Review: Cardi B – Invasion of Privacy (2018)

Este álbum de estreia colocou Cardi B entre os maiores rappers do momento. Aqui, ela está descarada, vulnerável, audaciosa, honesta e cheia de personalidade.

Depois de estourar no hip-hop no primeiro semestre do ano passado, o álbum de estreia da Cardi B foi lançado em 06 de abril de 2018. A ascensão de Belcalis Almanzar é um tanto quanto intrigante. Ela abandonou o caixa de um supermercado para trabalhar como stripper e, posteriormente, ganhou fama no Instagram e Vine. Na música, ela só ganhou notoriedade com o lançamento do seu primeiro single por uma grande gravadora. Depois do lançamento de “Bodak Yellow”, que liderou a Billboard Hot 100 por três semanas, Cardi B ganhou muitos fãs. Sua última mixtape, “Gangsta Bitch Music, Vol. 2” (2016), destacou sua natureza agressiva, mas com o lançamento do seu primeiro álbum, “Invasion of Privacy”, Cardi desafiou nossas expectativas e mostrou um lado autêntico e vulnerável de sua personalidade. Ela é uma mulher orgulhosa que expressa qualquer pensamento que vêm em sua cabeça, seja sobre o tempo que era stripper ou sexo com seu namorado. Mas há uma energia e paixão envolta de suas músicas que transformam seu discurso em algo incrivelmente sincero. Ela parece tão honesta quando diz ser grata pelo apoio dos fãs ou flexiona sua voz contra os inimigos. Há muitas razões pelas quais “Bodak Yellow” fez sucesso em 2017, afinal é uma música de grande qualidade. Mas provavelmente a maior razão foi a entrega impetuosa da própria Cardi. Sua voz profunda capitaliza seu hype no rap, enquanto a atitude descarada transborda através do microfone.

Em “Invasion of Privacy”, que habilmente se limita a treze faixas, Cardi B mostra o seu talento e aptidão para a música. Grande parte do repertório apresenta sua perspectiva singular ao lado de uma série de artistas convidados, como Migos, Chance the Rapper, Kehlani, 21 Savage e SZA. A maioria das canções aborda sua ascensão no rap e seu relacionamento com Offset. Ao longo do registro, ouvimos vocais agressivos emparelhados com batidas cativantes e letras carismáticas. Cardi B realmente possui um charme que faz você gostar dela como pessoa e artista. Ademais, suas fortes raízes do Bronx, Nova York, faz dela uma pessoa orgulhosa e autêntica. O álbum começa com “Get Up 10”, uma faixa que conta uma pequena história sobre a vida da Cardi. Ela fala sobre seu trabalho como stripper e responde às constantes críticas sobre sua vida. Esta música está repleta de letras sinceras que complementam o cenário mais lento e melódico. É uma boa maneira de começar o álbum, porque realmente fala sobre suas raízes e as escolhas que ela teve que fazer para chegar onde está agora. No primeiro verso, ela referencia seu passado como stripper: “Eu estava coberta de dólares, agora estou pingando em joias”. Ademais, ela termina com uma frase inspiradora: “Me derrube nove vezes, mas eu levanto dez”. A produção de “Get Up 10” é despojada e o foco está claramente nas palavras da Cardi. Conforme a faixa progride, seu rap se torna cada vez mais agressivo.

O assombroso coro de fundo e os tambores de trap dão espaço para ela dizer tudo que está em sua mente. Embora “Invasion of Privacy” comece com uma nota pesada e melancólica, o restante do repertório possui faixas mais leves. “Drip”, por exemplo, é um rap auto-confiante onde ela está mais descontraída. Lançada como quarto single, “Drip” possui sintetizadores, flautas e batidas cativantes, conforme Cardi troca versos com Quavo, Takeoff e o seu noivo, Offset. Uma faixa que começa devagar e fornece letras repetitivas que a faz parecer um pouco estereotipada. Pode não ser tão poderosa quanto “Bodak Yellow”, mas transmite uma autoconfiança fora do normal. “Bickenhead” contém batidas mais enrijecidas, sintetizadores e bateria eletrônica. Diferente da faixa anterior, seu tom é um pouco mais rápido e contém letras mais explícitas. O hit “Bodak Yellow” foi batizado em homenagem ao rapper Kodak Black, e tornou-se um sucesso imediato. Mesmo sendo de rapper novata, essa música atingiu grandes níveis de aclamação. Cardi B continua apresentando um jogo de palavras que referencia sua vida passada como stripper. “Olha, eu não danço, eu faço o dinheiro se mexer”, ela diz. Sua cadência vocal, inspirada em “No Flockin” do Kodak Black, é intercalada por uma energia irreprimível e contagiante. Uma música que usa cerca de três notas e uma batida de fundo simplista que amarra as coisas perfeitamente. Sem um refrão melódico, baixo ou estrutura reconhecível, “Bodak Yellow” é uma das faixas de rap mais minimalistas de 2017.

Além do rap da Cardi, ela contém chimbais influenciados pelo trap e leves arpejos de sintetizador. É uma faixa que se concentra na sua entrega vocal e letras surpreendentemente honestas. Depois de alcançar o topo da Billboard com esta música, Cardi tornou-se a primeira rapper solo a conseguir tal feito desde Lauryn Hill em 1998. Em “Be Careful”, ela se direciona para um homem não identificado, possivelmente o seu noivo Offset. “Te dei carinho e atenção, você só quer pular a cerca / Tratou meu coração como um pedaço de merda / Cara, pensei que você aprenderia a sua lição / Curtindo fotos, não respondendo mensagens / Tudo bem, eu já entendi a mensagem / Você ainda gagueja depois de certas perguntas / Você mantêm contato com algumas ex”, ela diz honestamente no primeiro verso. Uma música confessional e perspicaz que aborda os rumores de uma possível traição. “Seja cuidadoso comigo / Sabe o que você está fazendo? / Os sentimentos cujo você machuca e pisa?”, ela canta no refrão. O seu canto não é necessariamente o mais forte, mas os rumores de infidelidade são reveladores. “Be Careful” apresenta a produção de Boi-1da, Frank Dukes e Vinylz, e fornece sintetizadores, órgão e um fluxo bem sólido. Embora não possua o mesmo impacto que “Bodak Yellow”, contém momentos líricos mais sinceros e vulneráveis. Uma canção melancólica onde ela também tomou a decisão de cantar. Ademais, Cardi B optou por adicionar na composição pequenos elementos de “Ex-Factor” da Lauryn Hill.

Por isto, é uma música que parece tão familiar. Ademais, exibe uma nova faceta da rapper, visto que ela substituiu sua arrogância e confiança por um tom mais sincero e emocional. Embora o seu comportamento arrogante seja uma grande parte do seu apelo, um tom emocional também é bem-vindo. Em seguida, ela mantém sua autenticidade em “Best Life”. Ao lado de Chance the Rapper, ela prospera ao cuspir palavras sobre quem realmente é. Sob um piano de assinatura, a rapper coloca seu fluxo no topo. Certamente, Cardi B e Chance the Rapper formam uma combinação frutífera. Sendo filha de uma mãe afro-trinidadiana e pai dominicano, Cardi permanece fiel à sua cultura em “I Like It”, canção que apresenta o porto-riquenho Bad Bunny e o colombiano J Balvin. Uma faixa trap com uma forte vibe latina e ritmo inspirado pela salsa. Resumidamente, é uma canção incrivelmente cativante que homenageia a herança latina da Cardi B. Ela contém sample de “I Like It Like That”, canção de 1967 do americano Pete Rodriguez, um sinônimo da ascensão do gênero boogaloo. Embora “Invasion of Privacy” possua faixas pesadas, ele também contém ofertas mais leves como “I Like It”. Uma das melhores e mais autênticas canções da rapper. Ao longo do sample, Cardi B uniu forças com dois hitmakers latinos a fim de produzir um som completamente envolvente. Seguindo os passos de “Narcos” do Migos, esta música é perspicaz ao abraçar as influências latinas. Embora já tenha colaborado com J Balvin, foi surpreendente ver dois artistas latinos no álbum. 

Ademais, esta canção é o mais próximo que Cardi B chegou da música pop. Dito isto, “I Like It” faz um bom trabalho ao mostrar sua personalidade, franqueza e humor num único lugar. Sob um instrumental contagiante, metais e uma excelente batida, Cardi fala sobre o quanto gosta de milhões de dólares, diamantes e conversíveis. É tão divertida, alegre e cativante! “Tenho uma cidade de diamantes inteira no meu colar / Eu disse que gosto assim”, ela canta no refrão. No primeiro verso, Cardi ostenta seu amor por determinadas coisas, enquanto Bad Bunny se mantém fiel à forma e faz referências à cultura pop. Ele também nos surpreende com alguns trechos em inglês. J Balvin, por sua vez, surge para um final divertido onde ele se gaba de “Mi Gente” tocar em todos os lugares. O rap da Cardi transmite confiança, enquanto faz insultos intransigentes. Ela é uma artista autoconsciente e flexível, e com “I Like It” conseguiu criar uma peça cultural que presta homenagem às suas raízes. A irresistível “Ring”, com Kehlani, contém reclamações sobre como muitos dos seus relacionamentos do passado foram frustrantes. Nesta faixa, há menos urgência do que na primeira metade do repertório. Mas apesar do ritmo mais descontraído, Cardi foi capaz de manter sua atitude e estilo de marca registrada. Ambas compartilham um forte senso de identidade e se unem de forma cativante. As letras de “Money Bag” combinam perfeitamente com os vocais mordazes da rapper. Seu fluxo é característico e a produção ideal para complementá-lo. O martelar do bumbo e a linha de sintetizador injetam uma força extra.

O segundo single, “Bartier Cardi”, é um número alegremente perverso e explícito que apresenta o 21 Savage. Sobre a batida impetuosa, Cardi flexiona seus vocais de forma tão rígida quando “Bodak Yellow”. Embora não seja instantaneamente marcante como tal, é um esforço bem sólido. Enquanto a infecciosa “She Bad”, com YG, contém batidas como cortesia de DJ Mustard, “Thru Your Phone” é uma faixa radiofônica escrita em colaboração com Justin Tranter. Esta canção alterna entre batidas agressivas e tons melódicos a fim de expressar os sentimentos conflitantes da Cardi B. A dor e raiva desta música permite que o ouvinte veja o seu lado mais vulnerável. Uma das faixas que mais chamam atenção é “I Do”, sua parceria com a SZA. Um dueto confiante e bem-sucedido sobre o amor próprio das mulheres. Como esperado, SZA entoa vocais requintados e navega com o seu registro mais alto. A rapper, por sua vez, cospe algumas linhas incrivelmente poderosas e arrogantes. A feminilidade muitas vezes precisa ser trabalhada para que as mulheres consigam se destacar no hip-hop. Assim como Lil Kim, Da Brat e Foxy Brown, Cardi B mostra o quanto é positiva em relação à sua sexualidade. Ela está imparável e preparada para enfrentar a indústria do hip-hop. “Agora sou chefe, escrevo meu nome nos cheques / Buceta, tão boa eu coloco o meu próprio nome no sexo”, ela diz no primeiro verso. Produzida por Murda Beatz e a dupla Cubeatz, “I Do” possui uma das melodias mais cativantes do álbum.

A proeza e força lírica da Cardi B é impressionante, à medida que ela pronuncia frases como: “Aqui está uma palavra para minhas senhoras / Não dê nada a esses caras / Se eles podem te fazer rica, eles podem fazer você gozar”. Ouvindo frases como essas, nós vemos que as mulheres podem fazer o que elas quiserem, exceto ficarem quietas. Cardi B gosta de seu auto-promover em suas letras, e “I Do” é um excelente exemplo disso. Uma canção onde ela proclama ser a única dona de si mesma. Enquanto isso, SZA ficou a cargo do refrão e diz confortavelmente: “Sim, meus cheques ainda estão bem / Não é de se admirar por que eu faço o que eu gosto / Eu faço, o que eu gosto de fazer”. Em alguns momentos, a rapper relembra do seu passado como stripper e sua grande ascensão ao estrelato, perguntando: “Meus quinze minutos duraram muito né?”. Um verdadeiro discurso de vitória em apenas uma frase. Sobre sintetizadores sombrios, ambas criaram uma canção emponderada, despreocupada e triunfante. “I Do” prova que elas podem fazer o que quiserem e mostra como usar a força das mulheres na indústria do hip-hop. Assim como esta música, todo o disco excedeu minhas expectativas. Cardi B é uma força em ascensão e conseguiu criar um álbum de grande calibre e qualidade. Belcalis Almanzar provou que é uma rapper legítima, com talento suficiente para se aproximar de seus concorrentes masculinos. Em suma, a autenticidade de suas canções, juntamente com o senso lírico, fez do “Invasion of Privacy” um grande álbum.

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Favorite Tracks:

“Bodak Yellow” / “I Like It (feat. Bad Bunny & J Balvin)” / “I Do (feat. SZA)”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.