” abre com a faixa “Backseat”, uma colaboração inusitada com Carly Rae Jepsen. A atmosfera desta música guia Charli XCX pelas mesmas emoções encontradas no “E•MO•TION” (2015). Os versos são curto e simples, à medida que a produção constrói um clímax verdadeiramente contagiante. As batidas rígidas e os sintetizadores crescentes são incríveis e infecciosos. Após iniciar com sons robotizados, a música fornece ruídos aleatórios por toda sua duração. Ademais, a presença de Carly Rae Jepsen é uma característica emocional e excitante.

A composição desta faixa é evocativa ao extremo, principalmente pelas combinações líricas. “Estou bem acordada, lendo ao lado dele e sinto tudo / Tenho sede de distração que não posso retomar / Meus dedos atravessam seu cabelo / Estou arrepiante de arrependimentos / Eu coloco minha boca em seus lábios para provar”, Jepsen canta. Em outras palavras, é um número down-tempo doloroso, expressivo e bem-aventurado. O primeiro single, “Out of My Head”, com ALMA e Tove Lo, também possui muitos sons que não se harmonizam. Entretanto, isto acaba sendo algo surpreendentemente positivo. Um hino eletropop cativante com maravilhosos sintetizadores, que nos dá um completo vislumbre da mixtape. A escuridão continua fervendo em torno de linhas como: “Comprimidos, poções e coisas terríveis / Coração no chão quando o telefone tocar / Todas as mentiras que eu só quero acreditar / Solte toda a minha moral, eu só quero pecar”, Tove Lo canta aqui.

A maneira como as três se juntam para criar um banger coeso e igualmente cativante, é simplesmente espantoso! A química apresentada por elas traz a música para a vida. O instrumental contagiante contorce em torno de suas vozes e vicia logo na primeira escuta. Entre a longa lista de colaborações da mixtape, existem duas músicas solo de Charli XCX. Uma delas é a balada “Lucky”, a terceira faixa do repertório. Os vocais estão intencionalmente distorcidos e parecem um disco riscado. Esta canção possui um tom mais lento, obscuro e triste do que o restante da mixtape. O auto-tune e ecos eletrônicos são misturados adequadamente e justapostos por uma performance vocal sombria. Em “Tears”, XCX colabora com Caroline Polachek a fim de criar um número peculiar. Sua composição, atada por sintetizadores industriais e fortes tambores, é muito mais pesada em termos de som e substância.

A batida trap, sintetizadores mais cintilantes e os gritos ao fundo, conseguem inusitadamente acrescentar um profundo nível de emoção à música. O single promocional “I Got It” é um hino atrevido que enaltece o poder feminino e a positividade corporal. Um banger minimalista e excêntrico, com participação de Brooke Candy, CupcakKe e Pabllo Vittar, que nos fornece um vislumbre de tudo o que a música pop poderia ser. Sem dúvida, é uma das faixas de maior destaque da mixtape! “I Got It” começa firmemente no território trap com vocais distorcidos, forte percussão, excelente linha de baixo e pontapés poderosos de Brooke Candy. “Peitos grandes, tamanho extra G / Sem silicone e sem solução salina / Elas têm inveja de mim”, ela rima ao demonstrar toda confiança em seu corpo. Além de sonicamente insana, “I Got It” possui uma das melhores melodias e convidados do álbum.

O refrão parece um robô, mas são esses vocais distorcidos que dão um ar experimental e futurista para a canção. A torção vocal de Charli XCX faz a batida evoluir ao longo de sua execução e captura diferentes tons. Cada mudança de ritmo da música consegue criar alguns dos melhores momentos da mixtape. CupcakKe entrega o seu verso com um instinto assassino incomparável. Cada palavra que ela diz parece ter uma força descomunal: “Tem um bocado de invejosas querendo minha atenção / Elas são tão rancorosas, mas eu nem ligo / Ficam espiando tipo espectadoras, enquanto eu só faço meu dinheiro”. Em seguida, Pabllo Vittar canta em português sobre uma paisagem euro-house construído por sintetizadores cintilantes. Novamente, há uma mudança de ritmo que transporta a música para outro dimensão. “Controlo qualquer um com a minha bruxaria / Minha bunda é mais forte que feitiçaria / Encanta, magia, atiça, vicia”, ela canta.

Para “Femmebot”, Chari XCX recrutou Dorian Electra e Mykki Blanco para criar uma realidade feminista. “Eu recebo o que eu quero / Goste ou não”, Charli canta insinuando que está no comando. Os sons robotizados que tocam em segundo plano, misturados com a batida, linha de baixo e o pesado refrão formam uma combinação excelente. “Delicious”, com o rapper TOMM¥ €A$H, fornece um refrão tranquilo e atraente. O instrumental segue pela mesma fórmula de “I Got It” e muda de paisagem sonora a todo momento. O pano de fundo e os vocais combinam-se para criar uma pista altamente envolvente. Um número alternativo com sintetizadores potentes e estilizados, e entrega sensual de Charli XCX. Dito isto, embora o fluxo de TOMM¥ €A$H seja bom, o seu conteúdo lírico deixa muito a desejar. A faixa mais comercial do álbum, “Unlock It”, com Kim Petras e Jay Park, possui um refrão hipnótico e viciante.

Uma música de amor aventureira que nos leva por um verdadeiro “passeio de montanha-russa”. “Porsche”, com MØ, é outra faixa essencial que explora um tema importante ao mesmo tempo que te faz querer dançar. Mas, depois de nove faixas preenchidas com auto-tune pesado, sintetizadores e fortes linhas de baixo, o álbum chega ao fim com “Track 10”. Essa faixa era anteriormente intitulada “Blame It On Your Love” e não iria ser incluída na mixtape. No entanto, foi retrabalhada e novamente editada. Agora intitulada apenas de “Track 10”, essa canção exibe um lado igualmente angustiante e vulnerável. Apesar de ser conduzida através de camadas de auto-tune, a voz de XCX está mais emotiva do que em qualquer outra canção. Aqui, ela revela detalhadamente os seus medos e falhas. “Eu adoro quando você precisa de mim”, ela canta no segundo verso.

Experimental e eufórica em alguns momentos, repetitiva e maluca em outros, é uma peça elétrica, com mais de cinco minutos de duração, adequada para encerrar o material mais convincente de Charli XCX até à data. “Pop 2” é um dos melhores projetos de 2017 por conta de sua qualidade e criatividade. A capacidade de XCX em empurrar os limites da música pop é muito admirável. Esta mixtape demonstra com propriedade todos os seus pontos fortes. Mais uma vez, ela provou o quanto é talentosa e que não tem medo de ser criativa. “Pop 2” é uma discoteca fututista que mostrou o quanto Charli XCX cresceu. Certamente, a indústria precisa de mais artistas que sejam inclusivos e inventivos como ela. “Number 1 Angel” é uma ótima mixtape, mas “Pop 2” é excelente! Agora, só podemos esperar que Charli XCX continue ousada e se desenvolva da mesma forma no futuro.

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Favorite Tracks:

“Backseat (feat. Carly Rae Jepsen)” / “Out of My Head (feat. ALMA & Tove Lo)” / “I Got It (feat. Brooke Candy, CupcakKe & Pabllo Vittar)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.