Review: Solange – A Seat at the Table (2016)

“A Seat at the Table”, seu terceiro álbum completo, é o trabalho de uma mulher que acredita verdadeiramente em si mesma – uma declaração clara e emocionante sobre a comunidade da qual faz parte.

Abram caminho para Solange Knowles, a irmã mais nova da Beyoncé. Com seu primeiro álbum em oito anos, ela oferece uma coleção incrível que evoca a genialidade de artistas como Prince e Erykah Badu. “A Seat at the Table” gira em torno do emponderamento feminino e da comunidade negra, enquanto transita por gêneros como R&B, funk, neo soul e jazz. A arte da capa – com uma foto desbotada do seu rosto – sugere um repertório pessoal e autobiográfico. As músicas não são tão coloridas quanto a maravilhosa “Losing You”, mas trazem arranjos detalhados e um lirismo poderoso. “A Seat at the Table” é musicalmente gentil, mas aborda a cultura negra e denuncia o racismo e o sexismo. Uma lista de convidados, que inclui seus pais – Mathew Knowles e Tina Lawson – detalham as lutas contra a discriminação racial. “A Seat at the Table” pode não ser um registro diverso, mas oferece uma exploração estável do R&B contemporâneo. O seu principal foco são as letras, onde há vários níveis de narrativa, incluindo sentimentos de desespero e sofrimento. Apaixonada pela música desde jovem, Solange é uma artista com uma visão única. Após lançar seu álbum de estreia em 2002, com apenas 16 anos, sua arte cresceu de maneira extraordinária. Com vinte e uma faixas, “A Seat at the Table” reflete as experiências de uma mulher negra sobre uma verdadeira poesia musical. Ele também aborda temas pesados, como a violência racial e desigualdade, mas é um corpo de trabalho fundamentalmente otimista.

Ao descrevê-lo, Solange afirmou que trata-se de um projeto de empoderamento e identidade. Há alguns temas semelhantes ao “Lemonade” (2016) da sua irmã mais velha – é um pouco inevitável comparar os dois álbuns, apesar dos diferentes estilos musicais. No geral, “A Seat at the Table” mostra o quanto Solange evoluiu ao longo dos últimos anos. Nos convidando para relaxar, “Rise” fornece tons de jazz incrivelmente simplistas e elegantes. Em seguida, “Weary” mostra o quanto Solange pode ser emotiva. Uma canção que se sente como um retrocesso para o R&B do final dos anos 90, além de ser reminiscente de algumas músicas da Diana Ross e The Supremes. Sua estrutura é formada por guitarra, baixo, órgão e piano, ao passo que o conteúdo lírico fala sobre cansaço e solidão. A mensagem por trás dessa canção é poderosa, mas entregue de forma surpreendentemente suave. Co-escrita por Raphael Saadiq, “Cranes in the Sky” fala sobre as tentativas de aliviar a dor através do álcool, sexo e música. O álbum traz fortes mensagens políticas, mas também concentra-se em experiência individuais – é uma frágil, emocional e honesta balada de R&B que revela lutas pessoais da Solange. “Eu viajei por setenta estados / Pensei que o movimento me faria sentir melhor”, ela canta. Quase em estado de sonho, a música flui com vocais em camadas revestidos com uma breve agitação. Cordas ao fundo adicionam porções de melancolia enquanto a percussão se sente afiada e exuberante.

O interlúdio “Dad Was Mad” mostra o seu pai falando sobre sua infância cheia de integração, segregação e racismo. “Mad”, com Lil Wayne, é um numero macio, sexy e inesperadamente cativante. Uma canção irritada e brutalmente honesta onde Solange tenta convincentemente quebrar o estereótipo da mulher negra, e Lil Wayne compartilha sua tentativa de cometer suicídio. Um dos destaques do álbum, “Don’t You Wait”, não é uma faixa uptempo, mas possui instrumentos que a mantém em grande movimento. Ela contém elementos de funk e forte apoio da bateria e do baixo – não soaria fora do lugar se estivesse presente no “True” (2012). Liricamente, é uma resposta para um crítico que fez observações ofensivas sobre seu trabalho. O próximo interlúdio, “Tina Taught Me”, é uma declaração de Tina Lawson sobre ser uma mulher negra orgulhosa. No geral, os interlúdios não atrapalham o fluxo do repertório e variam entre anedotas pessoais e encorajamentos. Outro destaque é “Don’t Touch My Hair” – um R&B alternativo onde Solange celebra o significado pessoal e cultural do seu cabelo natural. De fato, esta música lamenta a desvalorização da cultura negra em um sentido bem amplo; ela explora algo comum para as mulheres negras. Sua produção, ancorada por Sampha no refrão, é linda, etérea e profundamente funk. Mais tarde, após as incríveis “Where Do We Go” e “F.U.B.U.”, “Borderline (An Ode to Self Care)” apresenta um estilo retrô com ajuda de Q-Tip e “Junie” provoca uma mudança rítmica com outra mensagem inegavelmente poderosa.

Essa última apresenta um bop de piano e lirismo que se concentra na veneração da identidade feminina negra. Colocada praticamente no final do álbum, a adorável “Don’t Wish Me Well” mantém a energia com seu brilhante sintetizador. Ela contém elementos de música eletrônica, além de elementos de soul psicodélico. Liricamente, é uma celebração dos direitos humanos e civis – servindo como um farol de reflexão. Em “Don’t Wish Me Well”, ela continua se mantendo firme em suas convicções: “Porque quando digo o que quero dizer, você deve saber / Você tem que saber”. “Scales”, com Kelela, é uma balada downtempo que traz de volta a instrumentação mais simples. Essa canção reflete sobre a importância da liberdade, independentemente de raça, gênero ou crença. “A Seat at the Table” marca um grande salto para Solange Knowles como compositora. Um trabalho criativamente brilhante e com mensagens socialmente conscientes. Pode não ser fácil de digerir e experimentar, mas consegue deixar um impacto duradouro sobre qualquer pessoa. Apesar do forte lirismo, ele possui uma abordagem minimalista em sua produção – a chave está na riqueza dos detalhes. Solange nunca deixa alguma mensagem vaga pelo caminho – seus vocais são sempre ilustrados por escritas afiadas e histórias reais. Há sempre algum elemento que prende o ouvinte; além de características incrivelmente elaboradas e coerentes . Seu conceito precisa ser ouvido do início ao fim, para realmente entender seu significado. Dito isto, Solange criou um dos melhores e mais importantes álbuns de 2016.

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Favorite Tracks:

“Cranes in the Sky” / “Don’t You Wait” / “Don’t Wish Me Well”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.