Review: Britney Spears – Glory (2016)

Ao evitar o EDM influenciado pelo dubstep de seus dois últimos álbuns, Britney Spears conseguiu criar seu material mais ousado e maduro em anos.

Britney Spears passou grande parte de sua carreira no centro das atenções. Ela é uma estrela pop multi-platinada e uma das artistas mais bem sucedidas da música pop. Nascida em Mississipi e crescida em Louisiana, Spears começou sua carreira em 1998 com o hit “…Baby One More Time”. Muitos acontecimentos em sua carreira provam que ela é talvez a primeira grande estrela pop desde Madonna. Ela tem um certo legado na indústria e certamente é uma das cantoras mais influentes da década de 2000. Nos últimos anos, ela perdeu um pouco de espaço quando outros grandes nomes surgiram, tais como Rihanna, Katy Perry, Lady Gaga e Taylor Swift. Sua carreira também não deixou de ser instável. Apesar da boa temporada de shows em Las Vegas, seu último disco, “Britney Jean” (2013), foi um fracasso de vendas e enfrentou duras críticas de todos os lados. Felizmente, ela tem discos bons o suficiente dentro de sua discografia. O provocador “In the Zone” (2003), por exemplo, foi um marco e mostrou todo o seu potencial. O apropriadamente intitulado “Blackout” (2007), por sua vez, é muitas vezes referido como o melhor disco de sua carreira. Após lançar a fraca “Pretty Girls” com Iggy Azalea no ano passado, Britney Spears felizmente tomou um outro rumo nos trabalhos do seu nono álbum de estúdio. Intitulado “Glory”, é um dos mais confiantes e variados discos do seu catálogo. Dessa vez, ela trouxe uma abordagem mais contemporânea e madura. É exatamente como um álbum da Britney Spears deveria soar em pleno 2016.

Ele tem um som fresco, arejado e muito acessível. Com esse lançamento, Miss Spears mostrou que está mais viva do que nunca – é nada menos que o seu disco mais otimista desde o “Oops!… I Did It Again” (2000). Como costuma acontecer com álbuns de popstars, “Glory” tem uma grande equipe de produtores e co-escritores por trás. É inegável que esse produtores foram peças fundamentais, da mesma forma que Max Martin cooperou no “…Baby One More Time” (1999) e Bloodshy & Avant e Danja no “Blackout” (2007). Enquanto “Glory” tem uma notável lista de colaboradores, Justin Tranter e Julia Michaels são os responsáveis por boa parte da escrita. Felizmente, a personalidade singular da Britney Spears brilha por toda parte. Desde que sua vida privada tornou-se completamente pública, ela deixou de ser tão focada em sua carreira musical. Entretanto, dessa vez ela parece estar integralmente mais conectada. Aparentemente, ela desfrutou de todos os momentos do processo de criação desse álbum. Ela retornou com um dance-pop efervescente e algumas escassas inclinações de R&B. “Glory” sofre pela falta de coesão e não deixa de ser liricamente superficial. As letras são impessoais e a grande maioria das músicas falam sobre sexo e prazer amoroso. O grande ponto positivo é que ela consegue deslizar com facilidade pelos diferentes sub-gêneros da música pop. A apropriadamente intitulada “Invitation” abre o álbum – um convite sutil onde ela parece confortável e sensual.

“Eu só preciso que você confie em mim / Que você pode enxergar melhor de olhos fechados”, ela canta. O electropop “Do You Wanna Come Over?” soa como um clássico da Britney Spears logo na primeira escuta. Essa canção tem uma confiança que faltou no álbum anterior. É uma clara ode ao sexo que destaca-se pelo instrumental intrigante e a vibre despreocupada. Ela praticamente retorna aos seus dias de “In the Zone” (2003), misturando sintetizadores com dedilhados de guitarras. “Make Me…”, o primeiro single do álbum, é um número incrivelmente sedutor com ritmo apertado e versos escassos. Transmite a sensação de uma balada de R&B midtempo, onde Spears exige satisfação sexual ao seu parceiro. G-Eazy não oferece rimas de alto nível, mas é bem sucedido em seu papel colaborativo. Em vez de optar por um habitual banger eletrônico como carro-chefe, Spears preferiu acalmar as coisas com um R&B bem sexy. Com riffs de guitarra simples, batidas sutis e sintetizadores ao fundo, ela inicia os trabalhos da música. Durante os versos, os vocais sussurrados são perfeitamente adequados. Mas são os vocais harmonizados e auto-sintonizados do refrão que irradiam o brilho necessário. “Eu só quero que você me faça mexer / Como se você não tivesse escolha, como se fosse seu dever / Só quero que você me levante do chão / Algo sensacional / E me faça oooh, oooh, oooh, oooh / Amor, porque você é a faísca que não apaga / Meu coração pega fogo quando você está por perto”, ela canta exigindo prazer sexual.

Em termos de inspiração, “Make Me…” não é inovadora, mas funciona perfeitamente com sua voz e sensualidade. Quando ouvi essa música pela primeira vez fiquei bastante surpreso, uma vez que não esperava algo tão cativante. O primeiro passo em falso encontrado do álbum é “Private Show”. Uma canção de R&B confusa que foi lançada anteriormente para promover sua nova fragrância. Sua entrega vocal é estranha e quase insuportável – atada com órgãos e pegada doo-wop. O escasso arranjo e os vocais completamente crus, definitivamente não atingiram o resultado desejado. Para a felicidade dos fãs, “Man on the Moon” traz o álbum de volta para a direção certa. O maior acerto dessa canção é a maravilhosa melodia. Uma faixa guiada pela mesma inocência de seus dois primeiros discos. Há uma qualidade na produção que permite a sutileza vocal se sobressair. “Eu não posso competir com as estrelas do céu / Eu sou invisível, invisível / Eu abro a janela para clarear a mente / Mas é difícil, tão difícil”, ela canta. Spears utiliza o espaço para criar uma cena onde tenta encontrar um amor perdido. Devido a carga emocional, “Man on the Moon” poderia até ser considerada uma sequela de “Lucky”. Na íntima “Just Luv Me”, Spears pede ao seu parceiro que seja paciente com ela. Co-produzida por Cashmere Cat, essa faixa tem uma produção mínima e certa carga de vulnerabilidade. Em vez de batidas explosivas e tom eufórico, ela contém sintetizadores e teclados.

A paixão pela qual ela guia os vocais sussurrados torna tudo ainda melhor. O eletro-funk “Clumsy” foi lançado inicialmente como single promocional – uma canção atrevida com grande influência eletrônica. Ela sacode o fluxo do álbum graças ao esforço instrumental cheio de sintetizadores efervescentes, efeitos sonoros, batidas desconexas e palmas. Produzida por Mattman & Robin, “Slumber Party” é uma das mais fortes candidatas para segundo single. Uma canção pop e R&B excepcionalmente cativante com sintetizadores pulsantes, palmas sincopadas e vibrações de reggae. Liricamente, Spears canta sobre sexo: “Vamos encher nossa banheira com bolhas / Você está me amando tanto que está causando problemas / Se são sete minutos no céu, duplique, triplique / Como uma festa do pijama”. Em seguida, “Just Like Me” apresenta um som acústico onde ela fala sobre a infidelidade de seu homem com uma mulher que se parece com ela. Mais uma vez, ela explora um som que lembra alguns dos trabalhos anteriores, especificamente a atitude do “Britney” (2001). Em comparação com as outras faixas, “Just Like Me” é relativamente mais simples. Inicialmente é bem crua e utiliza apenas uma guitarra acústica, mas depois emite algumas vibrações de electropop. “Love Me Down” sofre de alguns problemas no seu processo criativo, como a falta de identidade. A partir do baixo e a batida tropical subjacente, a produção e ritmo não parecem condizentes com os vocais da Britney Spears.

Em certos momentos, parece que estamos ouvindo uma típica música da Gwen Stefani. O estilo dance-pop eufórico de “Hard to Forget Ya” é mais agradável. Precedida por batidas orientais, ela possui melodias inspiradas nos anos 80 e início dos anos 90. Em certos pontos, podemos notar algumas influências da Janet Jackson e Madonna. Tudo é revestido por alguns sintetizadores e loops vocais extremamente envolventes. Tal como aconteceu em “Private Show”, os vocais de “What You Need” pegam o ouvinte desprevenido. Sua entrega é energética, mas é outra tentativa de mascarar suas falhas vocais. A canalização funk que ela tenta empregar não se encaixa com sua personalidade ou estilo musical. É uma canção mais rápida revestida por órgãos e trombetas que infelizmente deixa a desejar. “Glory” foi utilizado como oportunidade para Britney Spears experimentar algumas coisas novas. Grande parte da tracklist é incrivelmente divertida e infecciosa. É perceptível que ela se divertiu com a criação desse álbum, que acabou adicionando uma nova faísca de energia em sua carreira. Um registro que peca pela tentativa de incorporar vários estilos e personas, mas contém alguns dos seus trabalhos mais atraentes em anos. Britney Spears já resistiu a grande tribulações pessoais e profissionais. Felizmente, ela conseguiu supera-las com êxito e marcou o seu lugar na história da música. Ela está se aproximando dos 20 anos de carreira, e “Glory” é a oferta perfeita para comemorar esse feito. Afinal, It’s Britney bitch!

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Favorite Tracks:

“Make Me… (feat. G-Eazy)” / “Man On the Moon” / “Slumber Party”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.