Review: Taylor Swift – Lover (2019)

Em seu novo álbum, Taylor Swift está mais sensata e completamente apaixonada. Embora não seja tão coeso, “Lover” é um álbum cativante e divertido com uma grande carga de emoção e honestidade.

De certa maneira, o sétimo álbum da Taylor Swift, “Lover”, parece um retorno às composições que inicialmente nos encantaram. No entanto, para muitos, as expectativas eram baixas, considerando o apoio do fraco primeiro single. É inegável que Taylor Swift se tornou uma das compositoras mais influentes de sua geração. Seu sucesso inicial no cenário country a solidificou como uma talentosa contadora de histórias. Entretanto, ela lutou para permanecer fiel às suas raízes e começou a ser criticada por isso. Em seus 13 anos de carreira, houve inúmeros pensamentos sobre ela; e seus relacionamentos acabaram sendo narrados em suas músicas. Depois vieram os escândalos, a constante briga com outras celebridades e sua neutralidade política durante as eleições de 2016. Seu último álbum, “reputation” (2017), foi uma resposta quase direta a um telefonema ilegalmente gravado e vazado entre ela e Kanye West – seguido por uma incrível quantidade de ódio e profanação de sua imagem. Embora sua postura tenha parecido artificial, ficou claro que Taylor Swift sabia o que as pessoas diziam sobre ela. Em “Lover”, no entanto, Swift faz uma reviravolta, optando por se concentrar mais uma vez em assuntos românticos. Com suas dezoito faixas, é o álbum mais longo de sua discografia – mas um dos mais consistentes. Pode não haver os altos picos do “Red” (2012), que muitos consideram seu trabalho mais forte, ou a escrita singular do “Speak Now” (2010), mas cobre um espectro mais amplo.

Não apenas o assunto é difundido, mas o som também é diverso – desde a confortável vibração synth-pop dos anos 80 até as interações com country, pop rock, dream pop, funk, jazz e R&B. Mas para alguém tão detalhista e com total controle de sua carreira, Taylor Swift tem o estranho hábito de lançar suas piores músicas como singles. Com grande expectativa pelo single principal, “ME!” fez pouco para atender às expectativas. Com a tentativa de captar o público mais jovem, mais parece single de algum filme infantil. Após o sombrio “reputation” (2017), “Lover” nos leva à era do rosa, arco-íris, gatos e cobras que se transformam em borboletas. Felizmente, as outras faixas do álbum são realmente diferentes de “ME!”. Além disso, a produção, dirigida principalmente por Jack Antonoff e Joel Little, é mais inventiva que a do “1989” (2014) e mais natural que a do “reputation” (2017). Mas apesar de suas grandes façanhas, “Lover” tem duas falhas: é muito longo e as composições parecem lutar contra o crescimento. Para abordar o primeiro ponto, o registro chega a pouco mais de 1 hora e possui 18 faixas no total. Álbuns longos tornaram-se cada vez mais comuns na era do streaming, mas isso não significa que funcione para todos. Músicas como “Death By a Thousand Cuts” e “It’s Nice to Have a Friend” se perdem na mistura, enquanto o primeiro single não se encaixa tão bem como deveria.

Então, a principal diferença entre o “Lover”, “Red” (2012) e “Speak Now” (2010), por exemplo, é que as músicas vêm em grande parte do contentamento e satisfação no meio de um relacionamento, ao invés de descrever o seu fim. Mas Taylor Swift olha para sua juventude com humor, marcando uma mudança significativa em relação à narrativa do “Red” (2012). Essa ligeira mudança pode ser devido à ausência de Max Martin e Shellback, que anteriormente trabalharam em seus três últimos álbuns. O synth-pop “I Forgot That You Existed” abre o álbum de forma divertida e otimista – contando uma história familiar para qualquer pessoa que tenha passado por uma separação difícil. Guiada por alegres teclas de piano, ela menciona que esqueceu que você “pegou uma pipoca assim que a minha reputação começou a cair” e “riu no pátio da escola assim que eu tropecei e caí no chão”. Embora cativante, não deixa de ser uma faixa ironicamente esquecível. “Cruel Summer” é a personificação do estilo pop da Taylor Swift – ela treme com ondas de sintetizador e vocais sonhadores, detalhando o quão insuportável é estar em um relacionamento complicado. Também floresce em proezas líricas – algo que estava faltando no “reputation” (2017). “Demônios jogam os dados, anjos reviram os olhos / O que não me mata me faz te querer mais”, ela canta. Co-escrito por St. Vincent, “Cruel Summer” chega com uma das melhores pontes que ela já escreveu, capturando perfeitamente o intenso amor de um romance de verão. Poderia facilmente servir como uma sequela de outras duas canções bem-sucedidas, “Out of the Woods” e “Gateway Car”. Assim como as citadas, é uma música sombria e cinematográfica, impregnada pelo pôr-do-sol na praia e varrida pelo vento batendo nas folhas das palmeiras.

Sonoramente, é a colaboração mais óbvia do Jack Antonoff no álbum – com sua produção levemente distorcida e bateria vibrante. A faixa-título detalha como é estar em um relacionamento estável de longo prazo com alguém com quem você vê um futuro. “Lover” se tornou a faixa principal do álbum e nos leva de volta para a era country da Taylor Swift. A doce guitarra, o contundente tambor e as letras românticas fazem ela parecer certa para qualquer casamento. Nenhum álbum dela estaria completo sem algum canção sobre os haters. Ela se apoia na sarcástica “The Man”, um synth-pop que desafia aqueles que tentaram criticá-la com base em padrões sexistas. Ela age como um hino feminista que ataca a misoginia perpetuada na indústria do entretenimento contra as mulheres. Ao abordar tal comportamento hipócrita, a música é mascarada com um balanço otimista e encharcada de autoconfiança. O som eletrônico crocante, os sintetizadores sombrios e a entrega vocal parcialmente monótona são as coisas mais próximas do “reputation” (2017). “The Archer” é uma balada sombria e confessional que aborda seus demônios internos. Sua voz transita de forma melancólica e sonhadora a fim de alcançar seu amante em um ritmo lento. Um dream pop fascinante que se desvia do seu estilo usual, mas ainda causa uma ótima impressão. Em grande contraste, “I Think He Knows” nos leva de volta ao estilo alegre e divertido pelo qual ela é conhecida. É tão otimista que você realmente não se importa que ela esteja cantando sobre um garoto aparentemente perfeito (de novo). Um funk-pop com melodia arejada que anima e texturiza o repertório – poderia facilmente ter sido uma faixa bônus do “1989” (2014).

“I Think He Knows”, “Miss Americana & the Heartbreak Prince” e “Paper Rings” provocam um delicioso voo pela fantasia, evocando a emoção de se apaixonar como adolescente. “Miss Americana & the Heartbreak Prince” parece uma versão mais sombria de “You Belong with Me”, com sua atmosfera do ensino médio, líderes de torcida e clássicas características americanas. Mas Taylor Swift vira a metáfora de cabeça para baixo, e a música se transforma quase em um comentário político sobre a desilusão da América. É um romance proibido da adolescência e o despertar político da Taylor Swift. Quando você pensou que o intenso amor por Joe Alwyn não poderia ser mais bonito, “Paper Rings” prova que você está errado – há um violão sutil e elementos de country na produção. Swift está tão apaixonada por Alwyn que renunciou as coisas materialistas por ele: “Eu gosto de coisas brilhantes, mas eu me casaria com você com anéis de papel”. Uma das verdadeiras joias do álbum é “Cornelia Street” – ela faz referência a um apartamento que Taylor Swift alugou em 2016. Pode parecer um pouco triste, mas as letras contam a história de duas pessoas que ficaram juntos na Rua Cornelia. Swift desempacota toda a bagagem que juntou em sua vida pessoal e fornece o encerramento de “All Too Well”, uma música que captura um de seus mais infames desgostos amorosos.

“Cornelia Street” mescla a super especificidade que Taylor Swift sempre impregna em suas músicas com a emoção universal de ter medo de perder a pessoa que você ama. É uma canção estremecedora que lembra a estrutura lírica do “Red” (2012) – Swift afirma que nunca poderá andar novamente pela Rua Cornelia se o namoro chegar ao fim. Se você está passando por uma separação, “Death by a Thousand Cuts” é para você. Ela fala sobre todas as coisas que fazemos para consertar um coração partido. As camadas vocais são interessantes, mas para mim, recua em segundo plano entre as melhores músicas do álbum. “London Boy” começa com o ator Idris Elba falando com seu sotaque britânico infame. Aqui, Swift expressa interesse em um cara de Londres, daí o título. É uma homenagem à cidade natal do Joe Alwyn e provavelmente a faixa mais liricamente diversa; dessa vez, ela resolveu mencionar várias lugares no mesmo contexto. No outro extremo, Swift se torna o mais pessoal possível com “Soon You’ll Get Better”. Com assistência de Dixie Chicks, a música fala sobre a batalha de sua mãe contra o câncer. Ela repete a linha do título várias vezes, como se estivesse tentando fazê-la se tornar realidade. Sob violões, bandolins e violinos, ela canta letras como: “Pessoas desesperadas encontram fé, então agora eu oro pra Jesus também”. É sua música mais pessoal desde “The Best Day” – ilustrando a perspectiva de uma filha que se esforça para ser esperançosa.

Assim como a faixa anterior, “False God” é um pouco mais discreta. Embora exista especulação sobre a identidade desse “falso deus”, é uma música encantadora – independentemente de onde a inspiração veio. Um destaque final que mostra um lado diferente da Taylor Swift com seus elementos jazzísticos e saxofone. Uma névoa perfumada segue a totalidade da música, usando metáforas para comparar seu corpo com falsos deuses. As letras de “Afterglow” falam sobre brigas, reações exageradas e tudo que compõem um relacionamento ruim. Enquanto sua voz está mais pura e angelical do que nunca, a letra compartilha um sentimento familiar. Uma canção onde ela reconhece seus defeitos e se esforça para salvar o namoro. Ela não está responsabilizando seu namorado por suas inseguranças em prol de trabalhar em si mesma. “It’s Nice to Have a Friend” é um número curto com premissa simples e um flashback dos tempos mais inocentes com os amigos. Os tambores de aço e o coral provocam uma atmosfera diferente do seu estilo habitual. Em “Daylight”, ela fala sobre sair da escuridão e entrar na “luz do dia” depois de encontrar alguém que a fez querer amar novamente.

No “Love”, há muitas referências à cor, e aqui ela volta ao vermelho. O “Red” (2012) usou o vermelho para descrever o amor quando ela era mais jovem e ingênua. Mas “Daylight” mostra o crescimento que vem quando você chega aos 30 anos. Na ponte, ela canta: “Eu achava que o amor seria vermelho flamejante / Mas é dourado como a luz do dia”. Os sintetizadores reflexivos combinaram com as letras e deram uma amostra do quão apaixonada ela está. “Lover” vê Taylor Swift descompactando suas inseguranças e combatendo-as de frente. Ela quebrou as correntes que lhe foram algemadas por anos e recuperou sua liberdade e vulnerabilidade como artista. O álbum mostra que ela está completamente apaixonada – não apenas por Joe Alwyn, mas por si mesma. Dito isto, “Lover” poderia ter sido mais rigoroso e conciso, porque na verdade, ele falha em manter a atenção do ouvinte durante todo o processo. Embora examine o amor em várias formas, ele poderia ter sido reduzido de maneira mais seletiva, já que o grande número de músicas quase distrai o significado geral do repertório, em vez de elaborar sua complexidade. Em suma, Taylor Swift continua pessoal e, mais uma vez, atendeu às expectativas dos fãs.

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Favorite Tracks:

“Cruel Summer” / “Lover” / “Afterglow”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.