Review: YG – 4REAL 4REAL (2019)

“4REAL 4REAL” carrega alguns dos textos mais introspectivos do YG até hoje. Não restabelece YG como aquele rapper do “My Krazy Life” (2014) e “Still Brazy” (2016), mas é um registro muito melhor do que seu antecessor.

Quatro anos atrás, YG levou um tiro no quadril em Los Angeles às 1:45 da manhã. Um ano depois, ele lançou “Still Brazy” (2016), um álbum reflexivo e obcecado com a vingança. Um registro perigoso, mas ainda assim necessário. O “Stay Dangerous”, por outro lado, foi um pouco dispensável. Não havia urgência para o seu lançamento. Então “4REAL 4REAL” chega novamente após uma tragédia, desta vez, a morte do rapper e amigo Nipsey Hussle. Sentimentos de tristeza e confusão inundaram o sul de Los Angeles. YG perdeu um “irmão” e foi forçado a lidar com a nova realidade. Nesta nova jornada, o rapper encontrou um significado que vem da tristeza e do sentimento de perda. “4REAL 4REAL” achata as saliências no fluxo e estética do YG, utilizando sussurros e outras convenções raramente vistas antes. YG festeja às vezes, chora às vezes e sangra às vezes. Mas através disso, ele nunca pareceu tão comprometido com a sua jornada. Na maior parte, “4REAL 4REAL” o encontra mais eficaz do que nunca.

Ele fala sobre as dificuldades que surgem com o sucesso e as relações decorrentes disso. Ao contrário do brutal “Stay Dangerous”, ele parece menos abalado pela sombra de seus inimigos. Dessa vez, YG tenta humanizar sua persona – embora, com mais dinheiro e influência – depois de exibir seu ego inflado no disco anterior. Ele ainda gosta de se colocar no centro do palco, mas à medida que o álbum progride, o rapper passa o microfone para outros artistas convidados. “4REAL 4REAL” tem muito potencial – YG é mais esperto do que muitas pessoas lhe dão crédito. O tom é definido com “Hard Bottoms & White Socks”, que o encontra no seu momento mais suave. Ele é um cara do hip hop; ele foi feito para isso. Ouvi-lo abraçar a cultura de forma mais reservada, torna a mensagem mais arrepiante. Uma faixa inspirada pela clássica Costa Oeste com instrumental afiado, mas discreto, que o vê se tornando mais lírico e contemplativo. Sua personalidade lembra as comparações com Hussle, mas se você achou que seria um álbum mais emocional por causa disso, você estava errado. “Hard Bottoms & White Socks” é uma das melhores faixas que YG escreveu na memória recente – a batida é minimalista e o piano muito bonito. Como mencionado antes, este álbum foi dedicado à Nipsey Hussle, então “4REAL 4REAL” realmente dá a oportunidade de YG ser mais pessoal do que nunca. “Bottle Service” se encaixaria confortavelmente no “Still Brazy” (2016), graças à batida, rápido fluxo e hilários vocais femininos que tomam o lugar do refrão. Não é um número incrível, mas a melodia é bem sólida.

Liricamente, YG se vangloria de suas vantagens como celebridade sob uma batida que lembra a fusão de G-funk do citado “Still Brazy” (2016). “In the Dark” é um caso sinistro, mas DJ Mustard inseriu uma linha de baixo diferente do habitual. A música interpola o clássico “Freaks Come Out at Night” do Whodini, enquanto YG lista tudo o que ele pode fazer no escuro. As letras são um pouco ásperas, mas se você não levá-las a sério, a vibe irá capturar sua atenção. YG reconhece abertamente a escuridão que paira sobre ele; o rapper faz alusão aos incidentes em torno de Nipsey Hussle, que assim como ele, levou um tiro por razões desconhecidas, mas não teve tanta sorte de sair vivo. Ele carregou seu legado para frente, tentando provar que é o rosto do gangsta rap – promovendo o fluxo despreocupado de sua cidade natal com confiança e arrogância. Em contrapartida, YG vai ao básico com seu comportamento em “Go Loko”. Infelizmente, provoca resultados mistos com sua guitarra espanhola mal interpolada e preguiçosos trompetes mariachi. Além disso, se arrasta por muito tempo, enquanto o verso em espanhol é completamente desnecessário. “Stop Snitchin”, direcionada para 6ix9ine depois que ele foi para a cadeia -, ataca com o seu veneno saltitante. É um dos únicos momentos em que ele está alertando seus rivais a desistirem do rap. A batida é bem forte, mas, o refrão repetitivamente incompreensível, é uma tarefa árdua.

“I Was on the Block” rasga e ronca, enquanto YG fornece uma bagunça com seu refrão estranhamente maçante. O meio da música é bastante sólido – com um verso surpreendentemente decente do Valee. Mas sua presença cai por terra quando o refrão aparece novamente, depois que Boogie apresenta uma das piores características do ano; parece uma imitação do Kodak Black. Outra faixa decepcionante é “Keyshia Had a Baby”, uma vez que suas letras repreendem uma mulher por ser sexualmente livre. Em “Heart 2 Heart”, com Meek Mill, YG quase não escapa de um sussurro quando confessa a mágoa que sente quando sai com um amigo sem a mesma quantia de dinheiro que ele. A dor cai como lágrimas, e mesmo que a produção não seja lenta o suficiente para acalmá-lo, sua entrega faz com que ela engatinhe. Os versos do YG são decentes, mas um pouco chatos, enquanto Meek Mill rouba o show com suas letras socialmente conscientes. “Do Not Disturb”, com Kamaiyah e G-Eazy, anda sobre uma linha sinistra e estridente. Ela soa como uma faixa qualquer que o YG poderia ter feito dois anos atrás. Infelizmente, seu rap carece de inspiração.

Eu não tenho certeza do que criticar primeiro: a batida de piano irritantemente nítida ou o longo verso completamente estagnado da Kamaiyah. Tudo isso nos leva para um verso ridículo do G-Eazy no final da música. Eu me pergunto por que artistas de grandes gravadoras continuam pagando o G-Eazy para entregar versos tão ruins. O cara está longe de ter uma presença consistente na indústria do hip hop. “Do Yo Dance”, por outro lado, é uma peça ambientada nos anos 90 firmemente enraizada em seu ritmo nostálgico. Diversão é o nome do jogo, e YG sabe como jogar. Quando ele mergulha em assuntos mais complicados, se sai muito bem. “Do Ya Dance” parece uma sequência de “Twist My Fingaz”, embora a mixagem sofra na metade do caminho e a batida envelheça rapidamente. “Her Story” proporciona uma história suave – particularmente quando YG passa o microfone e deixa Day Sulan tomar as rédeas. Mas é tão curta que seu verso e batida não têm muita chance de se desenvolverem. Parece mais um interlúdio do que uma ideia totalmente desenvolvida. Faixas como essa estão espalhadas pelo álbum e são aquelas que lhe dão mais caráter. Com “My Last Words”, a maratona continua. Um número significativo, uma vez que YG apresenta sua última palavra ao falecido Nipsey Hussle. O álbum foi lançado em memória a ele, cuja passagem prematura teve um preço para muitos. A dor e admiração que ele tinha pelo amigo podem ser sentidas. Embora não seja o seu melhor trabalho, “4REAL 4REAL” possui músicas que ecoarão pelas ruas de Los Angeles. É um passo na direção certa depois de uma decepção como “Stay Dangerous” (2018). O registro em si é bastante otimista, mesmo quando o conteúdo é negativo. É nomeado com precisão, uma vez que é tão real e brutal. Embora a paisagem sonora não seja aventureira, é clássica da Costa Oeste dos Estados Unidos. O talento e a identidade do YG estão por toda parte. Ele finalmente transformou a autenticidade das ruas em realidade.

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    SCORE - 72%
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Favorite Tracks:

“Hard Bottoms & White Socks” / “Heart 2 Heart (feat. Meek Mill, Arin Ray & Rose Gold)” / “Her Story (feat. Day Sulan)”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.