Review: Selena Gomez – Revival (2015)

No “Revival” há crescimento suficiente para aceitar os tropeços ocasionais. Selena Gomez encontrou uma direção sonora que vale a pena prestar atenção.

Lançado em 09 de outubro pela Interscope Records, “Revival” é o segundo álbum de estúdio solo da Selena Gomez. Como um dos produtores executivos, Gomez colaborou com Hit-Boy, Rock Mafia, Stargate e Max Martin para atingir o som desejado. Seu esforço resultou em um álbum essencialmente pop – com elementos de dance-pop, eletro-pop e R&B interligados com sons tropicais e letras que falam sobre amor e confiança. O conteúdo lírico possui uma repetição inegável encontrada tão comumente na música pop, mas ainda assim, é divertido e honesto. Em 2015, Selena Gomez começou rapidamente surpreendendo a todos quando liberou “Good for You” com o rapper A$AP Rocky. Os vocais suaves e sensuais intercalados com a batida urbana, era algo que ela nunca havia experimentado. Com essa música, ela pareceu encontrar um estilo perfeitamente adequado à sua voz. Após muitos anos no centro das atenções como estrela da Disney, Gomez parecia estar em uma encruzilhada. Com quatro álbuns de estúdio em seu nome, três deles ao lado da banda The Scene, ela precisava evoluir musicalmente. Com o “Revival”, Gomez prova que pode amadurecer e crescer como artista e, por esse mesmo motivo, é o seu álbum mais pessoal e coeso até a data. Usando o mesmo roteiro seguido por Christina Aguilera no icônico “Stripped” (2002), Selena Gomez foi bem sucedida em sua missão. Ela artisticamente articulou sua sexualidade e maturidade recém-descoberta para entregar o seu melhor trabalho.

“Revival” foi uma boa escolha para título, pois serviu como um renascimento para ela. E obviamente a faixa-título é a que define não só o álbum, como também o atual momento de sua vida. A letra descreve como ela superou algumas dificuldades e o caminho que perseguiu para se tornar uma pessoa mais forte e confiante. “Mais do que apenas sobreviver / Este é o meu renascimento”, ela afirma com confiança no refrão, levando seus fãs por um caminho de redescoberta. “Eu renasço a cada momento / Então, quem sabe o que me tornarei / Eu passei por uma restauração própria / Eu me tornei minha própria salvação”, com essa declaração, Gomez começa a revelar mais sobre quem ela é por trás de todo o brilho da fama. “Revival” a pinta como uma mulher real que, como todas as outras, experimenta os altos e baixos da vida. Essa simplista canção dance-pop com elementos de R&B, consegue dar uma sensação de evolução. Seu principal motor é um rígido tambor rítmico, além do clima extremamente diferente e futurista. O tambor parece ter sido concebido para complementar sua voz e as letras, mas em alguns momentos, chama mais atenção que as mesmas. “O mundo pode ser um lugar horrível / Você sabe, eu sei / Nós não temos que cair em desgraça / Abaixe as armas com as quais você luta”, ela canta na linha de abertura de “Kill Em with Kindness”. Essa canção descreve que mesmo existindo crueldade no mundo, as pessoas precisam ser bondosas e gentis. Sonoramente, é bastante cativante e divertida, especialmente por causa da grudenta melodia dos assobios no fundo.

Sua batida disco, emparelhada com a guitarra e o baixo sintetizado, lhe dá uma vibração surpreendentemente agradável. “Hands to Myself” é uma canção definitivamente refrescante e sedutora, onde os vocais sussurrantes foram misturados com perfeição à produção. Os vocais são um sussurro abafado durante a maior parte do tempo, e isso agarra instantaneamente sua atenção. Produzida por Max Martin, é um dance-pop e synth-pop constituído por guitarra, baixo, palmas, tambor e sintetizadores. Aqui, Selena Gomez usa tanto seu maior registro vocal como também o seu mais inferior, caracterizado muitas vezes apenas por um sussurro. A canção começa discretamente dentro de um panorama minimalista e uma batida escassa. Essa mesma batida, mais tarde, trabalha ao lado do sinistro riff de guitarra. No pré-refrão, ela começa a exalar um som tribal com sintetizadores e piano se tornando cada vez mais fortes. “Entre todas as dúvidas e explosões / Continuamos fazendo amor / E estou tentando, tentando, tentando mas eu”, ela canta. No refrão, temos ofegantes vocais da Julia Michaels, enquanto Selena Gomez canta irresistivelmente uma sequência de sílabas consecutivas: “Can’t-keep-my-hands-to-myself”. Liricamente, “Hands to Myself” fala sobre encontrar o amor através de diferentes situações. Gomez demonstra tipicamente seu desejo sexual através de narrativas que abrem várias interpretações. Similar a “Good for You”, essa canção mostra um lado mais maduro e sensual, mas mantendo-se em sintonia com sua inocente e ingênua personalidade.

O segundo single, “Same Old Love”, foi escrita por Charli XCX, Ross Golan, Benny Blanco e Stargate. Musicalmente, é um electropop midtempo com letras que, aparentemente, descrevem um antigo relacionamento conturbado. Também apresenta, sem créditos, vocais de fundo da Charli XCX e influências de trap e jazz. Ela começa com um arranjo de piano simples e estalar de dedos, com alguns sintetizadores e bateria sendo adicionais mais tarde no refrão. Essa música provavelmente tem um dos melhores instrumentais do catálogo da Selena Gomez. É simples e diferente de tudo que ela já fez antes – mas ainda assim cativante. Como mencionado, a música foi co-escrita e possui vocais adicionais da XCX, por este motivo, “Same Old Love” também soa como uma música da própria. Não só a produção é semelhante a algo que a britânica faria, mas também os vocais da Selena Gomez basicamente soam como ela na maior parte da canção. O fato dela estar presente no refrão, como voz de fundo, faz essa impressão soar ainda mais forte. Mas de qualquer maneira, “Same Old Love” nos dá um pop centrado com ritmo alegre e piano jazzístico saltitante. Em seu conteúdo lírico, Gomez canaliza toda a sua raiva e canta sobre estar doente por um “velho amor”. No refrão um descontraído sintetizador é colocado na mistura e contrasta bem com a performance vocal polida. Um dos poucos problemas detectados em “Same Old Love” é sua extrema repetição – isso a deixa muito sobrecarregada.

Com um instrumental tão bom como este, o artista precisa usar boas melodias para suportá-lo e não ser facilmente ofuscada. Portanto, é um tipo de música que você precisa escutar várias vezes para crescer em você. Em suma, é uma surpresa artisticamente agradável, exemplificada especialmente por seu atraente registro vocal mais baixo. “Sober” é um verdadeiro hino e uma das canções mais honestas que a Selena Gomez já gravou. Graças a sua honestidade e arranjo musical atraente, é uma das faixas mais fortes do álbum. Liricamente, ela fala acerca de um constrangimento social do qual uma pessoa não sabe amar, a menos que esteja alcoolizada (“Você não sabe como me amar quando você está sóbrio”). De acordo com Gomez, a inspiração para a letra veio depois que ela e Chloe Angelides conversaram sobre inaptidão social. “Sober” é devastadora e cativante em todos os sentidos, seja por sua letra ou pela excelente produção do Stargate. Em outras palavras, é um dance-pop no seu melhor. Uma faixa que consegue dar calafrios na espinha, principalmente por causa da maravilhosa e contundente batida de tambor. Enquanto o tema é bastante emocional, “Sober” ainda dispõe de melodias atraentes, refrão significativo e tons melancólicos subjacentes. As últimas linhas cantadas por Selena Gomez são as mais arrepiantes: “Você tem poder sobre mim, você é como um sonho desperdiçado / Eu te dei tudo, mas você não sabe como me amar quando está sóbrio”. Outra faixa de grande contraste é o primeiro single “Good for You” – uma colaboração com A$AP Rocky.

Essa música mostra um notável amadurecimento artístico – Selena Gomez explora uma nova direção musical e colabora pela primeira vez com um rapper. Ela também esteve envolvida com o processo criativo, onde tentou desenvolver uma representação de sua auto-realização, confiança como mulher e exploração de sua vulnerabilidade. Musicalmente, “Good for You” é uma canção pop e R&B construída lentamente com um ofegante vocal e batidas de hip-hop. A produção é suave e tem uma atmosfera completamente hipnótica. Ela começa com um instrumental escuro e misterioso, e segue com sua melodia sinuosa – ao passo que os vocais sussurrados são o foco principal. Conforme chega no refrão, o ritmo cresce e ela canta sobre querer ficar bonita para seu garoto. A canção cai em um ambiente bastante sensual, na mesma medida que as letras possuem insinuações sexuais e nos mostra um lado sexy da Selena Gomez. Uma direção bem diferente dos seus trabalhos anteriores. Ela retornou ao cenário musical em 2014 apresentando uma canção pessoal e honesta, intitulada “The Heart Wants What It Wants”. Uma faixa midtempo que deu ao mundo um vislumbre sobre o fim do seu relacionamento com Justin Bieber e marcou uma mudança no seu pop adolescente. Em 2015, ela manteve um crescimento ao fazer um intervalo nas batidas eletrônicas pulsantes para oferecer algo mais sensual e experimental. A$AP Rocky empresta seu fluxo e trabalha para manter o constante ritmo de “Good for You”.

Ele fornece um rap complementar e sólido dizendo como ele aprecia o jeito dela. Canções como “Good for You” e “The Heart Wants What It Wants” realmente destacam o vocal da Selena Gomez, que apesar de limitado, é agradável. As letras sobre seduzir um garoto definitivamente marcam uma nova fase em sua carreira. Depois de alguns anos, Gomez finalmente lançou outra balada de piano – “Camouflage” aborda o fim de um relacionamento. Provavelmente, é direcionada ao término de namoro com Justin Bieber. O piano é a força motriz – o que colaborou na construção de uma música honesta e vulnerável. É lenta, melódica e composta apenas de notas de piano. Seu lento e sereno ritmo chega a emanar vibrações semelhantes a de uma canção de ninar. Como a única balada de piano do álbum, “Camouflage” realmente fornece uma abordagem auto-consciente. “Me & the Rhythm” é uma canção melódica e vintage com batidas de deep house, tambores de aço e claras influências disco. Ela chegou a ser comparada com algumas músicas da Donna Summer – graças às batidas inspiradas nos anos 70. “Survivors” é outra música dance em contraste com um som mais tropical. Ela representa tudo que o álbum quer passar – uma música para todos que já superaram algo tediosamente ruim. “Eu ainda tenho a prova em forma de cicatrizes, a primeira vez sempre corta tão fundo / As feridas estão curando, se remendando duas vezes mais”, ela canta mostrando que superou as dificuldades.

O foco é a convidativa batida – por alguns momentos parece que ela foi gravada dentro da floresta, por causa do ambiente e instrumentação. “Body Heat” representa a herança hispânica da Selena Gomez através de algumas influências mexicanas. Uma canção um tanto quanto intensa, mas que parece um pouco forçada e deslocada dentro do álbum. Após gozar de alguns acordes de guitarra espanhola em sua introdução, eu estava esperando que a música fosse um pouco mais cultural ou tradicional em seu som. No entanto, apresenta uma melodia confusa e transmite a sensação de que poderia ter sido melhor. O uso repetitivo de “give to me” durante o refrão, é um pouco irritante. O uso de cordas latinas causam um enorme contraste, mas a produção e as letras não me convenceram. Liricamente, é apenas sobre sexo – ela canta sobre precisar sentir o calor do corpo de determinado homem. “Rise”, por outro lado, é uma canção de emponderamento que incentiva a perseverança e determinação nos momentos difíceis. Ela funciona perfeitamente como faixa de encerramento, por causa da mensagem edificante e inspiradora. Ela começa calma e lenta, mas quando o refrão aparece torna-se eletrizante e extravagante. O efeito experimental, a percussão familiar, os sutis acordes de piano e as sólidas batidas ditam o ritmo. No geral, “Revival” faz jus ao título. Selena Gomez está começando a crescer – ela encontrou um estilo adequado e não caiu no território genérico de seus álbuns anteriores. Apesar dos percalços, “Revival” é uma introdução eficaz para essa nova fase de sua vida.

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Favorite Tracks:

“Hands to Myself” / “Sober” / “Good for You (feat. A$AP Rocky)”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.