Review: The 1975 – A Brief Inquiry into Online Relationships (2018)

Há muita coisa acontecendo aqui – um álbum ambicioso de uma banda que está constantemente crescendo. “A Brief Inquiry into Online Relationships” não é apenas imensamente divertido e emocionante, mas também necessário. 

Abanda The 1975 se formou durante seus anos de colegial e criou seu próprio nome depois de lançar quatro EPs e dois álbuns de estúdio. É difícil não pensar neles como um ato de nostalgia, principalmente levando em consideração a arrogância do rock e synth-pop dos anos 80 de músicas como “Love Me” e “Somebody Else”. Matthew Healy e a banda continuam crescendo sobre essa base, mas em seu novo álbum nos levam para um lugar muito mais escuro. Ao contrário de suas mensagens anteriores, “A Brief Inquiry into Online Relationships” nos mostra a opinião de Matty Healy sobre alguns dos maiores assuntos da sociedade: política e tecnologia. Este álbum é estranhamente eclético e uma verdadeira montanha-russa de gêneros. Começa com a tradicional trilha introdutória do 1975, depois mergulha em um mundo de pop, jazz, soul e baladas despojadas. É um disco excepcional que aborda muitos temas importantes. Também serve como uma cápsula do tempo para os jovens dessa geração. “A Brief Inquiry into Online Relationships” foi um dos lançamentos mais esperados de 2018. Em seu interior, encontramos um personagem cujo melhor amigo é a internet. A indiferença do narrador faz o público pensar que na verdade é um conto de ficção, mas há muitas pessoas por aí que criam relacionamentos com computadores. A história do álbum não está lá para criticar, mas para chamar atenção do mundo moderno cultivado pela sociedade. O registro tem uma forte mudança de humor, já que as músicas são muito mais diretas.

Embora seja bom ter canções divertidas com todos os efeitos especiais e ritmos otimistas, também é interessante fazer uma pausa e ouvir o valor de determinada letra. Quando li pela primeira vez o título, pensei que fosse explorar apenas os relacionamentos pela internet. No entanto, embora as relações online sejam exploradas, há também envolvimentos que as pessoas têm consigo mesmas e com o mundo. “A Brief Inquiry into Online Relationships” não é apenas “um dos melhores discos de 2018”, é o próprio 2018. O tema principal, portanto, parece ser a intimidade versus o isolamento do amor moderno – daí a ênfase na tecnologia. George Daniel e Matty Healy colocaram auto-tune em todo o repertório, mas para adicionar um clima eletrônico exuberante, não para ajustar os vocais como outros artistas. A voz do Matt é geralmente gritante e chorona por conta própria, mas ele a transformou em um dos melhores recursos do repertório. Ele parece ser um homem solitário, confuso e deprimido pelos padrões modernos da sociedade. Mas seu pop peculiar e letras profundas merecem ser ouvidas. Em todo o álbum, The 1975 colocou instrumentos como violão, guitarra e piano, além de linhas de baixo pesadas e o mencionado auto-tune. O auto-tune serviu para estabelecer musicalmente a indulgência da tecnologia no seu som. Se The 1975 sempre pareceu ser uma banda de synth-pop dos anos 80 inexplicavelmente colocada no século XXI, “A Brief Inquiry into Online Relationships” seria o álbum que os coloca firmemente na era moderna.

Ademais, possui um maior foco nas baladas. Ao contrário dos álbuns anteriores, ele documenta diretamente as falhas da sociedade moderna. É habilmente trabalhado e quase todas as músicas cobrem uma profunda história de luta ou amor. Healy pisa na linha entre glorificar ou romantizar o vício em drogas, enquanto se sente responsável por contar suas histórias de forma sincera. Suas observações complexas da realidade contribuem para uma escuta honesta e emocionante. No mínimo, o álbum deve ser um lembrete de que a música pop que o público mainstream pode curtir não exige uma composição estereotipada que centenas de artistas já testaram. “A Brief Inquiry into Online Relationships” ainda evidencia avanços drásticos feitos pela banda. O som altamente sintetizado espelha um dos principais temas do disco: que podemos criar múltiplas identidades de forma online e, talvez, obscurecer a realidade. “Give Yourself a Try” é centrada em torno de um distorcido riff de guitarra elétrica. A serena voz do Matt Healy fornece reflexões sobre o envelhecimento e a autoconsciência. Dado o interesse da banda pelo brilho do new-wave dos anos 80, é natural que eles se preocupem em falar da juventude perdida. A faixa começa com uma rápida batida de bateria enquanto a melodia lhe dá uma sensação futurista. A batida é estática, o baixo aparece em loop e o riff é estranhamente arranhado e repetitivo. Embora o uso da bateria eletrônica e teclado não seja novidade, The 1975 pisou num novo território.

Liricamente, o conteúdo é bastante confessional, uma vez que fala sobre complexidades e inseguranças a cerca do envelhecimento. Healy reflete sobre sua vida, saúde mental, doenças sexualmente transmissíveis, suicídio, vício em drogas e o esforço para aproveitar a juventude ao máximo. Apesar do tom entusiasmado, o lirismo é bastante sombrio e escuro. Mas não é novidade que The 1975 costuma atrair ouvintes graças às letras profundamente reflexivas e às vezes auto-depreciativas. Na primeira audição, esta música pode soar estranha aos ouvidos, especialmente por causa da agressiva progressão de acordes. Através da distorção e do ruído da guitarra elétrica, esta canção fornece alguns acenos para o pop-punk e noise-rock. Enquanto isso, “TOOTIMETOOTIMETOOTIME” vai por uma direção mais sintética e dançante, além de conter elementos de dancehall que, por volta de 2015, se tornou eventualmente um dos gêneros mais tocados no mundo. Portanto, este single vê o The 1975 experimentando confortavelmente o pop contemporâneo. É quase uma destilação de tudo que o pop moderno representa em 2018. Comparações com Drake são quase impossíveis de se evitar. Inicialmente, a canção apresenta riffs eletrônicos e, em seguida, fornece reflexões sobre a paranoia e o ciúme decorrente das redes sociais. Healy pondera sobre quantas vezes ligou para uma garota e oferece um tom defensivo ao exclamar: “Acho que precisamos rebobinar / Você manda mensagem para esse garoto às vezes / Deve ser mais que três vezes”.

É um comentário sobre a forma como as redes sociais podem interferir em relacionamentos modernos. Por trás do tom otimista, “TOOTIMETOOTIMETOOTIME” é, de certo modo, um pouco triste e melancólica. Como resultado, está longe de fazer um comentário social sério e impactante, embora simbolize a marca cativante da banda. A partir do momento em que a canção se transforma com o sintetizador e a batida tropical – sem mencionar o forte auto-tune que ameaça os vocais – o refrão se infiltra e apresenta um teclado cintilante que se aloja em seu cérebro instantaneamente. Apesar das letras vazias, possui um sulco infeccioso e parece ser aquela música que melhor se encaixa com o título do álbum. “How to Draw / Petrichor” é dividida em duas partes que criam uma euforia delicada, semelhante ao que Bon Iver fez em “22, A Million” (2016). Sob sons de computador e uma produção nebulosa, The 1975 faz alusões ao mundo online do qual o título se refere. Minha música favorita do ano, “Love It If We Made It”, é um intenso e apaixonado protesto político. Este single é praticamente uma revolta contra o atual clima cultural e político. É um despertar lírico focado no impacto que a tecnologia tem sobre a sociedade. Ela começa lentamente e só atinge o público na marca de 24 segundos. Nesse exato momento, os vocais explodem de forma pesada. “Nós estamos transando em um carro, usando heroína / Dizendo coisas controversas e que se dane isso”, Healy canta inicialmente. Uma metáfora ideal para uma música tão emotiva.

Ele está centrado em torno dos vícios da humanidade, apontando o dedo para aspectos negativos da sociedade. “Love It If We Made It” realmente se destaca por captar a tensão que permeia os tempos atuais. Inicialmente, um conjunto de acordes em staccato e notas de piano conduzem a música. O impacto da tecnologia nos relacionamentos é um tema central, mas Healy também levanta uma série de outras questões. O terceiro verso é dedicado inteiramente ao comportamento racista e xenofóbico de Donald Trump. Isso inclui sua resposta ao controverso tweet de Kanye West para o atual presidente dos Estados Unidos. Apesar da energia otimista da instrumentação, o desempenho provocativo das letras é essencial. Resumidamente, The 1975 reflete sobre a mudança do clima político, social e tecnológico. O ritmo, por sua vez, é eletrônico, minimalista e surpreendentemente elegante. Embora seja formado apenas por uma frase, o refrão brilha por causa da entrega emotiva do cantor. E em cerca de 2 minutos, a canção consegue se tornar ainda melhor. Melódicos riffs de guitarra, um baixo funky, elementos de disco e crescentes corais enfeitam a música de uma forma maravilhosa. Essa mudança de tom causa uma sensação verdadeiramente cativante. É a parte de maior destaque da música! Uma coisa que Matt Healy não deixou de lado foi sua autoconfiança, algo que pode mudar a qualquer momento. “Be My Mistake”, uma faixa predominantemente acústica, presta homenagem a essa confusão.

“Eu não deveria ter ligado / Porque não deveríamos conversar / Você me deixa duro / Mas ela me deixa fraco”, ele canta. É doce e relaxante, mas facilmente perdida em um álbum tão sombrio e explosivo. “Sincerity Is Scary” apresenta um vocal sussurrado sobre melodias de piano e linhas de trompete. Sonoramente, não está muito além de uma típica faixa do grupo. O coro gospel durante o refrão emparelhado com instrumentos de jazz e soul é uma clara reminiscência de “If I Believe You”. Naturalmente, o refrão é a melhor parte da música. No entanto, este single retrata uma mudança na narrativa lírica. Enquanto os outros três singles lançados anteriormente têm melodias predominantemente eletrônicas, “Sincerity Is Scary” apresenta uma abordagem diferente. Liderada por uma simples bateria, a música mergulha em um território de jazz experimental, ao passo que Matty Healy reflete sobre como escondemos nossos sentimentos por trás da ironia. É um comentário honesto sobre o modo como agimos nos relacionamentos, e porque sempre nos preocupamos com o que os outros pensam de nós. Um momento estranhamente vulnerável com uma produção crua e um delicioso coral gospel elevando sua emoção. A semelhança com “If I Believe You” foi bem-vinda, uma vez que trata-se de uma das melhores faixas do “I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful Yet So Unaware of It” (2016). A oitava faixa, “Like America & America Likes Me”, também tem um toque de jazz – além de batidas de hip-hop – mas permanece suave e contemplativa como “Be My Mistake”.

Se você não é um fã de auto-tune, é melhor pulá-la rapidamente. Embora possua seu som de assinatura, que geralmente funciona bem, é avassaladora demais. Devido ao forte uso do auto-tune e do modo como Matty recita as letras, Kanye West parece uma influência. Liricamente, é um hino comovente que reflete sobre a violência armada. “The Man Who Married a Robot / Love Theme” é a excentricidade que o The 1975 nunca deixou de lado. Uma faixa mais experimental, narrada através da voz do SIRI, que fala sobre um homem que se apaixonou pela internet. Isso pode não ser exatamente uma faixa que você quer ouvir no dia-a-dia, mas com certeza é inteligente – ela explora a perda da individualidade que se pode experimentar ao projetar-se através de uma computador. Ironicamente, a história narrada não é necessariamente aquela que condena a internet. Além disso, os sintetizadores não são usados ​​apenas para remover a individualidade. De fato, eles permitem que a banda se delicie com as possibilidades da voz humana, à medida que ela se torna um instrumento com novos modos de expressão. Mais uma vez, The 1975 se envolveu com sua própria ambiguidade. “It’s Not Living (If It’s Not with You)”, por sua vez, é uma explosão synth-pop e um conto sobre o vício do vocalista – com uma produção inspirada pelos anos 80. Ela é repleta de sintetizadores cintilantes, guitarras sinistras, teclados brilhantes e um refrão altamente eficaz. Além da produção, Healy parece muito convincente, mesmo que não seja absolutamente impressionante ou supere as expectativas.

Apesar da aura otimista da música, as letras são um relato de cortar o coração, não apenas por causa do amor não correspondido, mas pelo abuso de substâncias como um mecanismo de defesa. “Eu não consigo parar de suar ou controlar meus pés”, ele canta. Em assinatura ao estilo da banda, “It’s Not Living (If It’s Not with You)” prospera na justaposição de sons eufóricos e reviravoltas líricas. Enquanto isso, as guitarras funky e os sintetizadores fazem maravilhas. Pode não ser uma música perfeita, mas é agradável e claramente pessoal. No decorrer das letras, você vai notar que Healy faz algumas comparações com Danny, um viciado em drogas. O refrão é absolutamente insano e contagiante, e cada vez que eu ouço, acho os vocais mais interessantes – é como se você ouvisse pela primeira vez. Aqui, Matty Healy conseguiu fazer uma autodepreciação soar agradável. Ele uniu dores distintas, que envolvem o desgosto e o vício, parecerem um grande momento. Com certeza ele não foi o primeiro artista a comparar o uso de drogas com algum relacionamento romântico, mas fez isso de uma forma muito apaixonada. Em suma, com “It’s Not Living (If It’s Not with You)”, The 1975 lida magistralmente com o vício sobre uma cativante corrente de sintetizadores no estilo anos 80. Mais tarde, a banda analisa os altos e baixos dos relacionamentos em “Mine”, antes de apresentar uma canção sentimental chamada “I Couldn’t Be More in Love”. Um momento glorioso, com vocais doloridos e um solo de guitarra ao longo do caminho.

Na maior parte, Healy consegue evocar uma agradável sensação de solidão e nostalgia. A última faixa, “I Always Wanna Die (Sometimes)”, tem um romantismo e clima atmosférico incríveis que evocam o humor melancólico de uma balada do Coldplay. Permanecendo letárgico e predominantemente acústico, essa canção é um refrescante exame de sua forte influência dos anos 80. O cativante refrão é imensamente comovente e nos traz de volta o humor do seu último álbum. Para um projeto sobre relacionamentos online, este disco é realmente uma lufada de ar fresco. Não há nada sobre negatividade, em vez disso oferece uma chance de se conectar com outra pessoa além de uma tela de computador. Quase todas as músicas são agradáveis ​​na primeira audição, e tenho certeza que qualquer pessoa pode apreciar a precisão e o pensamento de cada uma delas. Matt Healy quis mostrar como ele vê o mundo com uma carga de autenticidade e modéstia. The 1975 tem ambições admiráveis ​​para uma banda pop e é bom saber que eles estão pavimentando seu reinado cada vez mais. Dito isso, o grupo ainda mostra que são mais do que capazes de fazer grandes músicas pop. Nenhum outra banda faz músicas pop tão doces e incrivelmente agradáveis como eles. Os britânicos queriam criar um dos registros mais importantes da década, e com “A Brief Inquiry into Online Relationships” eles podem ter conseguido. Este LP apresenta um novo lado do quarteto, que felizmente já tem outro álbum programado para 2019.

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Favorite Tracks:

“Love It If We Made It” / “It’s Not Living (If It’s Not with You)” / “I Always Wanna Die (Sometimes)”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.