Review: Drake – Views (2016)

Com 82 minutos de duração, o álbum passa por várias fases musicais e temáticas, mas a atmosfera geral é amarga e desbotada – afundando-se em um som que mostra sinais de desgaste.

Drake teve sua grande estreia em 2009 com o hit “Best I Ever Had”. Naquele ano, ele apresentou-se como um rapper que também cantava, algo que Lauryn Hill e Missy Elliott já fizeram antes. Além de suas músicas, Drake também era singular em sua confiança e personalidade. Desde o sucesso do seu primeiro álbum, ele tornou-se um dos rappers mais populares e influentes do mainstream. Conforme os anos foram passando, ele crescia cada vez mais como artista – começando pela melancolia requintada do “Take Care” (2011) e a beleza rara do “Nothing Was the Same” (2013). A consistência do rap, a intensidade do canto e a versatilidade das músicas, o levaram ao estrelato. Seus álbuns costumam ser íntimos e precisos, devido, em grande parte, às produções lideradas por Noah “40” Shebib. Sua trajetória atingiu um pico durante 2015 com o lançamento da excelente mixtape “If You’re Reading This It’s Too Late” (2015) e do single “Hotline Bling”. Seu quarto álbum de estúdio, “Views”, foi premeditado para ser grande desde quando recebeu o título de “Views from the 6”. Em questão de comprimento, é realmente grande, uma vez que possui vinte faixas e 81 minutos de duração. Musicalmente, não é inovador, mas um pouco diferente dos seus últimos trabalhos. Pode não ser o seu melhor álbum, mas possui um som bastante destemido. Podemos classificá-lo como a representação de sua criatividade como artista. Na faixa de abertura, “Keep the Family Close”, Drake canta sobre a lealdade de familiares e amigos.

Ele aborda os problemas de confiança que teve nos últimos anos com pessoas que diziam ser seus amigos. Seu drama é construído lentamente sob a produção do relativamente desconhecido Maneesh Bidaye. “E tudo isso porque você escolheu um lado / Você devia ter colocado seu orgulho de lado e ficado comigo / Acho que não era o tempo certo / E claro que você foi e escolheu um lado que não era o meu”, ele canta. A produção é diferente de qualquer coisa que o Drake já criou antes. Sons de ventania e vozes femininas fornecem a introdução, antes de cordas orquestrais e poderosos tambores aparecerem. Sua mixagem e masterização são realmente esplêndidas. “9” é basicamente uma homenagem à Toronto, cidade natal do Drake. Ele admite sua paixão pela cidade, afirmando que, se necessário, morreria por ela. Mais tarde, ele diz: “Eu virei o seis de cabeça para baixo, agora é um nove” – essa linha se refere à marca de número seis que ele apresentou como título inicial do álbum. Os tambores dão uma vibração mais atmosférica para a música, ao passo que ela explora seu espaço através de cativantes sintetizadores. Em “U with Me?”, co-produzida por Kanye West, Drake questiona a lealdade de sua garota. Conforme a música progride, ele começa a se perguntar se ela realmente o ama. Seu fluxo é enfático e pensativo, mas segue de forma constante sobre a produção influenciada pelo R&B. A maravilhosa “Feel No Ways” possui um ritmo bastante incomum – canção com mais canto do que rap.

“E agora você está tentando fazer eu me sentir de certa maneira, de propósito / Agora você está jogando isso de volta na minha cara, de propósito”, ele canta relembrando de um relacionamento do passado. Produzida por Jordan Ullman, um dos responsáveis por “Hold On, We’re Going Home”, ela possui batidas de tambor, chimbais, teclados cintilantes, sintetizadores atmosféricos e amostras de “World’s Famous” do Malcom McLaren. Sobre batidas de Boi-1da e Nineteen85, Drake se mostra agressivo no banger “Hype”. Essa faixa poderia ser facilmente encaixada na mixtape “If You’re Reading This It’s Too Late” (2015) – sua batida é densa e o rap bem sólido. Uma inevitável diss-track direcionada ao Meek Mill que traz algum equilíbrio para o álbum. “Views já é um clássico”, Drake ostenta. Em outro momento, sua ira é claramente destinada ao Mill: “Eu não corro de material / Você não deve falar em mim, período / Você tenta dar-lhes o seu lado da história”. Em termos de fluxo e letra, “Hype” é semelhante a faixas como “Back to Back” e “Summer Sixteen”. “Weston Road Flows” é sobre onde Drake cresceu em Toronto. Nesta música, ele aborda sua infância e reflete sobre suas origens sob o sample de “Mary’s Joint” da Mary J. Blige. Uma vez que foi produzida por “40”, é, presumivelmente, uma das mais envolventes do álbum. Sempre que Drake e 40 vão para o estúdio, algo grande costuma acontecer. Ele se mostra confortável e disserta sem grandes esforços sob a amostra contínua de “Mary’s Joint”.

“O rapper mais bem-sucedido com 35 ou menos”, ele se gaba enquanto o clima é divertido e nostálgico. Também produzida por 40, “Redemption” é um esforço de R&B mais introspectivo e honesto com mistura de rap e canto. Uma faixa construída lentamente onde o encontramos expressando suas emoções sobre um namoro do passado. A forte batida de tambor, o rap e a melodia são os destaques. No último verso, Drake chega a mencionar o nome de algumas ex-namoradas. Assim como a faixa anterior, “With You” relembra de um relacionamento que teve com uma ex-namorada. PARTYNEXTDOOR o auxilia de forma muito cativante, mas enquanto Jeremih também é utilizado como recurso, ele não recebe créditos no título da música. Sua atmosfera noturna – criada em cima de sintetizadores, tambores, palmas e estalar de dedos – foi produzida por Nineteen85 e Murda Beatz. O refrão é bastante simples e fala sobre a vontade de passar mais tempo com a namorada: “É sobre nós agora, menina, onde você está indo? / Eu estou com você”. Em seguida, “Faithful” abre com uma ligeira amostra vocal de Amber Rose antes de apresentar versos do falecido Pimp C – o dvsn formado por Daniel Daley e Nineteen8 também aparece na canção. “A caminho do estúdio, então tire as roupas / Vamos fazer as coisas que dizemos por mensagem”, Drake diz no segundo verso. Mais uma vez, ele rima de forma milenar sobre uma determinada garota. “Faithful” mistura a dinâmica dos artistas com uma produção de R&B reminiscente da década de 90.

Todos os três trazem seus respectivos estilos para a música, dando-lhe uma sensação refrescante e agradável. “Still Here” é um número borbulhante e estático onde Drake recita continuamente. A batida poderia facilmente fazer parte da mixtape “What a Time to Be Alive” (2015) – dessa vez seu tom está áspero e caminha ao lado de batidas de trap. Uma música poderosa enfatizada pelo ótimo fluxo e queda da batida. “Controlla” tem tudo para se tornar outro hit, caso seja lançada como single – ela está conseguindo audiência nas rádios e serviços de streaming antes mesmo de obter qualquer divulgação. Não é para menos, visto que é uma música cativante e radio-friendly. Onze pessoas possuem créditos na escrita, mas a produção é extremamente decente. Um dancehall arejado que nos remete às batidas de “Hotline Bling”. Drake canta com um sotaque convincente enquanto faz uso do sample de “Tear Off Mi Garment” do jamaicano Beenie Man. O smash hit “One Dance”, com vocais do nigeriano Wizkid e da britânica Kyla, aparece em seguida. Ela foi produzida por Nineteen85 e DJ Maphorisa, e possui amostras de “Do You Mind?” (Crazy Cousinz Remix) da Kyla – uma forte candidata para posto de melhor música do “Views”. “One Dance” possui fortes vibrações de dancehall e atraentes amostras vocais. Da mesma forma, contém batidas de estilo caribenho semelhante a “Work” – sua colaboração com a Rihanna. Apesar da melodia ser um pouco diferente do habitual, seu tom emocional nos remete ao “Thank Me Late” (2010).

A fusão de afrobeat, encomendada por Wizkid, com o dancehall, torna-se um pouco repetitiva ao longo de sua duração. Entretanto, dificilmente você encontra alguma falha nesta canção. Ela começa com um instrumental cativante com forte apoio do piano. Em seguida, é substituído por batidas de tambor e múrmuros do Drake – a batida de afrobeat é incrivelmente contagiante e estelar. O retrabalho das amostras vocais da Kyla em “Do You Mind?”, por sua vez, são incríveis e se encaixam perfeitamente à música. Em “Grammys”, Drake rima de forma dura ao lado do seu parceiro Future. A excelente batida, fornecida por Southside, Cardo e 40, foi utilizada anteriormente por eles na mixtape “What a Time to Be Alive” (2015). É uma das poucas faixas onde ele não fala sobre alguma garota. Drake já ganhou um Grammy Award, mas Future se quer foi indicado em alguma categoria da premiação. Nesta música, eles demonstram confiança e deixam bem claro que não é necessário ganhar algum prêmio para serem bem sucedidos no hip-hop. “Childs Play” é puro entretenimento e marcha através do baixo e da percussão. Produzida por 40 e Metro Boomin, ela mostra Drake em seu estado mais sincero. “Por que você tem que brigar comigo no Cheesecake? / Você sabe que eu gosto de ir lá”, ele diz. Drake expressa alguns pensamentos errados sobre as mulheres, mas a batida, o canto e o rap são tentadores. Além disso, sob a amostra de “Rode That Dick Like a Soldier” (Ha-Sizzle), ele apresenta versos mais melódicos. “Pop Style”, com Jay-Z e Kanye West (creditados como The Throne), foi lançada como single no mesmo dia que “One Dance”.

Embora seja a primeira vez que os três aparecem juntos na mesma música, a versão do álbum conta apenas com versos do Drake. Felizmente, a intenção em omitir os vocais do Jay-Z e Kanye West não foi uma tentativa de transformar isso em uma diss-track ou shade. “Pop Style” é forte e decente, mas não é tão diferente de qualquer coisa que ele já lançou antes. E para ser honesto, a versão solo não ficou tão diferente do single, pois a contribuição do The Throne é bastante limitada. Liricamente, ele se gaba mais uma vez do seu sucesso: “Saí da escola e agora somos ridiculamente ricos, ridiculamente ricos”. O fluxo de “Pop Style” é simples e fácil, tanto que Drake se saiu muito bem sozinho. O instrumental é uma das coisas mais impressionantes, pois é surpreendentemente obscuro e ameaçador. A batida é narcótica, contundente e, igualmente ao sintetizador e baixo estridente, é provavelmente a mais escura do “Views”. “Eu sou bom demais para você / Você é negligente com meu amor”, Drake e Rihanna cantam em “Too Good”. Essa canção possui a batida mais adorável do repertório. Não é tão sexy quanto “Work”, mas, por outro lado, é hipnótica e parece uma continuação de “Take Care”. “Too Good” canaliza um dancehall leve e encantador, e mostra novamente a impressionante química dos dois. Uma música sobre como duas pessoas se sentem em relação ao namoro. Os vocais contém uma suavidade provocante, enquanto Drake se arrisca no espanhol.

No final de tudo, ainda há o sample pegajoso de “Love Yuh Bad” do cantor jamaicano Popcaan. “Summers Over Interlude” possui menos de 2 minutos de duração, mas é uma das melhores coisas do álbum. Um sedutor, dramático e glamoroso interlúdio protagonizado por Majid Al Maskati do duo Majid Jordan. Além de servir como interlúdio, apresenta guitarra elétrica e belíssimos vocais. Assim como grande parte do álbum, “Summer Over Interlude” é uma vitrine para outro artista da gravadora do Drake. “Fire & Desire”, por sua vez, é uma canção de R&B que coloca uma mulher no foco principal. “Você é uma mulher de verdade e eu gosto disso / Eu não quero brigar”, Drake canta sobre batidas melódicas e sintetizadores espessos. A produção contém sample de “I Dedicate (Part III)” da Brandy, mas não deixa de ser uma faixa filler. Isso não é surpreendente, uma vez que trata-se da décima oitava faixa do repertório. Por causa da longa duração, uma canção como essa acaba tornando-se dispensável. A faixa-título começa com a amostra amplificada de “The Question Is” do grupo The Winans. A introdução lhe dá um grande potencial, assim como o excelente rap. É uma canção grandiosa, astuta e, por vezes, dramática. A batida, fornecida por Maneesh, é refrescante e mantém um equilíbrio ao lado do conteúdo lírico. Dessa vez, Drake apresenta algumas inesperadas letras de auto-conhecimento. “Se eu fosse você eu não iria gostar de mim também”, ele admite. A última faixa é a incrivelmente cativante “Hotline Bling” – produzido por Nineteen85, possui fortes amostras de “Why Can’t We Live Together” do Timmy Thomas.

Você costumava ligar no meu celular / Tarde da noite, quando você precisava do meu amor”, ele canta inicialmente sem soar emotivo ou melodramático. Sua entrega lírica está totalmente crua, honesta e sem sucumbir em generalizações ou clichês. Mas as letras não contam uma história – é uma canção no estilo mais antigo do rapper. “Hoje em dia tudo que faço é / Me perguntar se você está se empinando para outra pessoa”, ele questiona em outro momento. Drake é um cara pensando profundamente alto e canalizando o ciúmes que sente por sua ex-namorada. Musicalmente, “Hotline Bling” é uma canção pop e R&B que cintila através de ótimas melodias, brilhantes riffs e de uma espetacular linha de baixo. Tudo somado, “Views” é um projeto sólido. Ele tem um corpo de trabalho interessante e uma intrigante variedade sonora. Drake permaneceu fiel ao seu estilo na maior parte do tempo, mesmo com algumas surpresas. Apesar do longo comprimento, ele flui sem maiores problemas e possui uma produção de alto nível. Mas liricamente não impressona. Na maior parte do tempo, o encontramos relembrando de relacionamentos do passado e refletindo sobre sua vida de sucesso. Em contrapartida, suas habilidades de cantar e fazer rap é um elemento-chave. É impressionante sua capacidade em atingir o mesmo nível emocional em ambas técnicas vocais. Isso o diferencia de sua concorrência. Embora não seja melhor que o “Take Care” (2011) e “Nothing Was the Same” (2013), é um ótimo álbum.

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Favorite Tracks:

“Feel No Ways” / “One Dance (feat. Wizkid & Kyla)” / “Hotline Bling”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.