Review: The Decemberists – I’ll Be Your Girl

Lançamento: 16/03/2018
Gênero: Indie Rock, Folk, Synthpop
Gravadora: Capitol Records / Rough Trade Records
Produtor: John Congleton.

Ao lado de muitos sintetizadores e uma energia extra, o mais recente álbum da banda The Decemberists assume várias direções, mas sem se comprometer com nenhuma delas.

The Decemberists foi uma personificação inicial do folk e indie-rock que tornou-se popular nos últimos dez anos. Eles sempre foram capazes de manter uma vantagem sobre a maioria dos sons semelhantes que alcançaram o sucesso. E, por causa da inteligência lírica de Colin Meloy, se sobressaiu ainda mais. Entretanto, seu último álbum, “What a Terrible World, What a Beautiful World” (2015), foi o primeiro momento na carreira da banda que as coisas ficaram previsíveis. Desde então, Meloy admitiu que se viu “fazendo escolhas familiares” e que queria que o grupo experimentasse novos sons. Portanto, o seu oitavo álbum de estúdio, chamado “I’ll Be Your Girl”, representa uma sacudida no estilo da banda. Inesperadamente, The Decemberists mudou de um grupo contador de histórias folk para um ato de new-wave liderado por sintetizadores. Mas nada é terrivelmente revolucionário em “I’ll Be Your Girl”. O assunto e os temas são apresentados ao lado de um escopo sonicamente ambicioso, enquanto a paleta musical está sendo usada para dar vida às visões de Colin Meloy.

Demonstrando sua adoração por bandas como New Order e R.E.M., The Decemberists apresentou um novo território sonoro. Eles realmente estão tentando algo completamente novo. Antes do lançamento do álbum, foi falado na imprensa que a banda tinha saído da rotina para quebrar seu próprio molde. Em partes, isso realmente aconteceu. Mas, embora existam alguns experimentos sonoros, os fãs de longa data não precisam achar que perderam sua banda favorita. Enquanto a exploração de novos métodos e sons impede que o álbum se sinta verdadeiramente coeso, ainda há clássicas músicas do The Decemberists. Porém, ironicamente, é no lirismo que encontramos o maior problema. Apesar das letras serem delicadas, as composições são insatisfatórias e pecam pela falta de emoção. O álbum foi produzido por John Congleton, que já trabalhou com St. Vincent, Future Islands e Lana Del Rey, e sua presença causou uma certa diferença. O álbum começa de maneira familiar com “Once In My Life”, que lentamente introduz uma guitarra acústica.

O alto e melancólico vocal de Meloy conduz as coisas com letras como: “Pela primeira vez na minha vida / Algo poderia dar certo”. Entretanto, posteriormente a crescente progressão da guitarra acústica dá lugar a forte batidas e sintetizadores. Em “Cutting Stone”, a banda transita inicialmente por uma vibe indie-folk. Porém, da mesma forma, essa vibe é substituída por um baixo funky e linhas de sintetizador. O baixo parece incongruente com as composições de Meloy e, consequentemente, a canção se sente um pouco desarticulada. O primeiro single, “Severed”, contém uma atmosfera ameaçadora e fortes influências do synthpop dos anos 80. As melodias recorrentes do teclado e as vozes distorcidas sustentam a música. Na primeira metade do registro, os sintetizadores de Jenny Conlee se tornam o principal motor das músicas. Em contrapartida, “Starwatcher” e “Tripping Along” conseguem tocar em temas familiares do grupo. A primeira é inspirada pelo folk irlandês, enquanto a segunda nos remete à banda Fleet Foxes.

O vibrante violão no começo de “Starwatcher” prenuncia as batidas do bumbo, ao passo que “Tripping Along” desacelera o ritmo e dá ao ouvinte algo mais intimista. Além de ser executada com um violão de aço, ela possui contornos melódicos, lindas mudanças nas teclas e agradável sensação acústica. “Your Ghost” galopa sobre batidas de estilo militar e traz à mente a energia de “The Infanta”, faixa de abertura do seu terceiro álbum de estúdio. Os vocais de fundo assombram as harmonias e o teclado elétrico soa teatral. Dessa vez, o guitarrista Chris Funk inclina-se para um solo retrô que exala um sentimento dos anos 50. O ritmo alegre exalado pelo violão de “Everything Is Awful” compartilha uma natureza acústica que os fãs conhecem bem. Aqui, Colin Meloy está humorístico e ao mesmo tempo deprimido. “Sucker’s Prayer”, por sua vez, ecoa elementos de “Don’t Let Me Down” dos Beatles, possui harmonias cintilantes e refrão cativante. Ela traz consigo um balanço preguiçoso pontuado por um ritmo de blues, piano, vocais de apoio e uma ótima guitarra elétrica.

A barulhenta “We All Die Young” rivaliza com “Everything Is Awful”, enquanto apresenta vocais distorcidos, saxofone e um coro infantil que diz continuamente: “todos nós morremos jovens”. A penúltima faixa, “Rusalka, Rusalka / Wild Rushes”, pinta uma imagem sombria num álbum em grande parte otimista e agitado. Pela primeira vez no repertório, a narrativa de Colin Meloy vem à tona. Suas letras desenrolam-se sobre lentos acordes de piano, antes de uma mudança no meio da música provocar riffs mais rígidos. “Rusalka, Rusalka / Wild Rushes” possui mais de 8 minutos de duração e serve como um retorno à forma. A faixa-título, “I’ll Be Your Girl”, nos lembra que o grupo pode encontrar a beleza na simplicidade. Uma música pop enigmática definida por um piano, que encerra as coisas com uma nota familiar. The Decemberists está longe de ser a primeira banda a tentar fundir sintetizadores com influências folk. “I’ll Be Your Girl” não é muito diferente do modelo pré-estabelecido pelo grupo, para se qualificar como uma verdadeira experimentação. Eles saíram um pouco da zona de conforto e tentaram algo novo. Entretanto, não se esforçaram o suficiente.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.