Review: Gwen Stefani – This Is What the Truth Feels Like (2016)

“This Is What the Truth Feels Like” é meio boring em alguns lugares e seguro demais em outros, mas é realmente genuíno. Suas melhores músicas são aquelas onde ela está mais chateada.

Depois de dez anos, Gwen Stefani finalmente lançou um novo álbum solo. Divulgado em 18 de março, “This Is What the Truth Feels Like” é o seu terceiro álbum de estúdio. Stefani é dona de hits peculiares, canções verdadeiramente únicas e cativantes do seu próprio jeito. Ela começou sua carreira como vocalista do No Doubt, onde conseguiu grandes êxitos e sucesso comercial. Mas foi com o seu material solo que Stefani tornou-se uma verdadeira popstar e mostrou o quanto é versátil. Ao lançar o “Love. Angel. Music. Baby.” (2004), ela trocou o ska punk do No Doubt por um som pop e R&B. Foi através das batidas do Neptunes em “Hollaback Girl”, que ela ganhou destaque no cenário mainstream. Em 2012, ela chegou a lançar um novo disco com o No Doubt, mas não conseguiu qualquer impacto. Seu novo álbum é agradável, familiar e talvez o mais radio-friendly de sua carreira. Liricamente, ele reflete tudo que Stefani passou em sua vida pessoal nos últimos anos. Nesse meio tempo, ela se divorciou de Gavin Rossdale, com quem foi casada durante 13 anos, e começou a namorar o Blake Shelton. Em sua maioria, as canções abordam o fim do seu casamento e o início de um novo relacionamento. Ela fala sobre seus sentimentos, dor, traição, mágoas, amor e recomeços. Em comparação com o “Love. Angel. Music. Baby.” (2004), é um disco mais cru e vulnerável. Entretanto, não é tão bom e completo como o citado. Porque embora tenha canções cativantes, possui algumas faixas muito abaixo do esperado. Apesar do título, “Misery” é um número otimista onde Stefani supera a dor de um antigo relacionamento e cria expectativas por uma vida de felicidade.

Com ajuda dos escritores Justin Tranter e Julia Michaels, ela compara o amor às drogas: “Você é como drogas para mim / Estou completamente afim de você”. Produzida por Mattman & Robin, é um electropop midtempo que começa minimalista ao redor de palmas e linhas de baixo. O desempenho vocal é ligeiramente vulnerável enquanto lembra algumas canções do “Tragic Kindgom” (1995). O refrão cresce de forma cativante enquanto ganha mais apoio da percussão durante o segundo verso. “You’re My Favorite” continua explorando o tema amoroso, onde Gwen Stefani expressa o interesse por seu atual romance: “A maneira como você me beijou não era normal / Tirou-me do meu corpo, algo espiritual”. É uma canção bastante simples, começando pelos blips modernos e sintetizador cintilante. Possui um sulco refrigerado, pisa no território trap e faz uso de algumas batidas borbulhantes. Em “Where Would I Be?”, temos uma mistura irresistível do som solo da Gwen Stefani com o doce ska do No Doubt. Mais uma vez, ela elogia o seu atual interesse amoroso, perguntando-o onde ela estaria sem o seu amor: “Onde eu estaria garoto, se você não me amasse garoto?”. Liricamente, ela se transforma em uma ingênua adolescente apaixonada. Assim como em seus discos anteriores, Stefani brinca com o reggae nesta encantadora canção. A borda reggae de “Where Would I Be?” é combinada com o pop, ska e hip-hop, a fim de criar uma das melhores faixas do registro. Sua batida não soaria fora do lugar se estivesse presente em algum disco do No Doubt.

Enquanto isso, a ponte resgata o hip-hop de suas primeiras músicas solo, como “Hollaback Girl”, “Orange County Girl” e “Now That You Got It”. Lançada como segundo single, “Make Me Like You” também foi escrita ao lado de Justin Tranter e Julia Michaels. Alguns podem achar que a pura felicidade e natureza otimista desse single seja bastante surpreendente, considerando os últimos acontecimentos em sua vida pessoal. Uma canção disco-pop otimista que utiliza guitarras, linhas de baixo funky e uma progressão de tambor em sua composição. Liricamente, fala sobre encontrar um novo amor após um relacionamento frustrado. Aparentemente, a letra também foi inspirada por sua atual relação com o Blake Shelton. “Make Me Like You” é sobre seguir em frente depois de um passado ruim, conforme ela declara no verso de abertura: “Eu estava bem antes de te conhecer / Estava destruída, mas bem / Estava perdida e incerta / Mas meu coração ainda era meu”. Mais tarde, ela canta no contagiante refrão: “Por que você tem que me fazer gostar de você? / Sim, não estou acostumada com este sentimento”. O refrão se instala em sua mente logo a partir da primeira escuta, assim como obtém pequenos cânticos e gritos definidos pela frase “oh God, thank God I found you”. Sua produção é polida, retrô e possui influências da década de 80. Ela mantém a autêntica vibração presente em singles do passado, mas também incorporando os mesmo elementos disco de músicas como “Birthday” (Katy Perry), “Sugar” (Maroon 5) e alguns trabalhos da Kylie Minogue.

Além disso, apresenta um riff de guitarra que destaca-se em cima dos charmosos sintetizadores e do empolgante refrão. “Truth”, faixa que deu inspiração para o título do álbum, nos mostra o lado mais cru da Gwen Stefani – ela realmente está no seu momento mais vulnerável e emocional. É a primeira faixa que traz à tona o término do seu casamento com Gavin Rossdale. Ela fala sobre estar se recuperando e agradece ao seu novo namorado por tirar sua tristeza: “Mas talvez eu mereça esse garoto / Depois de tudo que eu passei / Como pode tudo isso ser verdade?”. Esta canção exibe uma visão mais lírica do seu novo relacionamento. Uma balada verdadeiramente honesta auxiliada por uma produção simples e performance vocal emotiva. Alguns sintetizadores e belos riffs de guitarra fornecem o cenário ideal para a introspecção das letras. O primeiro single do álbum, “Used to Love You”, também reanima um lirismo que originalmente a fez famosa. Tanto em carreira solo quanto como vocalista do No Doubt, Stefani sempre esteve no seu melhor quando coloca sua alma sobre a música. Musicalmente, “Used to Love You” é uma balada synth-pop que apresenta dramáticas teclas de piano, sintetizadores e contidas batidas. Liricamente, fala sobre o fim do seu relacionamento, onde ela se questiona como amava seu ex. Escrita logo após o divórcio, seu conteúdo lírico chama atenção por ser vulnerável e a entrega vocal bastante comovente. Ela, em profundo estado de choque, exprime sua preocupação em versos como: “Nunca pensei que isso fosse acontecer / Preciso absorver isso, você foi embora”

Mais tarde, se pergunta tristemente no refrão: “Eu não sei porque chorei / Mas acho que é porque me lembrei pela primeira vez / Desde que odiei você / Que eu costumava amar você”Além da produção aceitável, o arranjo do refrão impõe emoções incríveis, enquanto os sibilantes “oh, oh, oh” são elementos adoráveis. Se você ver apenas a letra poderia esperar uma lenta balada, mas na verdade, “Used to Love You” é uma midtempo com fluxo otimista e ritmo oscilante. A sétima faixa, “Send Me a Picture”, traz o foco para o seu novo amor e continua a nos dar um vislumbre sobre sua relação com Shelton. Mas desta vez, o tema é a distância. Embora ambos não possam estar fisicamente juntos, podem pelo menos enviar uma foto de si. “Me envie uma foto nesse momento / Porque eu estou esperando tanto tempo / Para chegar bem na frente desses olhos”, ela canta no refrão. Sonoramente, “Send Me a Picture” é uma midtempo que pisa fortemente no território dancehall – uma canção suave e vocalmente sedutora. A agressiva “Red Flag” foi a primeira música que Gwen Stefani escreveu para o álbum. Nesta faixa, temos as mesmas vibrações de hip-hop presentes nos seus dois primeiros discos. Uma canção sarcástica, irônica, experimental e um verdadeiro discuso de raiva contra seu ex-marido. “Olhe para você / Este é o seu castigo”, ela canta. Inicialmente, “Red Flag” começa com violinos obscuros antes da parte vocal energética tomar o cento das atenções. Influenciada pelo trap, é um número divertido com fortes batidas e onde Stefani coloca um pseudo-rap para fora.

Embora seja caótica e a faça voltar às suas raízes, parece meio incoerente com o restante do álbum. Geralmente, colaborações com outros artistas sempre acontecem, a fim de garantir um potencial hit de rádio. Dessa vez, a equipe da Gwen Stefani escolheu o rapper em ascensão Fetty Wap para participar de “Asking 4 It”. É uma parceria inusitada e um tanto quanto surpreendente. Fetty Wap tem um fluxo indecifrável e é realmente difícil entender o que ele fala em algumas linhas. Apesar da falta de química entre ambos, “Asking 4 It” é uma canção de hip-hop e trap pegajosa e radio-friendly. As poderosas batidas são semelhantes as encontradas no álbum de estreia do Wap. Ela começa com Gwen Stefani perguntando: “Por que você quer ficar com alguém como eu / Por que você quer viver de modo imprudente?”. Durante a ponte, Wap soa entediado e contribui com um verso desconexo e desnecessário. Em seguida, “Naughty” nos traz um grande sentimento de nostalgia, uma vez que explora o mesmo som old-school dos seus discos anteriores. Ela apresenta uma grande dose de energia e atitude selvagem. Em seu conteúdo lírico, ela brinca com a suposta traição e mal comportamento do seu ex-marido. Outra música sarcástica que capta a raiva e dor de sua separação. A produção também é meio jazzy, visto que apresenta um riff de piano incongruente. Isso nos leva para um dos pontos mais interessantes da música: a boa transição e mistura de gêneros. Em “Me Without You”, ela está orgulhosamente se recuperando da dissolução do seu casamento, dizendo que não precisa mais do seu ex-marido em sua vida. Uma música que a vê ganhando forças, após o término traumático com Gavin Rossdale.

“Não, eu não preciso de você um pouco, nem um pouco / Para mim, eu finalmente admiti”, ela canta. Também vemos ela finalmente tentando ser otimista: “Eu posso amar quem eu quiser / Dizer o que quiser / Fazer o que eu quiser”. “Me Without You” é uma balada de auto-capacitação guiada por suaves teclas de piano, pulsante batidas, palmas rítmicas e eventuais violinos. O álbum fecha com “Rare”, uma linda canção electropop com influências de folk pop – é surpreendente como Gwen Stefani encontrou alguém tão especial após passar por um grande desgosto amoroso. Com uma produção minimalista, essa balada midtempo destaca-se por concentrar-se em uma instrumentação mais acústica. Conduzida por uma suave guitarra e vocais delicados, “Rare” consegue falar sobre o seu namorado sem soar exagerada: “Você é raro / E eu estou amando cada segundo, você não sabe?”. É estranhamente mágica e agridoce. Uma linda canção que combina perfeitamente guitarras acústicas com sintetizadores arejados. Com “This Is What the Truth Feels Like”, Gwen Stefani conseguiu transformar a sua dor em arte. O repertório é composto, em sua grande maioria, por canções de amor e desgosto amoroso. Trabalhar com Justin Tranter e Julia Michaels foi uma jogada inteligente. O repertório serviu como uma auto-terapia, em grande parte graças a esses dois escritores. “This Is What the Truth Feels Like” é equilibrado e principalmente honesto. A honestidade foi fundamental para dar um ar de maior qualidade para ele. Ele é muito mais elegante que o “The Sweet Escape” (2006) e mais maduro que o “Love.Angel.Music.Baby” (2004).

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Favorite Tracks:

“Where Would I Be?” / “Make Me Like You” / “Used to Love You”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.