Review: The Lumineers – III (2019)

“III” se move em um ritmo deliberado, quase sombrio, que força o ouvinte a prestar atenção. Embora seja necessário esforço para encontrar a banda em seus próprios termos, é fácil admirar a ambição por trás do projeto. Em outras palavras, é um álbum feito de maneira inteligente e apaixonada.

Já se passaram sete anos desde que The Lumineers surgiu pela primeira vez com “Ho Hey”. Para o seu novo álbum, simplesmente intitulado “III”, a banda segue por uma fórmula mais abstrata – o som é consistentemente mais cru, cheio de mágoa e, às vezes, de esperança. Enquanto as músicas desenrolam, raramente ouvimos mais do que uma voz, um violão e um piano. Bateria e baixo ocasionalmente se inclinam para o quadro, mas apenas da maneira que uma nuvem atravessa um céu claro. O título se refere a narrativa, contada através de três atos diferentes, além de ser o seu terceiro lançamento de estúdio. Os bailarinos folk de Denver, Colorado, percorrem um caminho mais sombrio, detalhando os efeitos traiçoeiros do alcoolismo e do vício em drogas. É de longe a representação mais completa e conceitual da banda. O disco é acompanhado por um projeto cinematográfico que se concentra em um personagem principal das três gerações da família fictícia Sparks. Liricamente, o repertório explora a destruição do vício. À medida que os capítulos se desdobram o ouvinte aprende sobre suas lutas contra a dependência química.

Enquanto “Cleopatra” (2016) lidou com temas através da re-imaginação de uma peça anterior de Shakespeare, “III” segue uma tragédia realista pelas lentes de um ente querido dedicado e dos próprios viciados. O primeiro capítulo começa com Gloria Sparks, uma personagem inspirada em um membro da família de Schultz. “Gloria é uma viciada e nenhuma quantidade de amor ou recursos poderia salvá-la. Ela está sem teto há mais de um ano. Amar um viciado é como estar entre as ondas quebrando, tentando dobrar a vontade do mar”, ele explicou. Os capítulos subsequentes focam no neto de Gloria, Junior Sparks (capítulo II) e, finalmente, a história angustiante de seu filho Jimmy Sparks (capítulo III), que o vê fora de controle devido à dependência de drogas, abuso de álcool e violência após a morte de sua esposa.

“III” é teoricamente diferentes dos seus discos anteriores, porque no final do ano passado, a violoncelista Neyla Pekarek deixou o grupo. Consequentemente, a banda foi levemente forçada a se afastar do seu renomado som. Desde então, eles recrutaram um violinista e um baixista e encontraram um estilo mais autêntico. O capítulo de Gloria Sparks começa com “Donna”, que tem uma melodia semelhante a uma canção de ninar. “Segure minha mão agora, é hora de ir para a cama, é tarde demais”, Schultz canta. Enquanto os personagens são fictícios, as histórias são dolorosamente pessoais. Pela primeira vez na carreira do grupo, os vocais fortemente reverenciados de Wesley Schultz carregam um peso profético às batidas acústicas e teclas de piano. Suas composições finalmente correspondem às suas ambições. Isso é principalmente aparente na alegórica “Leader of the Landslide” – um cataclismo em duas partes que ilustra uma mudança de atitude da perspectiva do ente querido cuidando do viciado. O conto agonizante começa com um lembrete sutil sobre as provações e tribulações que cada sujeito enfrenta. “Está do seu lado há anos / Você nunca poderia amar sem chorar”, ele canta.

Uma súbita mudança de urgência envolve a segunda metade, onde Schultz mostra repentinamente uma falta de paciência com a pessoa que ele aguarda há anos – ilustrando uma situação difícil para todos os envolvidos. “A única coisa que sei é que estamos muito profundos / E talvez quando ela estiver morta, eu vou dormir um pouco”, ele diz. “Leader of the Landslide” cobre uma árdua experiência. Com letras pesadas e uma batida suave que cresce à medida que avança, temos um vislumbre de como Gloria afetou Jimmy, que por sua vez está afetando Junior. Schultz explicou que esta música foi escrita para quem conhece alguém que lutou contra o vício. Assim como “Cleopatra” (2016), “III” foi acompanhado por um curta-metragem que mostra o isolamento que cada personagem enfrentou ao lidar com o alcoolismo e a dependência de drogas.

Por causa da tendência de complicar demais certos aspectos da história, algumas faixas são menos memoráveis do que outras. As letras de “Gloria” mergulham fundo na abordagem problemática de uma personagem para criar seu filho. Embora angustiante, o retrato da banda de alguém passando por essas lutas não traz muitas nuances. O uso de nomes como ponto focal de uma música se tornou demasiadamente comum para o trio – no último álbum, tivemos faixas como “Ophelia”, “Cleopatra” e “Angela”. Felizmente, a composição preguiçosa é menos aparente dessa vez. “Life in the City” tem um som mais otimista, existe até uma referência atrevida a “Cleopatra”, enquanto a música analisa as experiências que Gloria teve na cidade de Nova York. “Eu sabia desse sonho, ele morreu / Linha JMZ, Myrtle e Broadway / Mas eu ficaria contente de ver Manhattan ao menos uma vez”, ele canta. O segundo capítulo pertence a Junior Sparks, o neto de Gloria. “It Wasn’t Easy to Be Happy for You” fala sobre uma separação entre Junior e sua namorada quando ela o deixa por outra pessoa. Isso reflete o que acontece entre o pai de Junior, Jimmy, e sua mãe, Bonnie. A namorada de Junior está cansada de seus modos destrutivos, assim como Bonnie e Jimmy.

A história deles continua em “Left for Denver” – Bonnie deixa Jimmy por ser alcoólatra como sua mãe, e se muda para Denver para começar uma nova vida com seu novo namorado. Junior começa a se rebelar, o que o leva a ter todo tipo de problema. Schultz canta com vocais melancólicos sobre um lar desfeito: “Você se deparou com um pouco de frio / E foi tudo, tudo estava desmoronando”. O capítulo III é a história do filho de Gloria e do pai de Junior, Jimmy Sparks. Dentro das quatro músicas, uma das quais é um instrumental intitulado “April”, ouvimos Jimmy sair de controle com seu vício em drogas e álcool, bem como a violência após a morte de sua esposa. Há um som acústico triste durante “My Cell”, que nos mostra onde ele está contemplando sua vida enquanto seu casamento está desmoronando. Assim como “Left for Denver”, é um número íntimo e agridoce. Os delicados arabescos do piano detalham o quadro, ao passo que a guitarra caminha propositalmente, e os vocais vão do sussurro conspiratório ao choro. “Apaixonar-se é maravilhoso / Apaixonar-se é tão sozinho / Meu celular / Minha linda e pequena cela”, Schultz canta aqui. Enquanto o álbum inteiro está cheio de letras emocionantes e histórias realistas, o mais angustiante é “Jimmy Sparks”. As letras falam de um momento que ele está desesperado por dinheiro. As palavras criam a cena para você com imagens vívidas e, ao chegar especificamente no quarto verso, se torna completamente comovente.

A história de Jimmy termina com “Salt and the Sea”, um final bem-arredondado, mas triste para a família Sparks. Para mim, o refrão é facilmente a parte mais emocional, e a música apenas fornece um sentimento estranho. Como os outros dois projetos do The Lumineers, “III” leva você a uma bela jornada, mesmo que a história não tenha um final feliz. Às vezes, a arte é melhor assim. Tornar em arte algo tão doloroso, como assistir alguém próximo a você combater o alcoolismo, é difícil. “III” realmente capta essa dor e luta de uma maneira empática e realista ao mesmo tempo. Misturando seu amado folk com o rock, a banda criou outro álbum de qualidade.

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Favorite Tracks:

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São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.