Review: Travi$ Scott – ASTROWORLD (2018)

Lançamento: 03/08/2018
Gênero: Hip hop
Gravadora: Cactus Jack / Epic Records / Grand Hustle Records
Produtores: Mike Dean, Travis Scott, 30 Roc, Allen Ritter, B Wheezy, B Korn, Cardo, Cubeatz, David Stromberg, Felix Leone, FKi 1st, Frank Dukes, Gezin 808 Mafia, Hit-Boy, J Beatzz, John Mayer, June James, London Cyr, Matty, Murda Beatz, Nineteen85, OZ, Ramy, River Tiber, Rogét Chahayed, Sevn Thomas, Sonny Digital, Tame Impala, Tay Keith, Thundercat, Tim Suby, Turbo, Vegyn, Wallis Lane e WondaGurl.

“ASTROWORLD” fornece uma hora de músicas ambiciosas, performances vocais auto-sintonizadas, instrumentais díspares e letras esotéricas. É um parque temático digno de ser visitado e apreciado.

Após lançar o seu segundo álbum de estúdio, “Birds in the Trap Cante McKnight” (2016), e o projeto colaborativo com o Quavo, “Huncho Jack, Jack Huncho” (2017), Travi$ Scott finalmente lançou o seu tão aguardado “ASTROWORLD”. Ele é um dos mais esquisitos e criativos beatmakers, e um desses caras que não tem medo de empurrar os limites criativos. Scott tornou-se mais proeminente ao contribuir com a base ameaçadora do “Yeezus” (2013) do Kanye West. Dito isto, o seu altamente antecipado terceiro álbum de estúdio contém um espírito experimental e é incrivelmente psicodélico, imprevisível e aventureiro. Grandes músicos de hip-hop sabem se cercar, e os convidados do Travi$ Scott souberam complementar espetacularmente sua visão. Astroworld foi um parque temático de Houston, Texas, que foi demolido em 2005. E é assim que o álbum se sente; uma viagem encantada no coração de algo que não existe mais. É difícil de entender quando explicado assim, mas se você já foi a um parque de diversões e experimentou as fortes emoções que provem dele, você instantaneamente captará a vibração do “ASTROWORLD”. É um álbum melancólico, mas não melodramático. Psicodélico sem ser exagerado. Um exercício de criatividade e precisão, que qualquer um pode gostar. O hype em torno deste álbum não coube dentro das linhas do estado do Texas.

Travi$ Scott já se tornou um nome familiar, no entanto, é sua mistura única de hip-hop, trap e pop que o colocou onde ele está hoje. E enquanto ele não é um traficante de drogas ou gangster, suas letras abrem caminho para uma acessibilidade prolongada. O repertório possui dezessete faixas e a presença de alguns dos maiores artistas da indústria. É um projeto que mostra o quão diversificado e talentoso Travi$ Scott pode ser. E apesar de oferecer sons diferentes, o ouvinte é capaz de apreciar tudo o que o álbum oferece. À primeira vista nenhuma música possui convidados especiais. Mas, ao não adicionar créditos para os convidados nos títulos das músicas, Scott surpreendeu os ouvintes. Ele recrutou Kid Cudi, Frank Ocean, Drake, The Weeknd, James Blake, Swae Lee, Gunna, Nav, 21 Savage, Quavo, Takeoff, Juice WRLD e Sheck Wes para o “ASTROWORLD”. Colaborações com Kevin Parker, Thundercat e John Mayer tentam dobrar fronteiras musicais além de suas flexibilidades habituais. Sonoramente, é um crescimento previsível para o rapper – alongando-se no vazio entre diferentes gêneros para levar seu som e sua imagem para frente. Como não estamos acostumados com a alta musicalidade do trap, o “ASTROWORLD” parece estranho em um primeiro momento e um pouco forçado em determinados lugares. Mas eu te garanto, é um álbum surpreendente! O repertório começa com “STARGAZING”, uma faixa atmosférica que rapidamente define um tom psicodélico.

Construída sob um carrossel de notas cintilantes, essa canção atinge o pico quando Scott grita: “Eu estava sempre no topo / Então essa garota entrou e salvou minha vida”. Eu só posso deduzir que essa garota seja Kylie Jenner salvando sua vida das drogas. A sensação psicodélica casou perfeitamente com seu estado induzido por efeitos ilícitos. Sua voz se digitaliza e inclina-se para momentos melodramáticos que poderiam ser descritos como futurista. Aqui, o rapper reúne sons imprevisíveis e perfeitas combinações. Liricamente, esta canção abraça o sucesso e permite que ele derrame os horrores de sua educação. “Olhe para o céu, de joelhos para cima / Do nada, você veio aqui para salvar a noite”, ele diz. “STARGAZING” encapsula a dinâmica do “ASTROWORLD”, antes que a batida reinicie como algo completamente diferente. Os arpejos de sintetizador crescem em determinados pontos e fornecem mais complexidade. É uma faixa tão experimental quanto cativante, uma mistura muito difícil de se fazer. Mas, surpreendentemente, ele fez isso e criou uma peça psicodélica cheia de batidas dilacerantes. Aqui, Scott realmente leva o ouvinte para um falso estado de euforia. “Psicodélicos me deixam louco”, ele geme misteriosamente. Tudo soa verdadeiro num álbum batizado com o nome de um parque de diversões de sua cidade natal. Em “STARGAZING”, os portões do parque estão abertos, mas são substituído por uma nova energia quando a orquestra desaparece e é substituída por um instrumental mais rápido e otimista.

Basicamente, esta música possui dois movimentos musicais distintos. O primeiro apresenta graves batidas e mergulha na música psicodélica. Notavelmente, o rapper está encharcado por auto-tune e outros efeitos vocais. Enquanto isso, a segunda parte é mais urgente, contundente e orientada para o trap. Scott equilibra as duas idéias e reforça cada uma com a inclusão de diferentes elementos. As duas partes da música são separadas pelo som de uma montanha-russa, conforme a batida muda completamente para algo mais expressivo e energético. É a partir desse momento que ele explica a inspiração por trás do título do álbum. Liricamente e em termos de fluxo, Scott está pronto para os seus conceitos habituais. “STARGAZING” mostra o rapper na sua verdadeira forma, sob sintetizadores assustadores, um baixo pulsante e amostras vocais cortantes. Outro momento incrível acontece durante a participação do Frank Ocean em “CAROUSEL”. Seu canto distorcido e emocional se agarra em uma vibração psicodélica e a transforma num processo emancipador. É uma música altamente criativa que ainda traz sample de “The New Style” do Beastie Boys. Inicialmente lenta, “SICKO MODE” fornece batidas esmagadoras que acertam o ouvinte com suas súbitas mudanças. Inesperadamente, a faixa contém vocais do Drake, que participa de um refrão bem discreto. Seu fluxo confiante, colocado sobre sintetizadores assombrosos, provoca um momento magistral.

Ele cava de forma intransigente e improvisa através de um órgão cinematográfico. Posteriormente, Drizzy retorna com um fluxo semelhante ao de “Nonstop”, faixa do seu novo álbum. No entanto, o instrumental aqui é muito mais completo e dinâmico. Ele entrega um gancho assassino, seguido por um verso bem apertado e energético. Depois de introduzir a música, Drake dá espaço para Travi$ Scott mudar de marcha. “SICKO MODE” não tem apenas uma, mas três reviravoltas musicais. Sua composição mostra o quanto Scott é interessante e subestimado. Portanto, este single é como uma fusão de três músicas diferentes. Uma peça desconcertante, onde Scott surge com toda sua glória. No papel, nada disso deveria funcionar, com suas várias mudanças, interpolações e ad-libs, mas tudo funciona perfeitamente. Ouvir sua batida em vários momentos diferentes é hipnótico e enlouquecedor. O trabalho de produção estelar é combinado com dois versos do Drake e vocais do Swae Lee do Rae Sremmurd. Tudo é misturado com a intenção de causar uma experiência auditiva impetuosa e implacável. O canto do Swae Lee realmente adiciona um toque agradável à faixa, enquanto a troca de batida é muito bem executada. Essa transição de batidas é uma ótima tática para o Travi$ Scott, uma vez que sua voz profunda e levemente melódica consegue encontrar um fluxo cativante na seção intermediária.

“SICKO MODE” é de fato um destaque que apresenta três partes distintas marcadas por uma produção distorcida, poderosas batidas e chimbais centrais de Tay Keith. O restante da faixa é uma verdadeira montanha-russa emocional. A principal diferença entre os álbuns anteriores e o “ASTROWORLD”, é que Scott não está nas sombras de suas feições, mas no centro do palco. Ao combinar dois versos do Drake com uma melodia do Swae Lee, ele criou uma experiência musical eletrizante. Swae Lee faz uma segunda aparição em “R.I.P. SCREW”, uma canção exuberante e luxuosa que menciona o falecido Pimp C. Regada por efeitos vocais, sintetizadores e um refrão selvagem, trata-se de outra música muito boa. O poder de estrela prevalece em “STOP TRYING TO BE GOD”, que conta com as participações de Kid Cudi, James Blake, BJ the Chicago Kid e Philip Bailey (vocalista da banda Earth, Wind & Fire). Além disso, Stevie Wonder participa da harmonia ao tocar um curioso solo de gaita. Dessa vez, Travi$ Scott combinou vocais mais baixos com uma instrumentação ao vivo e uma batida espaçada. O rapper é totalmente contra o status de Deus na comunidade do hip-hop. Mas antes que você possa pensar sobre o que suas palavras significam e para quem elas são direcionadas, você ficará impressionado com a presença do Stevie Wonder e os falsetes do talentoso James Blake. O rapper Juice WRLD aparece em “NO BYSTANDERS”, um banger cativante que entra em contraste com a prudência da faixa anterior.

Sheck Wes também é um destaque, incluindo o refrão assertivo e as ad-libs repetitivas. Mas embora não seja uma música profunda, é um bom exemplo da proeza e curadoria do Travi$ Scott. A breve “SKELETONS” expande os recursos – incluindo os vocais de Pharrell Williams, Tame Impala e The Weekend. Scott possui apenas um verso, mas ele faz o tempo valer a pena com seu discurso sexual. Depois da pequena contribuição do The Weeknd nesta faixa, ele retorna de forma proeminente em “WAKE UP”. O cantor canadense apresenta o refrão sexualizado e, mais tarde, fica responsável pelo segundo verso. Enquanto Travi$ Scott oferece um verso respeitável, bem como o refrão, é o Abel que se torna a atração principal. Os dois estão namorando, respectivamente, Kylie Jenner e Bella Hadid, então o tema sexual e apaixonado resulta em algo muito excitante. Depois de tantas atrações, Travi$ Scott possui um momento solo em “5% TINT”. Liderada pela percussão e o piano, esta música possui uma produção incrível. Enquanto Travi$ Scott é um rapper durão, ele também sabe exibir seu lado mais excêntrico e sensível. Não é novidade que a suave “NC-17” é sexualmente carregada – “Eu e minha puta, eu juro que gostamos do mesmo sexo”. 21 Savage aparece e serve como um complemento perfeito para esta peça. É outro banger certificado!

Depois de “NC-17”, o álbum perde um pouco do seu brilho e dinâmica. Tanto “ASTROTHUNDER” quanto “YOSEMITE” mantém as coisas relativamente curtas e sem graça. Da mesma forma, “WHO? WHAT!” não é tão diferente de qualquer outra coisa no álbum, embora possua a presença de Quavo e Takeoff. Enquanto Don Toliver aparece na boring “CAN’T SAY” – apresentando um dos refrões e o segundo verso – “HOUSTONFORNICATION” coloca o foco novamente em Houston, cidade natal do Travi$ Scott. O primeiro single, “BUTTERFLY EFFECT”, lançado antecipadamente em maio de 2017, por outro lado, é descontraído e inofensivo. Scott se beneficia de um fluxo sólido, gancho cativante e a ótima produção do Murda Beatz. Felizmente “COFFEE BEAN” é uma ótima maneira de encerrar o registro. Ela oferece um som tradicional e permite que o rapper brilhe como um artista inteligente. Os tambores mais tradicionais tomam o centro do palco, permitindo que as introspecções e as cordas do Nineteen85 criem um bom fechamento. Em termos de produção, o “ASTROWORLD” é praticamente impecável. Ele é formado por paisagens sonoras únicas e capta um som ambicioso e igualmente jovial. É indiscutivelmente o melhor álbum do Travi$ Scott até o momento. Pessoalmente, é o primeiro LP dele que eu realmente fiquei entusiasmado para ouvir. Não há nada de ruim ou escandaloso em seu interior, mas se você preferir, escute as peças centrais: “STARGAZING” e “SICKO MODE”.

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    SCORE - 78%
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Favorite Tracks:

“STARGAZING” / “SICKO MODE” / “STOP TRYING TO BE GOD”.

São Paulo, 22 anos, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas e séries. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.