Review: Lady Gaga – Born This Way (2011)

“Born This Way” pode não ter sido o registro histórico que Lady Gaga prometeu prematuramente, mas é um esforço sólido, exuberante e obscuro.

O“Born This Way” foi o sucessor do “The Fame” (2008) e “The Fame Monster” (2009), dois projetos responsáveis por alavancar a carreira da Lady Gaga. Ela co-escreveu todas as faixas do repertório e trabalhou com DJ White Shadow, DJ Snake, RedOne e Fernando Garibay. “Born This Way” estreou no topo da Billboard 200 ao vender 1,1 milhão de cópias na primeira semana. Parte desses exemplares, cerca de 440 mil cópias, foram vendidos a $ 0,99 cents através de uma promoção da Amazon. Na época, isso acabou gerando críticas e piadas por se tratar de um preço muito baixo. Sua criação começou em março de 2010 quando Gaga revelou que estava trabalhando em um novo disco. Em uma entrevista, ela declarou que havia escrito “o hino dessa geração”, concluindo que era “a melhor música que já escrevi”. Em 12 de setembro do mesmo ano, Gaga anunciou o título do álbum e cantou o refrão da faixa-título durante o seu discurso de agradecimento no Video Music Awards. “Born This Way” decorre de gêneros como o dance-pop e synth-pop, assim como seu trabalho anterior. Também inclui uma gama mais ampla de influências, como ópera, heavy metal, disco, house e rock, enquanto o conteúdo lírico fala sobre sexualidade, religião, liberdade e feminismo. A faixa-título foi lançada sob um buzz enorme – todos estavam ansiosos para ver o próximo passo da estrela pop em acensão. O lançamento ocorreu três dias antes do 53rd Grammy Awards, local onde foi realizada a primeira performance ao vivo da canção.

Tanto o álbum como o primeiro single foram alimentados pela adoração de Gaga por seus fãs, os Little Monsters. Naquele ano, ela estava com uma popularidade fora de série e tornou-se um verdadeiro fenômeno. Lady Gaga estava colhendo os frutos do grande sucesso do “The Fame” (2008). Mas como ninguém agrada a todos, “Born This Way” também recebeu diversas críticas de grupos religiosos condenando-o por sua incorporação de ícones do Cristianismo e posição sobre sexualidade. O vídeo de “Judas” foi duramente criticado pela Igreja Católica por causa da forma como Gaga abordou Maria Madalena e Judas – ela também foi acusada de lança-lo propositadamente na Semana Santa. Discussões a parte sobre as controvérsias do álbum, “Born This Way” contém várias canções cativantes, bem como outras mais reservadas e executadas com maiores ambições. Quase todo o repertório possui alguma homenagem e influência, mesmo que seja em referências sutis. O álbum foi lançado com a intenção de solidificar sua posição como artista pop visionária. No entanto, Gaga estava ansiosa demais para abraçar seu papel de atual rainha do pop. Pelo menos ela não abandonou sua sensibilidade e dons criativos, mesmo que suas composições não tenham pisado em um território imprevisível ou fora da zona de conforto. A faixa de abertura, “Marry the Night”, é um dance-pop influenciado por electro-rock, synth-pop e house, conduzida por batidas propulsoras e sinos eletrônicos. 

A letra é um tributo ao seu amor pela vida noturna – a linha “eu vou casar com a noite” é praticamente um grito de guerra. A fã base da Lady Gaga é formado, em sua grande maioria, pelo público gay. E por ser considerada um instrumento importante como ativista dos direitos homossexuais, ela não poderia deixar de fazer uma homenagem a comunidade LGBT. Quando ela disse que havia criado o “hino dessa geração”, se referia a faixa-título escrita para as mulheres e os homossexuais. Embora Gaga tenha se inspirado na Whitney Houston, “Born This Way” é um grande aceno para “Express Yourself” da Madonna –  ambas possuem melodias muito parecidas. De qualquer forma, é uma música electropop potente com mensagens de auto-capacitação e liberdade. É apoiada por sintetizadores nervosos, linhas de baixo e percussões adicionais, além de um órgão no final. Foi escrita por Gaga e Jeppe Laursen, que a produziu juntamente com Fernando Garibay e DJ White Shadow. Letras como – “Não se esconda em arrependimento / Apenas ame-se e você estará feito / Eu estou no caminho certo, baby / Eu nasci assim” – reforçam a mensagem de auto-estima e aceitação pessoal. “Government Hooker” é um número synth-pop que incorpora influências de outros subgêneros eletrônicos, incluindo o techno e o trance. Uma música rebelde focada em temas a respeito da capacitação sexual das mulheres, expressada por metáforas sobre a suposta relação entre a atriz Marilyn Monroe e o ex-presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy.

Infelizmente o som mais pesado soa artificial quando combinado com a produção excessivamente agitada. Escrita e produzida por Gaga e RedOne, “Judas” é um electro-house com batidas frenéticas sobre uma mulher apaixonada por um homem que a traiu. Sua produção lembra um pouco “Bad Romance”, embora não transmita o grande impacto da mesma. É provavelmente a canção mais polêmica do álbum, por fazer referências pesadas, pisar no mesmo território de “Like a Prayer” e ser considerada uma injúria pela Igreja Católica. Liricamente, Gaga utiliza parábolas religiosas e tenta usar a história de Judas como metáfora para um relacionamento ruim. “Americano” combina mariachi, house e techno com elementos de música latina. Seu conteúdo lírico aborda o casamento homossexual, mas é particularmente a música mais chata do álbum. Em contrapartida, “Hair” é um synth-pop com elementos de disco e belo saxofone realizado por Clarence Clemons, ex-membro da The E Street Band. As letras são inspiradas por sua experiência como adolescente quando seus pais a obrigavam vestir-se de certa maneira. Ela basicamente fala sobre a libertação e capacidade de trilhar seus próprios caminhos. Com um inusitado título em alemão, “Scheiße” é sem dúvida uma das melhores canções do álbum. Uma música dance-pop com sintetizadores pesados e refrão extremamente cativante. Ademais, também possui rápidas batidas de techno e tons de electroclash e eurodisco.

Sua monstruosa melodia é atada à uma letra bilíngue e tom feminista por trás. “Bloody Mary” é outra canção cheia de referências religiosas, onde Gaga tenta canalizar o seu interior injetando imagens bíblicas e fazendo uma celebração descarada de indulgência carnal. Musicalmente, é um eletro-pop com tom erótico e provocativo. “Bad Kids” fornece um refrão adorável ao lado de bons licks de guitarra e sintetizadores. Nas letras, ela entrega outra mensagem de encorajamento para os fãs, assegurando que, apesar de tudo, eles são bons para ela: “Não se sinta inseguro se o seu coração é puro / Você ainda será bom para mim mesmo sendo uma criança malvada”. “Highway Unicorn (Road to Love)” é um verdadeiro hino influenciado pela década de 80 que reflete a busca de Lady Gaga para encontrar o amor. Uma canção electropop dinâmica com elementos industriais, percussão contundente e tons melancólicos. O refrão seguido por uivos alucinantes é a melhor e mais encantadora parte da música. Eu demorei um tempo para começar a gostar de “Heavy Metal Lover”, pois é um pouco difícil de digerir. Mas depois de escutá-la várias vezes, percebi o quanto o seu instrumental, vocais em efeitos e ondas distorcidas são hipnóticos. “Electric Chapel”, por sua vez, é uma canção electro-rock com elementos de europop, bem como influências de glam metal. Órgãos e sinos de igreja foram acrescentados para fortalecer a melodia e o tema religioso. Enquanto isso, sintetizadores e guitarras elétricas contribuem para o som de tendência rock & roll.

“Yoü and I” é outra potência do repertório – ela contém amostras de “We Will Rock You” e dispõe da guitarra elétrica de Brian May. O ritmo mais lento e a instrumentação, com guitarras e piano, ficaram perfeitamente equilibrados. Os vocais também estão sublimes – uma balada country rock poderosa e incrivelmente honesta. “The Edge of Glory” é outra canção maravilhosa e digna de aplausos – ela fala sobre os últimos momentos da vida. A inspiração lírica veio depois que o avô da Lady Gaga faleceu em setembro de 2010. A produção, com influências de electro-rock e disco, é parecida com algumas obras do Bruce Springsteen e conta com um maravilhoso solo de saxofone. No “Born This Way”, Gaga conseguiu equilibrar sua imagem extravagante com uma produção implacável. Mas embora as composições sejam ousadas, possui um certo exagero de menções a Jesus Cristo e contextos religiosos que poderiam ser evitados. Em certos momentos, parece que as referências estavam ali apenas para chamar atenção e gerar polêmicas desnecessárias. Dito isto, o álbum possui pouquíssimas falhas; entre elas a falta de uma música tão grande quanto “Bad Romance” ou “Poker Face”, certa confusão em sua ordem e o uso repetitivo de algumas batidas. Como um todo, o repertório é centrado em torno da Lady Gaga e consegue transmitir emoção e energia necessárias. “Born This Way” pode não ter sido o registro histórico que parecia ou deveria ser. Mas é um esforço sólido, decente e cativante. Foi um passo adiante em sua carreira e uma excelente contribuição para sua discografia.

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Favorite Tracks:

“Born This Way” / “Scheiße” / “The Edge of Glory”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.