Review: Björk – Utopia (2017)

Lançamento: 24/11/2017
Gênero: Avant-Garde, Folktronica
Gravadora: One Little Indian Records
Produtores: Björk, Arca e Rabit.

Nos últimos anos, Björk tem sido cada vez mais exigente com seus trabalhos, tanto que o “Vulnicura” (2015), inspirado por seu divórcio com Matthew Barney, foi incrivelmente desafiador. Um disco maravilhoso e confessional sobre o desgosto amoroso e dissolução familiar. Em contrapartida, o seu mais recente registro, intitulado “Utopia”, explora a contradição em busca de unidade. Portanto, enquanto o “Vulnicura” (2015) lidou com uma perda pessoal, este novo álbum procura celebrar os sentimentos universais que envolvem o amor e a natureza. Descrito como ambiental e tematicamente político, “Utopia” apresenta uma Björk mais feliz e positiva. Dito isto, embora o álbum tenha seções abundantemente sombrias, o seu tom geral é bastante edificante e esperançoso. Em comparação com alguns dos seus registro mais diversos, “Utopia” restringe-se a uma atmosfera suave.

Mas, embora isso possa fazer o álbum parecer leve e agradável, é facilmente um dos seus trabalhos mais ambiciosos e abstratos até à data. Aqui, ela optou por utilizar novamente a produção do Arca, o venezuelano que possui trabalhos com Kanye West e FKA twigs. Portanto, assim como o esperado de uma colaboração com Arca, “Utopia” possui paisagens sonoras sombrias e ameaçadoras, batidas distorcidas e sons frequentemente confusos. Sem dúvida, a paleta sonora deste LP é luminosa e arejada, principalmente por conta da utilização de flautas e outros instrumentos de sopro. Ademais, possui um pano de fundo muito rico e bem elaborado, incluindo a utilização de canto de pássaros, que foram registrados pela própria Björk na Islândia e também retirados de um dos álbuns de David Toop.

Com exceção de “Paradisia”, Arca co-produziu todas as faixas do repertório e foi um dos responsáveis pela mudança de tom, pianos acidentados, amostras vocais sombrias e percussão mais integrada. A tensão criada por Arca acabou tornando-se a companheira ideal para os vocais expressivos de Björk. As estruturas das músicas são muito imprevisíveis, desconcertantes e estranhas, enquanto o conteúdo lírico é complexo e conflituoso. Ao misturar batidas desarticuladas, eletrônicas e distorcidas com uma orquestra de flautas, harpas e ruídos de pássaros, “Utopia” parece uma trilha sonora criada para algum passeio pela floresta. Na melhor das hipóteses, isto soa emocionante e diferente de tudo que você já ouviu antes. Portanto, a ousadia e excentricidade de Björk merece ser mais uma vez aplaudida. Certamente, este registro agradou os fãs de longa data da cantora.

Sua rica produção em camadas apresenta texturas estáveis, experimentais e melodias pouco convencionais. Este estilo tornou-se quase um sinônimo dos lançamentos de Björk. Além disso, neste álbum ficou ainda mais evidente de que ela é uma artista confiante e auto-consciente. Em outras palavras, “Utopia” fornece algo refrescante e único, assim como seu disco anterior. Com uma duração de quase 72 minutos, é o álbum de estúdio mais longa da carreira da cantora. E, se este registro parece obscuro, exuberante e auto-indulgente, é porque ele realmente é. Enquanto as cordas dominaram o “Vulnicura” (2015), a flauta é o principal instrumento do “Utopia”. Com isto em mente, o repertório começa com os efeitos aleatórios definidos pela maravilhosa faixa “Arisen My Senses”. Esta canção oferece um vislumbre do que está por vir. Desta vez, Björk e Arca permitiram que ondas mais coloridas dominassem a maior parte de sua tristeza.

Começando com canto de pássaros e o som de uma fita sendo rebobinada, esta canção apresenta acordes de harpas e arranjos que expandem-se lentamente. Uma camada de eletropop e vocais arejados permeiam sobre esta canção. É o primeiro sinal de que a paisagem emocionalmente triste do “Vulnicura” (2015) desapareceu. “Arisen My Senses” oferece uma introdução satisfatória de cinco minutos de duração, antes de Björk apresentar a harpa sonhadora de “Blissing Me”. Para qualquer outro artista, oferecer uma faixa sem um refrão bem definido seria algo impensável. Mas Björk consegue se sair muito melhor em meio a batidas eletrônicas e sons incomuns. “Esse excesso de mensagens de texto é uma benção?”, ela se pergunta em “Blissing Me”. Esta canção, lançada como segundo single, continua a exuberância e natureza romântica imposta pela primeira faixa. Da mesma forma, “Blissing Me” também oferece vocais incrivelmente edificantes e convincentes.

Liricamente, concentra-se em obsessões e novos relacionamentos. É uma faixa que celebra os aspectos aparentemente mundanos do namoro moderno, como compartilhar MP3 e enviar mensagens de texto o dia todo. Sua estrutura é rítmica e a atmosfera muito luminosa, algo reforçado pela harpa mais delicada. O ritmo esvoaçante é um reflexo da excitação de Björk, enquanto alguns sintetizadores e flautas complementam os sentimentos das letras. Este álbum está cheio de canções sobre o amor, marcado por floreios clássicos e escrito numa linguagem muito franca. O primeiro single, “The Gate”, é uma música ambiente e eletrônica que fala liricamente sobre as possibilidades de um novo amor. “Minha ferida curada do peito, transformada em um portão”, ela canta sobre sintetizadores e vocais em camadas. “De onde eu recebo o amor, de onde darei amor”.

A letra de “The Gate” parece até uma poesia moderna e transmite uma sensação espiritual, como a própria Björk já havia dito. A sua profunda melancolia é quase uma reminiscência do “Vulnicura” (2015), assim como os sintetizadores vibrantes e elementos percussivos. É uma música delicada e minimalista, começando com uma produção ambiental que, lentamente, preenche o vazio com graves profundos e elementos eletrônicos. O repetido refrão, formado pela frase “eu me importo com você”, é complementado por sintetizadores suaves que ficam cada vez mais em camadas, à medida que a canção avança. Sob uma melodia temperamental e transcendente, Björk conseguiu pisar num território incrivelmente ousado. A faixa-título, “Utopia”, por outro lado, fornece imediatamente um coral de flautas e toques de música clássica que reforçam o ímpeto e enigma das letras.

A delicada flauta toca sobre a percussão embaralhada e amostras vocais, criando uma mistura que, no papel, não deveria funcionar. Felizmente, esta combinação entre o primitivo e o futurista, casou-se perfeitamente com a voz e estilo de Björk. “Body Memory”, por sua vez, é uma das músicas mais longas do álbum, com quase 10 minutos de duração. As flautas continuam aumentando o drama da produção, além de cordas sinistras e efeitos sonoros escuros definirem o tom para os vocais de Björk. Aqui, ela reflete de forma lúcida e abstrata sobre muitas coisas, incluindo o amor, paixão, sexo, vida rural e urbana, questões legais e o futuro. “Body Memory” é seguida suavemente pelos próximos cinco minutos de “Features Creatures”. Embora a produção desta seja minimalista, intensa e enigmática, Björk é afetada por homens que carregam semelhanças com o seu ex-amante.

Posteriormente, as flautas e batidas eletrônicas retornam com força total em “Courtship”. Assim como o título sugere, a cantora fala sobre um ciclo vicioso que envolve o namoro. Em “Losss”, ela aborda as perdas que experimentou na vida, principalmente àquelas que envolvem o amor. Ao relembrar de um amor perdido, Björk descreve um relacionamento condenado. À medida que a música avança, sua produção fica cada vez mais intensa, as cordas de harpas trovejantes e os tambores particularmente pesados. Mais tarde, ela se mostra apaixonada e claramente preocupada com o bem-estar de sua filha durante a faixa “Sue Me”. Mais uma vez, ela fala sobre o seu divórcio com Matthew Barney e a batalha para manter a custódia de sua filha. “Eu evitei e mergulhei / Como a mãe no Cântico de Salomão / Para poupar a nossa garota / Não vou deixar que ela seja cortada pela metade, nunca / Mas é hora de ensinar-lhe dignidade”, ela canta em um dos versos.

Sonoramente, “Sue Me” mergulha numa atmosfera psicodélica, com efeitos sutis e igualmente eficazes. A décima faixa, “Tabula Rasa”, restaura a beleza do “Utopia” através de sons exuberantes, misteriosos e arrepiantes. Novamente, as cordas e elegantes flautas adicionam uma dimensão extra à música. “Claimstaker”, por sua vez, é um número mais rítmico, embora também possua um cenário rico e exuberante. Esta faixa começa com um linha de sintetizador galopante que transforma-se em cordas cada vez mais inchadas. “Essa floresta está em mim”, Björk proclama enquanto corresponde ao clímax definitivo do álbum. Depois do requintado e breve instrumental “Paradisia”, temos a pensativa, encantadora e direta “Saint”. Essa faixa transmite a mesma vibração sentimental do restante do álbum, enquanto fala sobre o grande poder da música. Para encerrar o repertório, Björk foca em seguir em frente ao invés de viver no passado durante a faixa “Future Forever”.

“Imagine um futuro e esteja nele / Sinta essa incrível instrução, mergulhe nela / Seu passado está em um loop – desligue-o”, ela canta. Björk é uma das poucas artistas que continuam inovando sua paleta sonora, mesmo depois de uma longa carreira musical. Cada um dos seus álbuns trazem algo verdadeiramente belo, estranho, enigmático, imprevisível e coeso. O fato dela abraçar um espírito inovador é o suficiente para fazer qualquer ouvinte lhe dar a atenção que merece. Afinal, ao longo de toda a sua carreira solo, ela foi frequentemente vista como inovadora e experimental, com um som que desafia o convencional. Ao todo, Björk conseguiu mais uma vez criar um álbum bem-arrendondado, coerente e intrigante. “Utopia” possui uma produção convincente com arranjos de flauta e cordas particularmente excelentes. Vocalmente, ela continua eficaz e excepcional como sempre foi. Dito isto, “Utopia” é uma coleção impressionante que, no geral, é diferente de qualquer outra coisa que você ouviu em 2017!

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Favorite Tracks:

“Arisen My Senses” / “Blissing Me” / “The Gate”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.