Review: THE CARTERS – EVERYTHING IS LOVE (2018)

Lançamento: 16/06/2018
Gênero: Hip hop, Trap, R&B
Gravadora: Parkwood Entertainment / Sony Music / Roc Nation
Produtores: Beyoncé, Jay-Z, 808-Ray, Beat Butcha, Boi-1da, Cool & Dre, David Andrew Sitek, D’Mile, Smittybeatz, Derek Dixie, El Michels, Fred Ball, Ilmind, Jahaan Sweet, MeLo-X, Mike Dean, Nav, Nova Wav, Pharrell Williams e Sevn Thomas.

“EVERYTHING IS LOVE” pode não ter o impacto imediato dos últimos álbuns da Beyoncé e do Jay-Z, mas ainda funciona perfeitamente. Aqui eles parecem estar cientes da cultura que os rodeia e totalmente assentados em sua própria realidade como bilionários.

Beyoncé Knowles e Shawn Carter, o casal mais famoso da indústria, estão em uma posição única quando se trata de música. Por um lado, são opulentos e milionários – os últimos vestígios de um “sonho americano” – por outro, tornaram-se referências para a comunidade afro-americana. Por mais privilegiadas que sejam suas vidas, elas não estão imunes ao racismo. Cada um de seus movimentos é premeditado, mas em vez de recuar para a fama e a riqueza, Beyoncé e Jay-Z calculam os seus lançamentos para destacar o fato de que fazem parte dessa comunidade. “Formation”, com imagens de carros de polícia submergidos em uma enchente, foi um ponto para se analisar, enquanto “The Story of O.J.” estabeleceu uma nova barreira para a autorreflexão. “EVERYTHING IS LOVE”, o primeiro álbum colaborativo do casal, é o próximo passo de uma parceria que fica entre suas personalidades públicas e vidas privadas. Do ponto de vista narrativo, é definitivamente o terceiro ato de uma saga que começou com o “Lemonade” (2016) e passou pelo “4:44” (2017). Com este álbum, eles encerram uma fase que transitou por traição, remorso e perdão. Curiosamente, o artista listado para este álbum é chamado de THE CARTERS, ao invés de Beyoncé e Jay-Z. Enquanto musicalmente e tematicamente o álbum se encaixa perfeitamente na cronologia de sua discografia, há algo de diferente sobre este projeto. Após algumas falhas pessoais, o casal agora parece mais unido do que nunca.

Nós já sabemos que houve uma briga entre Jay-Z e sua cunhada, Solange Knowles, bem como infidelidade por parte dele. Mas mesmo depois de tantos tumultos, eles mostram que houve perdão e estão mais apaixonados. Felizmente, “EVERYTHING IS LOVE” não é apenas mais uma visão sobre a vida de um casal, porque Beyoncé e Jay-Z também exploram temas que envolvem a auto-capacitação dos negros. Como os fenômenos culturais que eles são, ambos continuam encontrando novas maneiras de fazer a indústria comer na palma de suas mãos. O álbum foi lançado de surpresa em 16 de junho de 2018, assim como o videoclipe de “APESHIT”. Durante o seu relacionamento, eles sempre mantiveram seus negócios em forma relativamente privada. Quero dizer, até 2016, quando as comportas foram abertas e alguns detalhes íntimos do casamento foram revelados. “EVERYTHING IS LOVE” é basicamente um álbum de hip-hop, onde eles estão em sua melhor forma. Se você já duvidou das habilidades da Beyoncé como uma rapper, ouça ela rimando fortemente em “APESHIT”. Na verdade, a performance da Beyoncé no álbum é muito mais forte em termos vocais. Uma batida sincopada, um arranjo inteligente e algumas harmonias vocais aparecem em “SUMMER”, a primeira canção do repertório. Embora pareça perfeita para definir um clima ensolarado na praia, a mensagem é mais sobre amor e paixão. Os Carters resolveram seu problemas e o casamento parece melhor do que nunca.

Os vocais da Beyoncé estão perfeitamente controlados, e vão de suave a robusto em questão de segundos. O pano de fundo, formado por metais, cordas e piano, é ancorado por uma batida imensamente rítmica. “Vamos fazer amor no verão, sim / Na areia, na areia da praia, faça planos”, ela canta no refrão. Musicalmente, a próxima faixa intitulada “APESHIT”, é praticamente livre de falhas. Uma faixa de hip-hop contemporânea e emponderadora, com batidas de trap incrivelmente poderosas. Produzida por Pharrell Williams, ela apresenta um fluxo impressionante da Beyoncé. Sim, ela optou por fazer rap nesta faixa e se saiu muito bem! Sonoramente, “APESHIT” tece sobre tendências do mercado, mas com grande qualidade. As letras mostram o domínio da Beyoncé e Jay-Z como pessoas e artistas. Mas além disso, também apresenta o significado de sua ascendência e força da cultura negra. As produções do Pharrell são 8 ou 80, conforme ele cria um pano de fundo perfeito para os Carters. Embora seja um single óbvio, ele é construído sobre uma base trap extraordinária e vocais adicionais do Quavo e Offset do grupo Migos. “Dê um pouco de respeito ao meu dinheiro”, Beyoncé diz, antes de se gabar de ter comprado um jato particular para o marido. A batida alucinante acompanha o casal, enquanto eles apontam o dedo para instituições culturais que esnobam artistas negros. É aqui que Jay-Z explica porque recusou a proposta para se apresentar no Super Bowl.

“Eu disse não ao Superbowl / Vocês precisam de mim, eu não preciso de vocês / Todas as noites chegamos no limite / Diga à NFL que estamos nos estádios também”, ele cospe. Mais tarde, ele muda o foco para o Grammy: “Atravessei Liverpool como a porra de um Beatle / Fumando maconha Gorilla Glue como se fosse lícito / Mande o Grammy se foder com essa merda de 8 nomeações e 0 vitórias”. Beyoncé aborda sua visão de negócios e não esconde o prazer que sente pelo estilo de vida dos Carters. No entanto, mesmo ostentando sobre a batida de alta energia e produção com fortes sintetizadores, Beyoncé não parece arrogante. Ela apenas celebra o seu sucesso e status sobre uma abordagem sonora apropriada. Enquanto Pharrell lidera a produção, os integrantes do Migos contribuem com suas ad-libs características. Em “BOSS” ambos exibem descaradamente seu status de bilionário, mas Beyoncé ainda admite que “eu tenho problemas reais como você”. Normalmente, 4 minutos sobre o quanto alguém é “rico” e “poderoso” iria te incomodar. Entretanto, de alguma forma, esta faixa consegue ser cativante e prende sua atenção. “NICE”, co-produzido por Pharrell Williams, deveria se tornar o segundo single do álbum. Inicialmente, Jay-Z parece roubar o show, mas depois Beyoncé solta a seguinte linha: “Eu sou tão foda, Jesus Cristo, eu sou melhor que o sucesso temporário, sou pra vida toda”. Ambos parecem igualmente frustrados com os outros e satisfeitos consigo mesmos.

Beyoncé e Pharrell ficaram encarregados do refrão, o passo que Jay-Z continua se referindo ao seu passado agressivo e afirmando o quanto é destemido. Como produtor, você quer que seu estilo tenha uma assinatura, e não dá para negar que o Pharrell é um exemplo disso. Mesmo se ele não fosse apresentado em “NICE”, você saberia que essa faixa tinha sido produzida por ele. “713” é uma referência ao código postal de Houston, Texas – cidade onde Beyoncé nasceu. Como a música é uma homenagem da cantora à sua cidade natal, a parte do Jay-Z detalha os primeiros dias do seu namoro e relacionamento. Eles também tocam na história do hip-hop, bem como se gabam de sua própria riqueza e sucesso. O rítmico e distinto piano é o suficiente para construir a música, enquanto o sample de “Still D.R.E.” do Dr. Dre foi colocado de forma bem cativante. A música é instantaneamente memorável por causa disso, mas também um pouco aborrecida. “FRIENDS” é uma música sólida sobre valorizar aqueles que estão ao seu redor. Na música mais longa do repertório o rap do Jay-Z realmente se destaca. O resto da música é um pouco repetitivo e se estende além do suficiente. Dessa vez, suas harmonias e raps auto-sintonizados caem sobre uma batida fria e contínua. Tão maximalista quanto qualquer coisa no “Lemonade” (2016) ou “4:44” (2017), “HEARD ABOUT US” parece uma espiada na vida do casal. Mesmo que a vida criativa dos Carters seja altamente coreografada, algo deve ser dito sobre a maneira como eles conseguiram transformar sua união em um cânone da música.

O ritmo é trazido de volta com apoio de um piano, uma batida de acompanhamento e vibrações do synth-pop dos anos 80. Em “BLACK EFFECT”, eles sentem orgulho de sua cor, fazendo referência a Malcolm X e a inúmeras outras figuras negras historicamente importantes. É outra canção de destaque, não apenas porque soa como um clássico do hip-hop do início dos anos 2000, mas também porque toca em um tema importante. A otimista “LOVEHAPPY” conclui o álbum apropriadamente, conforme Beyoncé se apodera do refrão comovente. É uma ótima música, embora as letras seja um livro aberto a ponto de quase ficar estranha em alguns momentos. Os Carters nos falam sobre o quão felizes eles estão e o quanto lutaram para chegar a este ponto. É quase como se eles fossem obrigados a justificar a existência desse álbum, e isso está longe de ser necessário. Tudo somado, este álbum é brilhantemente planejado e executado – onde assuntos pessoais e sociais são igualmente representados. É um passo importante na carreira da Beyoncé e do Jay-Z, e não podemos deixar de nos perguntar o que eles farão no futuro. “EVERYTHING IS LOVE” é quase uma renovação pública dos seus votos de casamento. Ele oferece um capítulo final otimista, após o drama conjugal do casal ter se tornado público. Beyoncé e Jay-Z continuam construindo uma parceria duradouro por meio do perdão e do compromisso. Como o título sugere, é uma declaração de amor inabalável – amor pela música, amor pela comunidade afro-americana e amor um pelo outro.

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Favorite Tracks:

“SUMMER” / “APESHIT” / “BLACK EFFECT”.

São Paulo, 22 anos, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas e séries. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.