Review: Beach House – 7 (2018)

Com ‘7″, Victoria Legrand e Alex Scally ficaram mais livres. Este é o som de uma banda que se conhece muito bem e, ao buscar perspectivas externas, abraçou a imperfeição e descobriu um novo jeito de se expressar.

Sete é um número místico, mas também é o tempo que a Beach House levou para aperfeiçoar sua arte. “7” não é apenas o álbum mais coeso da banda até hoje, mas também o equilíbrio perfeito entre a doçura e sutileza que fizeram deles uma das mais reverenciadas de sua geração. Desde o seu álbum auto-intitulado de 2006, eles vêm ajustando o seu som consistentemente. Sua marga registrada de dream pop é simplesmente mágica. A vocalista Victoria Legrand pode mudar habilmente de sussurros para um tom alto, adaptando sua voz quase imperceptivelmente ao humor de cada canção. O guitarrista Alex Scally, por sua vez, consegue criar um ambiente no qual Legrand pode florescer sobre um vórtice de textura e espaço. É extremamente difícil criar álbuns semelhantes, sem sucumbir ao tédio, e é exatamente aí que o “7” se destaca – familiar o bastante para não soar tão distinto, mas diferente o suficiente para se destacar como uma nova marca d’água da Beach House. Uma das razões disso, é a nova colaboração da banda com o produtor Sonic Boom, também conhecido como Peter Kember. Com seu auxílio, o duo oferece uma continuação exuberante de seus lançamentos anteriores. Sua música sempre foi envolvida em mistério, muitas vezes empurrando camadas de teclados para emergir harmonias sinuosas. Seu sétimo álbum parece mais intempestivo e quase modesto no controle do seu caos. O calibre e a variedade que a Beach House experimenta é incrivelmente fascinante.

Com uma série de registros notáveis ​​e aclamados pela crítica, a dupla de Maryland se tornou rapidamente um definitivo ato pop dos sonhos do século XXI. Com ajuda do Sonic Boom, Victoria Legrand e Alex Scally estão assumindo riscos artísticos novamente e mapeando territórios inexplorados. “7” quebra as regras estabelecidas pelo ritmo reconhecível da Beach House, a encontra desviando-se de sua zona de conforto e apoiando-se no caos avassalador, em vez de sentir a necessidade de criar músicas pop elegantes e meticulosamente polidas. Eles desenvolveram um som verdadeiramente característico e, a cada novo álbum, experimentam texturas mais excitantes. É impressionante o padrão uniforme de excelência que o duo manteve em seu catálogo; escolher o melhor álbum da banda seria um exercício desnecessário e extremamente árduo. Ao mesmo tempo, o apelo da Beach House é indefinível; uma música pode parecer leve para um ouvinte, mas completamente profunda para outro. A primeira faixa, “Dark Spring”, contém teclados borbulhantes e vocais incrivelmente ritmados. O tempo todo, há folhas de tambor pontuando a mixagem e dando à canção uma dose de dinamismo. Considerando o preenchimento da bateria, eles incluíram dois acordes, pontuados por notas de guitarra elétrica e sintetizadores sonhadores, a fim de deixar a música mais melancólica. Após o refrão, a percussão bate de forma dissonante, mas mantém a coesão e rigidez em seu design. As harmonias vocais fornecem letras evocativas e um fluxo consciente.

É uma faixa estelar que se presta a repetidas audições. “Pay No Mind” é construída sobre guitarras country, enquanto Legrand canta no refrão: “Baby à noite quando eu olho para você / Nada neste mundo me deixa confusa / Tudo o que é preciso, olhe nos seus olhos”. Sobre o instinto de uma balada de rock alternativo dos anos 90, esta canção é um dos vales mais profundos do “7”. Sua exuberância ajuda a equilibrar os momentos mais psicodélicos do repertório. E a liberdade criativa é evidente na acentuada mudança que ela proporciona. Ao optar por uma progressão de acordes de baixa velocidade e largamente previsível, com instrumentos despojados como a guitarra elétrica, o baixo sintetizado e a percussão oitentista, “Pay No Mind” diminui o ritmo e fornece um refrão sussurrado. Através das duas primeiras faixas já fica evidente o quanto a dupla progrediu. Lançada no Dia dos Namorados nos Estados Unidos, “Lemon Glow” é uma canção nostálgica e sonhadora com belos sintetizadores e vocais cativantes. Em cima de um órgão, guitarra elétrica, tambores e linhas de sintetizador, Beach House empurra a música para novas alturas. Os vocais distorcidos e igualmente silenciosos fornecem uma bela paisagem sonora. Enquanto isso, o constante movimento dos sintetizadores carregam a sua atmosfera para um outro nível. “Lemon Glow” é um número minimalista e pulsante com uma instrumentação diferente dos lançamentos anteriores da Beach House. Um dream pop mais variável e dinâmico que busca novas formas de expandir o seu som.

A conexão emocional estabelecida pela voz da Legrand cria um verdadeiro estado de trance, quando colocada em cima dos vibrantes sintetizadores. “Quando você acende as luzes baixas / Cor de limão, brilho de mel / Veja este estado em que estou / Está rastejando na minha pele / A febre me levou de volta / E me virou para dentro”, ela canta lindamente. A melodia é decididamente embriagada, hipnótica e consegue encantar de forma surpreendente. A próxima faixa, “L’Inconnue”, também carrega esse sentimento e expande o coro angelical de “Lemon Glow”. Cada palavra e nota sustentada, é construída de forma inteligente sobre uma mudança de ritmo que precede a primeira entrada da percussão na marca de 2 minutos e 15 segundos. Nesta faixa, o processo de composição da Beach House está em plena exibição, por isso é tão reconfortante de se ouvir. Além da ambição orquestral, esta canção está repleta de teclados e uma paisagem sonora barroca. Ademais, as letras são parcialmente cantadas em francês. É uma peça extremamente audaciosa. “Drunk in LA” é um número soberbo que começa com uma amostragem coral e apresenta esforços mais arrojados. Sua paisagem sonora sopra sobre uma alegre ressonância e doce satisfação. A alma melancólica da dupla é combinada com uma profundidade possivelmente acidental das letras, com frases como: “A memória é uma carne sagrada / Isso está secando o tempo todo / Na encosta de uma colina eu lembro / Eu estou amando perder a vida”.

Joias como essa, emergem para mostrar como uma vida mundana pode ser verdadeiramente vital para algumas pessoas. “Dive”, por sua vez, começa com sintetizadores tipicamente etéreos, antes que tambores reflexivos e profundas guitarras juntem-se à mistura. Ela possui melodias incrivelmente densas e cintilantes, além de conter o típico vapor da Beach House. É surpreendente a sensação que o duo consegue transmitir com suas músicas. Ademais, eles sempre adicionam uma camada extra de experimentação em seus trabalhos. O brilho suave em torno de “Dive” fornece uma sensação de melancolia, saudade, esperança e arrepia da melhor forma possível. “Black Car”, por outro lado, é construída em torno de um arpejo de sintetizador que começa nos seus primeiros estágios. A música evolui constantemente para uma paisagem sonora texturizada e brilhantemente construída. Ela cria um ambiente tão expansivo que parece que tudo vai sair dos trilhos a qualquer momento. É quase impossível prever para onde o “7” está indo quando passa de uma música para outra. No entanto, mesmo que cada faixa tenha sua própria expressão, estão todas ligadas diretamente. “Lose Your Smile” é uma balada de violão que encanta com grande facilidade. Inicialmente parece um cover psicodélico de “In My Place” do Coldplay, porém, traça o seu próprio caminho. Em seguida, “Woo” oferece uma progressão de acordes familiar e parece uma maneira perfeita para encerrar o álbum.

Se esse sentimento foi intencional ou não, parte das letras pode ser interpretada como uma dica para o ouvinte: “É um truque, passe por mim, continue indo”. “Girl of the Year” chega como uma tentativa de fundir diferentes gêneros, incorporando alguns aspectos distintos em sua progressão. Ela vai subindo para uma segunda metade que se expande em uma rica reverberação. Um colapso agudo ainda coloca o ouvinte em um oceano eletrizante de sons. Enquanto isso, a apropriadamente intitulada “Last Ride” é construída em torno de um calmante acorde de piano. Com 7 minutos de duração, coincidentemente ou não, é a canção mais longa do repertório. “O sol escureceu, o ciclo terminou”, Legrand canta. É um ponto culminante do álbum, que possui quase tudo que amamos na Beach House: sintetizadores sombrios, bateria hipnótica e vocais sublimes. “7” é um disco rico em suas reflexões, aceitação do caos, crescimento pessoal e perda de estabilidade. É um movimento que se sente natural e pensativo, mas sem parecer oprimido. É uma meditação focada que se revela em sonhos sombrios e uma progressão que, de certa forma, serve como um desvio da já magnífica obra da Beach House. É a prova de que a banda não deixou de aprender novos truques. Suas músicas são elegantemente escritas e impecavelmente produzidas. Com um novo senso de liberdade, Victoria Legrand e Alex Scally conseguiram explorar novos caminhos, mas permanecendo fieis ao estilo que lhes rendeu inúmeros elogios no passado.

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    SCORE - 89%
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Favorite Tracks:

“Pay No Mind” / “Lemon Glow” / “Dive”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.