Review: Florence + the Machine – How Big, How Blue, How Beautiful (2015)

“How Big, How Blue, How Beautiful” é um disco robusto construído de forma cuidadosa para suportar a dor da Florence Welch. Transbordando com composições majestosas e um artesanato lírico,  é um LP extremamente duradouro. 

Florence Welch e sua banda, também conhecida por Florence + the Machine, lançou o seu terceiro álbum de estúdio em maio de 2015. “How Big, How Blue, How Beautiful” marca o retorno da banda após um hiato de três anos sem disco novo. Um registro de indie rock refinado e despojado instrumentalmente, que incorpora uma mistura de influências musicais como o blues, gospel e rock psicodélico. A beleza de suas narrativas não perderam o brilho – o álbum coloca uma maior ênfase nas letras e exala um mar de emoções. Um pouco diferente dos discos anteriores, que lidaram fortemente com fantasias e metáforas, as letras do “How Big, How Blue, How Beautiful” focam um pouco mais na realidade. É um material poderoso que lida principalmente com conflitos pessoais da vocalista. Um álbum que reflete sobre a forma de viver e amar, onde sua mágoa é sentida em cada palavra, nota, sussurro ou grito repentino. Sua voz poderosa, tingida com dor e angústia, é capaz de transmitir um leque de sentimentos. Suas músicas contam histórias que transmitem sugestões e imagens ao ouvinte. Seu arco narrativo é o equivalente à arte abstrata. Ela nos permite uma conexão ao trazer suas experiências para seu trabalho. O repertório abre em grande escala com “Ship to Wreck”. Musicalmente, é uma faixa de folk rock e pop rock que carrega um som inquieto e fala sobre comportamento auto-destrutivo. Uma bela canção com conflitos internos e diversos questionamentos. Alguns versos são confusos, mas o pré-refrão e o refrão são incrivelmente cativantes, assim como os vocais de influência gospel.

Mas apesar do tema, “Ship to Wreck” transmite uma sensação otimista e refrescante. Ela incorpora um ligeiro som rock, mas não é tão intenso e pesado como “What Kind of Man”. Uma música que equilibra as percussões rápidas com uma sonoridade mais suave. Desde o seu primeiro segundo, apresenta dedilhados de guitarra e batidas acusticamente aceleradas. Os versos são cheios de metáforas e referências marinhas: “Agonizando de dor, os tubarões brancos nadando na cama / E aí vem uma baleia assassina que canta para eu dormir”Metáforas que falam sobre noites sem dormir e auto-destruição estão por toda parte, mas de alguma forma a música se mantém arejada. Instrumentalmente, ela começa com uma mistura de guitarras melódicas, bateria e percussão adicional. Essa combinação de instrumentos carrega o ritmo com facilidade e constrói a base para os vocais impecáveis. Welch alterna sua voz entre os intervalos, combinando notas altas com inferiores sem perder a energia. Em suma, “Ship to Wreck” é surpreendentemente sofisticada em comparação com alguns números mais antigos da banda. Produzida por Markus Dravs, “What Kind of Man” foi lançada como carro-chefe do álbum – um garage rock com nova direção sonora. Aparentemente, ela canaliza suas influências mais pesadas. Apesar da assinatura vocal da Florence Welch, a produção é um pouco diferente do seu último álbum. Em vez de tambores contundentes, a banda se apoia fortemente na guitarra elétrica. Pode parecer uma diferença sutil, mas não passa despercebida.

O tom vocal é a chave aqui – um dos aspectos mais brilhantes da música. Isso define o cenário para a abertura enquanto a turbulência de sua voz permanece temperamental e sinistra. “What Kind of Man” é inicialmente lenta, mas posteriormente é invadida por guitarras, batidas pesadas, trombetas, pandeiro e bumbo. Toda a introdução pensativa é substituída por um aspecto melancólico frisado por incríveis riffs de guitarra elétrica e vocais de apoio gospel. Liricamente, “What Kind of Man” concentra-se em falar sobre um homem indeciso que passou pela vida da Florence Welch. Embora simplista, o refrão é eficaz e a parte mais estridente da música. Ele é interpretado de forma massivamente alta sob o enorme apoio das guitarras: “Que tipo de homem ama assim?”. Como sempre acontece com canções da Florence + the Machine, ela de alguma forma consegue ficar ainda melhor quando aproxima-se do final. Ela cria um drama eminente refletido pela mudança repentina no ritmo e musicalidade. Após o refrão com adição de trombetas, “What Kind of Man” evolui conforme os instrumentos começam a se misturar. Quando ela chega perto do fim, uma harpa infame e seção de metais surge novamente. É um single mais hostil do que outros do passado, tanto liricamente quanto musicalmente. A faixa-título também aponta para uma nova direção sonora – uma balada pop de ritmo moderado com trombetas e alto uso de violinos. O arranjo melódico das guitarras, ao se juntar com os violinos e tambores, a deixam mais musicalmente diversa.

Uma canção honesta que examina os efeitos da fama em um relacionamento de longa distância. Há um controle vocal incrível em exibição que desenha perfeitamente a melodia para o ouvinte. Além disso, é lindamente composta por uma orquestra que cria um equilíbrio entre as partes mais serenas e fragmentadas. A quarta faixa, “Queen of Peace”, é uma das músicas mais cativantes do álbum. Ela fala sobre cair no esquecimento e enfraquecer diante das pressões da vida. Ao escutá-la, sentimos a dor angustiante que Welch tenta retratar através de sua voz. Ela abre lentamente através de uma introdução solene esculpida por brilhantes arranjos. Mas essas cordas iniciais não duram muito tempo e são substituídas por incansáveis batidas de tambores. Eles ajustam o ritmo agridoce enquanto os vocais exuberantes tomam conta – destaque para as trompas incrivelmente cativantes. Sua estrutura é musicalmente semelhante a da faixa-título, embora possua mais energia e determinação. Após o sucesso do “Ceremonials” (2011), Florence Welch sentiu uma grande pressão e passou por um colapso nervoso durante a criação do “How Big, How Blue, How Beautiful”. Isso, provavelmente, foi a inspiração para “Various Storms & Saints” – balada que se move em um ritmo mais lento. Ela mostra um lado mais suave de sua voz, ao passo que fala sobre encontrar a felicidade mesmo nos momentos difícies. Tem um ar sentimental e confessional que evoca uma grande melancolia. Quando você presta atenção nas letras, percebe o quão profunda e pessoal essa música é.

Trata-se de ensinar a si mesmo a ser livre e deixar de lado as preocupações. Uma canção conduzida apenas por uma guitarra e um tranquilo piano ao fundo. Transmite uma sensação mais escura, tanto vocalmente quando musicalmente; suas harmonias misturam-se perfeitamente com os vocais. “Delilah” começa com foco nos vocais e lentamente constrói uma energia apaziguadora. Ela progride constantemente e explora as notas mais altas da Florence Welch. Uma das faixas mais otimistas do álbum inspirada pelo conto bíblico de Sansão e Dalila. Ela fala sobre os perigos de ser viciado em uma pessoa, e utiliza ambos como modelo para sua história. Essa música possui uma sensação dominante, principalmente, por conta da triunfante batida de tambor e apoio gospel. Por outro lado, “Long & Lost” toma um rumo mais calmo e mostra um lado diferente da Florence Welch. Ela soa quase tímida, conforme anseia de saudade por um amor perdido. Consideravelmente mais lenta, é uma balada com sussurros vocais que seduz pelo ritmo evocado pela solene guitarra. “Caught” é uma faixa em total conformidade com o estilo da banda. Embora não apresente trombetas ou contundentes tambores, é uma música bem dominante. Ela abre sutilmente e faz uma mistura inteligente de R&B e soul. “Third Eye” inicia com um ritmo doo-wop e palmas, ao passo que fortes batidas tribais aparecem por trás. Welch fornece letras que fazem homenagem ao terceiro olho da tradição espiritual hindu. Enquanto os vocais seguram o primeira parte, os instrumentos de percussão tomam o foco.

“St. Jude”, por sua vez, é uma homenagem a São Judas Tadeu – o padroeiro das causas perdidas. É provavelmente a canção mais delicada do álbum – atada por melodias e letras meticulosamente divinas. Uma música contemplativa com fundo fortalecido por sintetizadores e uma distante batida. Tudo flui facilmente, desde sua forma assombrosa até as notas altas impecavelmente mantidas. Ela vibra com uma energia tranquila em seu comprimento e, embora nunca exploda em grandes harmonias, é muito bem escrita e realizada. “Mother” é peculiar, sensual e potente – há um medo subjacente que a torna ainda mais interessante. É a faixa mais longa do registro – chegando perto dos 6 minutos de duração. Uma composição suave com alto uso de órgão e guitarras elétricas. Sua introdução é fanhosa e tem uma sensação escassa, mas cresce rapidamente conforme o refrão surge. Cada canção do “How Big, How Blue, How Beautiful” é uma joia e juntas formam um repertório brilhante. Embora a maioria explore os mesmos temas, é uma coleção bem sólida. Um disco mais coeso que o “Lungs” (2009) e menos abstrato que o “Ceremonials” (2011) – crivado de reflexões, desgosto e sabedoria. Em sua essência, é absolutamente filtrado e inspirado pela vida pessoal da Florence Welch. “Lungs” (2009) era despreocupado e fluía com a sensação de se apaixonar, enquanto “Ceremonials” (2011) era obscuro e abordava os perigos da vida. No entanto, “How Big, How Blue, How Beautiful” lança suas inibições e apresenta uma metamorfose sonora. É definitivamente um álbum grande, azul e bonito, como o próprio nome sugere.

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    SCORE - 76%
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Favorite Tracks:

“Ship to Wreck” / “What Kind of Man” / “Queen of Peace”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.