Review: Alicia Keys – Here (2016)

Os ritmos se afastam dos seus esforços anteriores e indicam uma disposição para experimentar novos sons. Entretanto, as letras raramente trazem um senso de aventura e diminuem a força desse bom trabalho.

Alicia Keys surgiu na indústria com o álbum “Songs in A Minor” (2001), que rendeu à ela cinco Grammy Awards. Conhecida por misturar momentos de jazz com toques de neo soul e uma dose de hip-hop com o seu charmoso R&B, Alicia Keys construiu uma grande carreira. Com esse pensamento, seu sexto disco tenta transmitir um conteúdo lírico potencialmente mais consciente. Muito parecido com sua recente postura contra o uso de maquiagem, “Here” aborda questões na base. É um disco menos politicamente carregado do que o “A Seat at the Table” (2016) da Solange, mas com temas teoricamente parecidos. Não há como negar que ela parece mais confortável e confiante do que no “Girl on Fire” (2012). “Here” é uma coleção de R&B e soul construída por ritmos intensos e ligeiramente descontraídos. Ela se ramificou para explorar temas como mudança climática, direitos dos homossexuais e emponderamento feminino, tudo em consonância com sua recente imagem. Dito isto, o repertório permanece moderno enquanto explora temas socialmente conscientes. Um projeto que se encaixa no turbulento ano de 2016 e toda sua luta sócio-política. “Here” começa com um interlúdio com palavras faladas chamado “The Beginning”, onde emocionais teclas de piano apresentam a força de sua poesia. “Sou Nina Simone no parque e Harlem no escuro”, ela afirma. Esse interlúdio nos leva rapidamente para o hip-hop de “The Gospel”.  Seu marido, Swizz Beatz, emprestou seu talento para a produção desta faixa. Ela mantém as teclas de piano juntamente com um pesado tambor. Em vez de seus habituais vocais soulful, “The Gospel” opta por um fluxo confiante e rap bastante poético.

Uma forte sensação jazz e um instrumental groovy são, posteriormente, canalizados em “Pawn It All”. Uma canção motivacional que consegue permanecer cativante, mesmo falando duras verdades. Com palavras da ex-presidente do Partido das Panteras Negras, Elaine Brown, Alicia Keys prepara o ouvinte para “Kill Your Mama”. Dando um assentimento as personagens femininas, ela pede perdão às mães ao reconhecer seus sacrifícios para colocar as crianças no caminho certo. A postura fornece uma grande crueza ao repertório – Keys canta poderosamente sobre guitarras acústicas relativamente folk. Na sexta faixa estranhamente intitulada “She Don’t Really Care_1 Luv”, ela colabora com o músico Roy Ayers. Além disso, Q-Tip e Ali Shaheed Muhammad do A Tribe Called Quest também emprestam seus talentos para a escrita. Nenhuma outra faixa mostra melhor suas habilidades, lirismo e conexão com o hip-hop. O solo de xilofone e os vocais masculinos também foram adições interessantes. Lições de vida é um tema recorrente no interlúdio “Elevate”, onde Keys fala sobre educação. “Illusion of Bliss” usa todo o seu potencial vocal dentro de um ritmo poderoso. Sua produção é escassa, mas perfeita para ela mostrar seu lado soulful – algo que vimos anteriormente no “The Diary of Alicia Keys” (2003). Temos órgãos debaixo dos vocais quase torturados, além de contundentes e espaçosas batidas de tambor. Ademais, há uma polida linha de baixo e um piano carregando a canção em direção ao final. Lançada como single, “Blended Family (What You Do for Love)” possui presença do A$AP Rocky e uma vibe mais mainstream. Uma ode aos seus enteados acusticamente guiada por guitarras, baixo e tambores, que fala docemente sobre o amor não haver fronteiras.

Enquanto “Work on It” também fala sobre família, especificamente sobre o seu marido, o interlúdio “Cocoa Butter” é um trecho de uma conversa onde homens falam sobre estrias – um olhar interessante sobre a insegurança corporal. “Girl Can’t Be Herself”, por sua vez, é sobre sua decisão de renunciar a maquiagem. É bom ouvir uma artista falar sobre isso com tal propriedade, em um mundo tão rigidamente obcecado em ver as mulheres embelezadas de forma específica. “More Than We Know” exorta o ouvinte a dar um abraço na humanidade e a envolver-se. Keys tem estado num período diferente nos últimos anos e, ao se lançar em questões sociais e políticas, provou que as pessoas podem fazer algo a mais para o bem de todos. Em seguida, “Where Do We Begin Now” explora o relacionamento de pessoas do mesmo sexo. Keys percorre os sentimentos de estar apaixonada por alguém do mesmo sexo, equilibrando tudo com mensagens otimistas. É bom ver uma artista do porte da Alicia Keys assumindo tal postura positiva perante os homossexuais. A despojada e poderosa “Holy War” encerra o álbum lindamente. Uma canção onde Keys, ao lado de um violão e uma potente batida de tambor, fala sobre guerras e como os humanos ficaram entorpecidos pelas atrocidades que acontecem todos os dias no mundo. Alicia Keys está em um ponto de sua carreira onde pode fazer o que quiser. Ela juntou um som musicalmente refinado para criar um repertório que flui agradavelmente bem. Interlúdios foram interligados entre sulcos pesados e tornaram a escuta mais suave. Há elementos ásperos em seu vocais, mas a entrega comprometida e produção ficaram interessantes. Com “Here”, Alicia Keys conseguiu manter seu lugar na realeza contemporânea do R&B.

  • 65%
    SCORE - 65%
65%

Favorite Tracks:

“Illusion of Bliss” / “Blended Family (What You Do for Love) [feat. A$AP Rocky]” / “Holy War”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.