Review: The Chemical Brothers – No Geography (2019)

Lançamento: 12/04/2019
Gênero: Eletrônica
Gravadora: Virgin EMI
Produtores: Tom Rowlands e Ed Simons

Em um momento de grande insegurança cultural e global, é fácil se perder na sobrecarga sensorial do novo álbum do The Chemical Brothers.

No ano passado, grupos como The Orb, Underworld, The Prodigy e Orbital lançaram seu melhor material em anos, depois que tropeçaram um pouco durante os anos 2000. Tom Rowlands e Ed Simons, mais conhecidos pelo misterioso apelido The Chemical Brothers, foi um duo que surpreendeu durante a década de 90, com discos seminais como “Exit Planet Dust” (1995) e “Dig Your Own Hole” (1997). Mas você pode facilmente ser perdoado se você acha que a dupla perdeu um pouco de sua energia nos lançamentos que vieram após a obra-prima “Surrender” (1999). Os dois estão juntos há 30 anos e no início se chamavam The Dust Brothers. No entanto, uma banda americana com o mesmo nome forçou-os a procurar uma alternativa. A dupla de Manchester escolheu se apresentar ao mundo como The Chemical Brothers, apesar de querer deixar uma pequena lembrança em seu primeiro LP. Ao longo dos anos, vimos o duo fazendo tudo com a música. Sua relativa proximidade com o electro-house, popularmente conhecido como EDM, eclipsou sua verdadeira relação com o dance da virada do século. O seu rejuvenescimento continua e é mais evidente no seu nono álbum, “No Geography”, um caso extremamente melódico repleto de ganchos memoráveis. Aqui, The Chemical Brothers quase não se esforça para inovar, visto que mantém os sons pouco filtrados de seus primeiros álbuns. Como resultado, “No Geography” é um dos discos mais divertidos do ano. Muitos sons utilizados aqui foram arrancados diretamente do início dos anos 90.

A reveladora “Eve of Destruction”, por exemplo, define um tom pré-apocalíptico sobre as notas de sintetizador, antes de quebrar tudo com uma linha de base funky e disco. Não é a maneira mais reconfortante de começar um álbum, mas serve de base para o que está por vir. Soa mais deprimente do que realmente é, embora eles ainda produzam músicas bem dançantes. Apresentando convidados como o rapper japonês Nene e a cantora norueguesa AURORA, o duo produziu um som mais orientado para o dance, em vez do pop-orientado de seus últimos lançamentos. Porém, isso não significa que o conteúdo lírico seja leve. Usando muitas amostras, o grupo retornou ao que faz melhor. As músicas são hinos, a repetição é a chave, assim como o uso imaginativo de teclados e programação eletrônica. A partir da primeira faixa, The Chemical Brothers mistura divertidos ritmos com uma borda sonora de forte impacto e, consequentemente, não há momentos de tédio. A amplitude estilística da obra acolhe novas bases e entonações pop que fazem “Bango” aparecer sem qualquer aviso. É impossível não visualizar uma pista de dança cheia de pessoas suadas pulando e gritando. Em seguida, a faixa-título diminui as batidas e fornece singelas melodias, vozes pré-gravadas e sintetizadores emocionalmente carregados. Da maluca e glamourosa “Bango” à cativante “Got to Keep On”, a dupla consegue misturar sintetizadores eletrônicos experimentais com linhas de baixo convencionais. Com esse par estranho, surge uma justaposição de tom, já que a maioria das faixas tem algum tipo de conteúdo lírico positivo e inspirador.

No entanto, eles fornecem dramáticas batidas eletrônicas que amortecem a vibração inspiradora. Embora isso seja claramente intencional, em alguns pontos impede que faixas como “Got to Keep On” sejam divertidos hits de verão. Sua personalidade pop encoraja um último suspiro, antes que “Gravity Drops” nos dê um sopro em forma de distorção harmônica. Não é, evidentemente, uma interrupção. Baseado no synth-pop, “The Universe Sent Me” recupera o som mais electro da dupla. Ademais, a tracklist funciona a seu favor, como na fantástica “MAH” ou em “Free Yourself” (a canção mais clássica do The Chemical Brothers encontrada por aqui). A música de destaque, no entanto, é a incrível “We Got to Try” – que combina um excelente sample com um colapso eletrônico tão futurista que parece ter sido roubado do ano 3000. O registro termina com a lenta “Catch Me I Am Following”, uma canção que fornece uma conclusão bonita e natural. Enquanto algumas faixas sofrem de repetições por conta da duração, os drops monstruosos que algumas fornecem valem a compilação. Há muito o que amar em “No Geography”, provando que você não precisa inovar para soar tão fresco como sempre foi. Depois de três décadas, The Chemical Brothers parece ter se tornado muito seguro com sua própria história. Eles não estão tentando estar na vanguarda de um movimento, apenas se concentrando em fazer discos completamente sólidos. “No Geography” é reproduzido como um álbum e deve ser ouvido como tal. Todo a tracklist mantém o ouvinte entretido e mais do que interessado.

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São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.