Review: Miley Cyrus – Younger Now (2017)

O “Younger Now” combina a música country e pop de forma tão contida e pouco produzida, que sua adorável personalidade acabou sendo prejudicada durante o processo de gravação.

Em 29 de setembro, Miley Cyrus lançou o seu sexto álbum de estúdio, intitulado “Younger Now”. Este disco é tão chocante quanto o controverso “Bangerz” (2013), afinal ela reinventou-se novamente. Desta vez, Cyrus deixou para trás sua dança infame e trabalhou em cima de suas raízes country. Desde que saiu das sombras do seu alter-ego Hannah Montana, ela já experimentou vários sons e estilos. Em algo todos nós devemos concordar: ela tem algum problema com imagem. Não há nada de errado em mudar, pelo contrário, isto pode ser considerado algo muito bom. O problema é que Cyrus muda de gênero musical de uma maneira problemática. De repente, ela rejeitou a cultura negra do “Bangerz” para criar uma imagem “branca” composta inteiramente por um country pop inofensivo. Em 2013, ela inspirou-se completamente na cultura negra abraçando o hip-hop, estilo urbano e twerk com breves momentos de apropriação cultural na tentativa de se tornar proeminente na indústria. Alguns anos depois, de forma inteiramente casual, Miley Cyrus simplesmente deixou a cultura negra de lado como se estivesse passando por uma fase. Entre o “Bangerz” (2013) e o “Younger Now”, ela ainda lançou o “Miley Cyrus & Her Dead Petz” (2015), um projeto experimental e psicodélico influenciado pela banda The Flaming Lips. Em 2017, ela substituiu qualquer vestígio de hip-hop e música psicodélica, em favor de um som country superficial e sintetizado. Parte da razão pela qual “We Can’t Stop” e “Wrecking Ball” explodiram foi pelo fato de Miley Cyrus colocar emoção em sua voz.

Da mesma forma, “Party in the U.S.A.” tornou-se um clássico pop porque ela parecia estar se divertindo enquanto cantava. Entretanto, em nenhum momento ela exala a mesma energia e emoção no repertório do “Younger Now”. Cyrus escreveu todas as faixas com alguma ajuda do produtor Oren Yoel. Além do conteúdo lírico clichê e estranho, ela não conseguiu reunir um conjunto forte e bem estruturado. Um álbum que mostra o seu lado mais seguro como artista e peca pela falta de risco musical. A faixa-título olha para trás enquanto foca em quem ela era e como mudou. Cyrus tenta explicar para os fãs quem ela é atualmente depois de ter surgido no papel principal de Hannah Montana. Ela parece insinuar que finalmente descobriu quem ela realmente quer ser. “Mesmo que não seja quem eu sou / Eu não tenho medo de quem eu era”, ela canta no primeiro verso. As letras falam que a mudança é positiva e que ninguém permanece o mesmo. O lento ritmo é atrelado por uma guitarra acústica e tambores ao fundo. O primeiro single, “Malibu”, é um pop rock midtempo com vibrações ainda mais relaxadas e despreocupadas. Aqui há evidentes influências de country e folk, além de um ritmo groovy e desempenho vocal emotivo. A faixa-título é uma oferta agradável, mas “Malibu” consegue ser mais atraente e doce. O instrumental é extremamente simples, composto principalmente de um riff de guitarra. Em algumas das linhas, Miley Cyrus canta: “Somos como as ondas que vêm e vão / Às vezes, sinto como se eu estivesse me afogando / E você está aqui para me salvar / E eu quero te agradecer com todo o meu coração / É um novo começo / Um sonho se tornou realidade em Malibu”.

Aparentemente, a letra é direcionada para o seu namorado Liam Hemsworth. O seu pai, o também cantor Billy Ray Cyrus, é uma grande estrela da música country, e escolheu ninguém menos do que Dolly Parton para ser madrinha de sua filha. Juntamente com Cyrus, ela co-escreveu a terceira faixa do álbum, “Rainbowland”. Esta canção começa com uma mensagem de voz intrigante da própria Parton, falando sobre o quanto está animada para cantar com sua afilhada. Uma música country com boas harmonias, embora Miley Cyrus pareça superar Dolly Parton. Mesmo que as letras careçam de alguma profundidade, é uma canção cativante e bastante jovial. “Week Without You” é outra peça country cheia de letras apaixonadas e um ritmo groovy. Desta vez, ela casa o country e o pop com um estilo doo-wop que lembra a cantora Meghan Trainor. Em sua totalidade, possui um arranjo meio estranho e infelizmente não deixa ela mostrar o potencial de sua voz. Por outro lado, “Miss You So Much” sente-se bastante sincera e é vocalmente mais despojada. Não dá para negar que ela possui uma grande carga de emoção e honestidade. É conduzida principalmente por guitarras acústicas, piano e uma consistente percussão. Ao lado de “Rainbowland” e “Miss You So Much”, a faixa mais country do repertório é a balada “She’s Not Him” – uma canção emocionalmente carregada, crua e rústica. Enquanto o country pop “Bad Mood” pisa num território mais popular, sereno e convencional, “I Would Die for You” é muito mais rítmica e despojada, principalmente por causa da grande melodia e doçura vocal.

Escrita sobre o namorado de uma amiga que sofreu overdose, é uma das poucas canções que transmitem uma sensação genuína. “Thinkin'”, por sua vez, é mais comercial e algo que estamos acostumados a ouvir da Miley Cyrus. Em determinados pontos, me lembrou algumas antigas canções da P!nk e da banda No Doubt. Uma faixa pop rock com vibrações retirada diretamente do início dos anos 2000. Além do leve balanço country, possui boas linhas de baixo, riffs de guitarra, contundentes tambores e refrão repetitivo. “Love Someone” fala sobre um relacionamento fracassado e sua percepção a respeito disso. Dirigida por um espaçoso e pesado riff de guitarra, é provavelmente a faixa mais escura do álbum. Além do som teatral, possui uma atmosfera mais rica e profunda. O repertório encerra com “Inspired”, faixa lançada como single promocional em junho. Segundo Cyrus, esta canção é dedicada ao Mês do Orgulho LGBTQ+ e para aqueles que procuram por mais amor no mundo. “Como podemos escapar de todo o medo, de todo o ódio? / Alguém está cuidando de nós aqui embaixo?”, ela questiona. Apesar de conter simples acordes acústicos e um sentimento claro, as letras são clichês e boring. Em suma, “Younger Now” não mostra a verdadeira versatilidade da Miley Cyrus. Todas as faixas são bastante semelhantes e poucas são capazes de realmente se destacar. Este álbum é uma tentativa maçante de provar que ela é um camaleão da música. Diferente de estrelas versáteis como David Bowie ou Madonna, ela peca pela forma como apresenta sua imagem. Infelizmente, “Younger Now” não funciona como um legítimo álbum de country, mesmo canalizando uma certa maturidade.

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Favorite Tracks:

“Malibu” / “Miss You so Much” / “I Would Die for You”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.