Review: Kelly Clarkson – Piece by Piece (2015)

Independentemente de suas falhas, “Piece By Piece” possui canções de destaque e pode ser considerado um bom álbum. Outro material que maximiza a poderosa voz da Kelly Clarkson.

Para suceder o álbum natalino “Wrapped in Red” (2013), Kelly Clarkson lançou o “Piece by Piece”. Esse é o seu último trabalho sob o contrato de gravação que conseguiu após vencer a primeira temporada do American Idol em 2002. Lançado quatro anos após o “Stronger” (2011), “Piece by Piece” vê Clarkson se reunindo com colaboradores frequentes, como Greg Kurstin, Jesse Shatkin, Jason Halbert, Eric Olsan e Chris DeStefano. A gravidez foi uma de suas principais inspirações para as composições do álbum, enquanto reuniu material de outros compositores como Sia Furler, Matthew Koma e Bonnie McKee. Inspirado pela produção do “Wrapped In Red” (2013), o álbum também possui vários arranjos orquestrados por Joseph Trapanese. É um projeto ilustrado conceitualmente que tenta contar uma história única, usando temas como desgosto amoroso, lutas pessoais, paz e emponderamento. Sonoramente, suas canções consistem em gêneros como electropop, synth-pop, pop orquestral, power pop e música eletrônica, fugindo um pouco do pop rock predominante de seus discos anteriores. Kelly Clarkson é uma cantora verdadeiramente talentosa que constantemente recebe elogios por sua voz. Sua versatilidade é intrínseca ao seu sucesso duradouro. Dessa vez, Clarkson abandonou em grande parte o espetado pop rock que sempre esteve presente em sua discografia. Isto aconteceu em favor de arranjos midtempo e inspirações eletrônicas, uma escolha para tentar ser menos convencional.

O primeiro single do álbum, “Heartbeat Song”, foi produzido por Greg Kurstin enquanto Mitch Allan, Kara DioGuardi, Jason Evigan e Audra Mae foram responsáveis pela escrita. Liricamente, ele fala sobre uma pessoa que restaura a fé de alguém através do amor. Sonoramente, é uma faixa synth-pop uptempo que começa com o refrão e sacudida na melodia antes de se estabelecer em seu pulso firme. É uma canção radiofônica com boa dose de bateria, guitarras e sintetizadores típico dos anos 80. Agora com 32 anos e mãe, percebe-se que ela voltou com uma sonoridade revigorada. Clarkson foi capaz de entregar vocais robustos que transmitem uma grande carga de confiança. Embora não seja uma reinvenção, “Heartbeat Song” é uma mudança bem-vinda para ela. As letras emanam uma vibração positiva e animada. “Essa é a música das batidas do meu coração e eu vou tocá-la / Já faz tanto tempo que esqueci como aumentá-la a noite toda”, ela canta no refrão. Depois de tantas músicas de desgosto, “Heartbeat Song” prova que mesmo após uma série de mágoas, ainda pode encontrar a felicidade. O synth-pop “Invincible” é uma ótima combinação das habilidades de composição da Sia e o impressionante alcance vocal da Kelly Clarkson. Nesta midtempo, sua voz está mais forte e soulful, enquanto atinge notas altas próximo do seu final. Ela retorna a uma fórmula conhecida onde seus vocais costumam brilhar. Apesar do excesso de produção, é uma canção poderosa movida por fortes tambores, bateria elétrica e lindas cordas de violino.

O refrão é preenchido por grande nuances e acrobacias vocais que resume seus pensamentos. Liricamente falando, é um número que lembra a força de “Stronger (What Doesn’t Kill You)”, seu último single a atingir o topo da Billboard Hot 100. “Someone”, escrita por Matthew Koma e produzida por Greg Kurstin, é influenciada pela música trance. Uma balada ambivalente onde Kelly Clarkson menciona um falso pedido de desculpas. É basicamente uma doce despedida para um relacionamento que simplesmente não engrenou. A produção é conduzida por linhas de sintetizador e um pano de fundo eletrônico muito bem executado.  “Take You High” é muito diferente do que estamos acostumados a ouvir da Kelly Clarkson. Sua produção é surpreendentemente espantosa, desde a vibração oitentista até a combinação inusitada de EDM e gospel. Curiosamente, o refrão quase não contém letras – Clarkson constrói todo o drama através dos versos e do pré-refrão. Inicialmente, “Take You High” é uma canção celestial e edificante, com doces cordas e vocais angelicais. Uma peça apaixonada onde ela diz ao seu amante que eles não devem ter medo dos sentimentos que estão por vir. No entanto, acontece uma súbita mudança durante o eufórico refrão, que é constituído por um mar de sintetizadores, batidas eletrônicas e sons distorcidos. A faixa-título é a mais pessoal do álbum e uma das mais bem escritas de sua carreira. Clarkson escreveu “Piece by Piece” depois que teve uma conversa com sua irmã mais velha. A canção trata-se do seu pai e de sua infância conturbada. 

Os pais delas se divorciaram quando ela tinha apenas 6 anos de idade, enquanto nunca teve um bom relacionamento com seu pai. Ele as deixou e não fez parte de suas vidas, tanto que ela documentou os efeitos disso em “Because of You”. O resto da história de “Piece by Piece” tem uma mensagem muito positiva e comovente, pois o amoroso marido da Kelly Clarkson mudou seu ponto de vista sobre os homens. Ele a fez pensar que nem todos os pais são ruins como o dela. O refrão final da música resume isso perfeitamente: “E sabe, ele nunca vai embora / Ele nunca pede por dinheiro / Ele cuida de mim / Porque ele me ama / Pedaço por pedaço ele restaurou minha fé / De que um homem pode ser gentil e que um pai pode ficar”. O lindo sentimento das letras é acompanhado por belas harmonias, fortes linhas de tambor e melodias encantadoras. Talvez você não saiba, mas “Run Run Run” é na verdade um cover de uma recente faixa da banda Tokio Hotel. Sua versão foi produzida por Jason Halbert com escrita adicional de Tim James e Antonina Armato do Rock Mafia – uma balada de R&B e soul exageradamente dramática e melancólica. É uma música minimalista com piano sombrio, vocais emocionais e letras conflituosas, onde Kelly Clarkson e John Legend mostram alguma química vocal e compartilham as mesmas ideias em termos de fraseado e entrega. Após o segundo refrão, a música oferece uma colisão de tambores e guitarras, e faz ambos cantarem em meio a um tumulto.

“I Had a Dream” é bastante agradável e tem como objetivo inspirar sua geração a ser engajada. Uma midtempo atraente com refrão cativante que traz a qualidade natural do seu tom vocal. “Let Your Tears Fall” é outra canção pop escrita por Sia e produzida por Greg Kurstin. Ela contém um título encorajador, assim como “Invincible”, mas é direcionada para outras pessoas. Clarkson canta para alguns amigos que estão sofrendo, dizendo que não importa o que aconteça, ela estará lá para ajudá-los. “Tightrope” é uma balada dramática que alivia a dor das letras de forma delicada. Ela é toda executada com o apoio de um simples piano, enquanto seu tom e inspiração são tristes e emocionais. Os vocais conseguem transmitir todo o sentimento da música, mas para ser honesto, também é um pouco chata e monótona. “War Paint” expressa uma mensagem comum em canções de amor: retire a máscara e seja quem você realmente é. Uma canção synth-pop com batidas de EDM e energia semelhante a do “Breakaway” (2004). Entretanto, parece meio inacabada e com determinadas lacunas na produção. É impressionante como o ritmo do álbum cai conforme chegamos na oitava faixa. A energética “Dance with Me”, por sua vez, começa bem através da introdução eletrônica e riffs de guitarra. Essa música explora algo novo para Kelly Clarkson, por conta da vibe positiva que fala sobre soltar-se e apenas dançar. Conforme avança, ela assume uma vibração oitentista e transforma-se em um dance-pop totalmente despreocupado.

No entanto, ela perde um pouco da diversão depois da primeira metade, porque o refrão é muito repetitivo e a música longa demais para suportar isto.  Barulhos de um rádio dão início adequadamente a penúltima faixa. “Nostalgic” é um synth-pop divertido que encaixa-se perfeitamente ao título, uma vez que possui sensação de nostalgia e influências oitentistas. É um número uptempo refrescante que surge logo após uma sequência de músicas insatisfatórias. O ritmo, a guitarra e a bateria pulsante formam uma combinação que leva o ouvinte de volta para a década de 80. A edição padrão do álbum encerra com “Good Goes the Bye” – outra canção synth-pop que se destaca pelos vocais apaziguadores. É otimista e possui uma produção cativante, mas não fornece um final impactante para o “Piece by Piece”. É difícil acreditar, mas já fazem 13 anos desde que a Kelly Clarkson venceu o American Idol. E de lá para cá, ela não fez nada além de provar que foi totalmente merecedora dessa conquista. “Piece by Piece” não é perfeito, mas é uma adição interessante para o seu catálogo. Ele apresenta uma Kelly Clarkson mais madura, determinada e decidida. Independentemente dos seus erros, tem suas canções de destaque e pode ser considerado um bom álbum. Mesmo em seus momentos mais banais, consegue prender a atenção do ouvinte. A melhor parte é que soa como se fosse uma mistura da nova e velha Kelly Clarkson. Em última análise, é um projeto que consegue exibir a confiança de uma profissional experiente.

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Favorite Tracks:

“Invincible” / “Take You High” / “Piece By Piece”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.