Review: A$AP Rocky – Purity (feat. Frank Ocean)

Em 25 de maio, A$AP Rocky lançou o seu terceiro álbum de estúdio. Certamente, um dos convidados de maior destaque é o Frank Ocean, que aparece na última faixa do registro. “Purity” é um final comovente e igualmente experimental para o “TESTING” (2018). Liderada pelo violão, essa canção é reforçada por uma amostra de “I Gotta Find Peace of Mind” da Lauryn Hill – uma performance apaixonada retirada do álbum “MTV Unplugged No. 2.0” (2002). É o tipo de sample instantaneamente reconhecível que poucos produtores tocariam. No entanto, a equipe de produção por trás de “Purity” transformou a linha vocal e a figura do violão em uma nova meditação. A$AP Rocky é o terceiro artista mainstream que usa sample da Lauryn Hill este ano – depois de Drake e Cardi B. É uma pausa radical no som agressivo do rapper, mas uma das faixas mais naturais e interessantes do álbum. Uma música que alterna entre amostras de “I Gotta Find Peace of Mind” e batidas empoeiradas.

Depois de abrir com uma voz sinistra, “Purity” nos faz recordar ligeiramente do “Blonde” (2016). Em cima da produção imaculada, Frank Ocean nos lembra que ele também pode fazer rap. Suas palavras consomem a primeira metade da música sem maiores esforços e exala uma grande introspecção. “Minha cabeça nas drogas, eu ainda não tenho paz de espírito, porra”, ele diz. Ele assume a liderança no primeiro verso e comanda boa parte da música, antes de começar a correr com a frase “cachorros no local, dentes moles, perdidos no combate” – uma sequência absurda de palavras em alta velocidade. A partir daí, temos um verso vertiginoso que prova que se ele quisesse, poderia ser um dos melhores rappers da atualidade. Em seguida, ele passa o microfone para A$AP Rocky – que sabiamente, não tenta superá-lo em termos de técnica. O rapper recita suas letras sob o dedilhado do violão. É uma canção incrível do começo ao fim; os versos são rítmicos e funcionam como uma poesia falada sobre a amostra manipulada. Inicialmente, Rocky bate no ritmo da música, estendendo as palavras até elas sangrarem. Mas dessa vez, ele parece paranoico e drogado.

“Cara a cara com meus demônios em uma banqueta / Não tive notícia da minha sobrinha em semanas”, ele diz transformando sua voz em um sussurro, antes de dar o pontapé final: “Eu perco alguém a cada lançamento, parece que a maldição está em mim”. Rocky conseguiu ornamentar a música com suas letras sobre alienação e solidão. Ele lamenta que o foco da sua carreira tenha sido às custas dos relacionamentos com as pessoas que ele ama. Obter a presença do Frank Ocean e utilizar sample da Lauryn Hill foi uma dádiva para ele. Nos últimos anos, sua afinidade com a moda atraiu praticamente a mesma atenção que sua música. Porém, a cada novo disco, ele parece querer se destacar mais e mais. “Purity” é mais do que apenas um modelo de consumo. Aqui, ele transcendeu sua reputação como um produtor obcecado por roupas de grifes, criando uma música surpreendentemente sincera que é maior que a soma de suas partes.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.