Review: tUnE-yArDs – I can feel you creep into my private life (2018)

Lançamento: 19/01/2018
Gênero: Indie Pop, Dance Alternativo, Art Pop
Gravadora: 4AD
Produtores: Nate Brenner e Merrill Garbus.

Tune-Yards é o projeto musical de Merrill Garbus, inspirado em uma variedade eclética de sons. Ela utiliza diferentes elementos em sua música, como pedal-steel, ukelele e percussão lo-fi, além do baixo elétrico tocado por Nate Brenner. O seu disco de estreia, “Bird-Brains” (2009), foi inventivamente lo-fi e supostamente gravado usando apenas um ditafone. “I can feel you creep into my private life” é o primeiro álbum do tUnE-yArDs como um duo e o primeiro desde “Nikki Nack” (2014). Esse registro é uma exploração pessoal de Garbus de seu lugar como uma mulher branca cis-gênero num mundo patriarcal da supremacia branca. É um álbum de dance-alternativo com um conteúdo lírico projetado para provocar o ouvinte. Certamente, este disco é uma progressão natural para ela como artista, que há um bom tempo aborda questões de apropriação cultural. “I can feel you creep into my private life” é introvertido e transmite sua mensagem com mais avidez do que seu disco anterior. Ele é um exame abrasivo da sociedade moderna e um olhar introspectivo de sua própria posição como uma mulher branca.

A intensidade do conteúdo lírico politicamente carregado contrasta com o fato de que, musicalmente, é o disco mais dinâmico e dançante do tUnE-yArDs. O colaborador de longa data Nate Brenner aparece como produtor nomeado pela primeira vez nesse álbum. Inflexões de house e disco, produzidas por ele, pontuam o repertório na forma de linhas de baixo, chimbais, sintetizadores e padrões de bateria. O conteúdo lírico delicado também oferece críticas do feminismo branco, privatização de recursos naturais e o impacto do aquecimento global. Desde 2009, Merrill Garbus usou seu apelido de tUnE-yArDs para criar uma merecida reputação. Sendo uma americana branca fazendo música com ritmos africanos e caribenhos, Garbus estava fadada a criar controvérsias, especialmente com a crescente proeminência do ativismo social na década de 2010. Uma das coisas mais incríveis da música é como ela nos desafia a pensar de maneira diferente. Merrill Garbus aceitou este desafio neste LP que, certamente, não é fácil de escutar. Já se foram os dias em que ela usava seu ukelele e pedal-steel para criar um som folk-pop texturizado. Agora, tUnE-yArDs abrange sons de dance e disco ancorados por batidas de quatro compassos.

A eficácia do registro é principalmente devido à variedade textural das músicas, combinada com a enorme personalidade de Garbus. Ela escreveu bastante sobre sua posição social neste álbum, tanto focada em sua vulnerabilidade como mulher aos olhos do público, como também em sua auto-consciência sobre seu privilégio branco. A primeira música do álbum, “Heart Attack”, possui uma produção caótica em camadas e energia frenética. Aqui, Garbus praticamente implora por compreensão: “Me dando um ataque cardíaco / Nós pulamos tão alto, mas caímos de volta / Me dando um ataque cardíaco / Não deixe-me perder a minha alma”. Dominada pelo piano, baixo e arranjo intrigante, esta faixa possui um refrão bem alucinante. De alguma forma, Merrill Garbus e Nate Brenner mantém a coesão no meio da desordem. Nos versos de “Coast to Coast” eles fazem referências a falta de cuidado com o meio ambiente. Há uma série de batidas repetitivas juntamente com uma guitarra elétrica trêmula, ritmo arrebatador e harmonias que flutuam ao fundo. “Eu sou excepcional / Eu sou uma exceção”, Garbus canta em “Now As Then”Dessa vez, um ritmo irregular e declarações intrigantes são colocadas sob uma melodia nebulosa.

Em seguida, há uma energia harmoniosa e amostras vocais manipuladas que acompanham a batida de “Honestly”. É uma canção que se apoia fortemente nos anos 80, onde a simplicidade do ritmo é contrabalançada pelas letras. Os pesados vocais de Garbus competem contra o bumbo e linha de baixo, enquanto a música condena a violência. Mais tarde, a cantora confronta sua própria apropriação cultural e privilégio na faixa “Colonizer”. Embora pareça problemática, esta música soa como um relato sincero e bem-intencionado da culpa branca e luta pessoal de Garbus. “Eu uso minha voz de mulher branca para interpretar minhas viagens com homens africanos / Eu ligo minha voz de mulher branca para contextualizar atos de minhas amigas brancas”, ela canta. Mas apesar da controvérsia, os acordes de piano são marcantes e a batida inspirada pelo house bem envolvente. Sonoramente, a música mais impactante é “Look at Your Hands”, uma peça rítmica conduzida por uma explosiva percussão. As batidas extravagantes e os vocais contagiantes agarram sua atenção imediatamente. Posteriormente, “Home” alterna entre o piano, baixo, tambores e uma espécie de canto gregoriano.

O cenário só muda quando ela canta: “Eu vim para descer, mas você não está contando minha história”. O amor próprio e alusões pessoais são claras em faixas como “Hammer”, onde ela usa orgulhosamente a identidade de alguém como sua própria pessoa. Sob a percussão e palmas, Garbus canta: “O medo não sai das minhas costas”. O coro alegre é a principal atração da música. “Who Are You”, por sua vez, apresenta sintetizadores de longo alcance e um épico solo de saxofone. A experimentação aparece em abundância, ao passo que as complexas linhas de baixo de Nate Brenner adicionam um poder de condução. “Free” é uma reafirmação da liberdade e autonomia, que funde uma paisagem sonora distorcida com a voz de Merrill Garbus. “I can feel you creep into my private life” é um álbum complexo e auto-consciente que serve como um testemunho da variedade tonal que definiu a carreira de tUnE-yArDs. É um registro controverso que desencadeia um discussão pensativa. Mas, embora sua experimentação sonora seja interessante, “I can feel you creep into my private life” não possui a intensa energia dos seus discos anteriores. Tematicamente, é um álbum ambicioso, mas a maior parte dos sons soam um pouco fora de sintonia.

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Favorite Tracks:

“Heart Attack” / “Look at Your Hands” / “Who Are You”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.