Review: Shawn Mendes – Shawn Mendes (2018)

No seu álbum auto-intitulado, Shawn Mendes experimenta estilos diferentes de uma forma mais madura. Mas embora seja uma boa coleção pop, também possui um grande senso de familiaridade.

Nos últimos anos, Shawn Mendes conseguiu alguns singles de sucesso, como “Stitches”, “Treat You Better” e “There’s Nothing Holdin’ Me Back”. Agora, com apenas 19 anos, ele continua em estado de crescimento lançando o seu terceiro álbum de estúdio. Sentindo-se fiel a si mesmo como artista, ele se posiciona com sua voz e tenta mostrar um lado mais íntimo no seu disco auto-intitulado. Ele é um garoto talentoso e o violão é um suporte que o diferencia de outros jovens artistas. Usar o violão em suas performances o colocou em um ângulo diferente e moldou sua imagem. Sua voz também é um instrumento rico e caloroso, fazendo com que as músicas funcionem mesmo quando a base não é tão forte. Em “Shawn Mendes”, seus vocais estão mais fortes e vulneráveis do que nunca. Desde que o cantor surgiu em 2014, como uma estrela em ascensão do extinto Vine, ele se empenhou para conquistar o seu espaço. Neste novo álbum, por exemplo, podemos notar algo mais soulful em suas músicas. Anteriormente, ele utilizou elementos estritamente acústicos. Desta vez, ouvimos um garoto mais maduro experimentando os altos e baixos do amor sobre uma produção requintada. Ele teve muita ajuda para adotar um som diferente e bem-sucedido. Além da cooperação de produtores como Teddy Geiger e Joel Little, Shawn Mendes foi auxiliado por Ed Sheeran na escrita de uma música e John Mayer na produção de outra. No seu primeiro álbum, “Handwritten” (2015), Mendes forneceu um pop-rock lento que lembra atos como Jason Mraz, John Mayer e Maroon 5.

Enquanto isso, “Illuminate” (2016) manteve o foco no romance e mostrou um certo amadurecimento no som. Singles como “Treat You Better” e “Mercy” provaram que, independentemente da sua idade, ele é um músico talentoso. O conteúdo lírico do álbum pode ter deixado a desejar, mas forneceu uma imagem amadurecida. Já no seu terceiro álbum, Shawn Mendes continua crescendo, porém, nas primeiras audições, causa algumas más impressões. É um disco definitivamente mais focado no pop do que “Handwritten” (2015) ou “Illuminate” (2016). Considerando que ele se dá bem no rock mais suave, eu estava esperando algo mais brilhante. Mas, dito isto, “In My Blood” o vê perseguindo letras mais orgânicas. Em uma entrevista, ele citou a banda Kings of Leon como inspiração. E realmente possui um som muito semelhante ao do Kings of Leon, especialmente “Sex on Fire”. Comparado com o seu último álbum, não é uma mudança drástica, pois é uma balada que mostra suas lutas contra depressão e ansiedade – conforme constrói lentamente um explosivo refrão impulsionado por guitarras elétricas. Um single emotivo e honesto com letras como: “Me ajude / É como se as paredes estivessem desmoronando / Às vezes, sinto vontade de desistir / Nenhum remédio é forte o suficiente”. Depois de uma introdução misteriosa, Shawn Mendes comenta sobre medos, inseguranças e solidão. “Mexendo no meu celular de novo, me sentindo ansioso / Com medo de ficar sozinho de novo, eu odeio isso”, ele canta no segundo verso.

O emotivo riff de guitarra, a bateria e bela melodia ampliam sua vulnerabilidade. No pré-refrão e refrão, o alcance de sua expressividade vocal é completamente desencadeado. E justamente no refrão há uma carga de esperança quando ele admite: “Às vezes, sinto vontade de desistir / Mas eu não posso / Não está no meu sangue”. Enquanto ele canta, a confissão das letras sobre sua voz trêmula parecem curar o sentimento de ansiedade e insegurança. Felizmente, “In My Blood” não é uma canção de amor clichê. É uma das músicas mais cruas e comoventes que o Shawn Mendes lançou. Liricamente, destaca o seu crescimento e maturidade. Assim como no primeiro single, ele é honesto sobre seus sentimentos em “Nervous”. Co-escrita por Julia Michaels, é uma canção pop e soul que o mostra ansioso quando fica perto de determinada garota. Ele é charmoso e autoconsciente em suas palavras, cantando com um tom mais baixo e apresentando excelentes falsetes. “Eu fico um pouco nervoso perto de você / Fico um pouco tenso”, ele diz. O outro single, “Lost in Japan”, é uma espécie de revelação. Shawn Mendes encontrou sucesso dentro de um espaço bastante estreito – baladas de piano, riffs acústicos, rock de arena – brevemente se colocando em um território mais otimista com “There’s Nothing Holdin’ Me Back” – hit produzido da mesma maneira que Ed Sheeran costuma fazer com o seu violão. Mas “Lost in Japan” introduz Mendes em uma geração de garotos brancos fazendo funk.

Um ritmo formado por guitarras acústicas – que parecem ter sido arrancadas de “Señorita” do Justin Timberlake ou de alguns álbuns do Robin Thicke – um baixo audível recentemente revivido por Charlie Puth e até mesmo uma introdução de piano que parece uma homenagem à “Slide” do Calvin Harris. Então, se esse movimento do Shawn Mendes fosse inesperado, também era óbvio o suficiente. No entanto, “Lost in Japan” – que ele escreveu junto com Teddy Geiger, Scott Harris, Nate Mercereau e o freqüente colaborador do Post Malone, Louis Bell – é apenas uma música pop notavelmente bem-feita e agradavelmente espaçosa. O arranjo é generoso e surpreendente, assim como a oscilação do sintetizador que acentua o baixo, ou as batidas de fundo que pavimentam o caminho para as guitarras acústicas. Vocalmente, Mendes canta de forma graciosa. Ele vende uma tensão romântica e um desespero excitante, e parece natural ao chegar nos falsetes. “Lost In Japan” é imediatamente mais pop do que “In My Blood” – sua suave introdução ao piano, que nos leva para uma linha de baixo vibrante, apoia letras como: “Basta um voo / E nós estaríamos no mesmo fuso horário”. A música se desenvolve, o baixo torna-se mais proeminente, as guitarras de fundo ajudam na construção da atmosfera, as harmonias crescem gradualmente e as palavras se tornam cada vez mais obcecadas. Na superfície, pode parecer apenas mais uma música sobre luxúria.

Olhando para as letras, no entanto, está claro que “Lost In Japan” é mais uma música sobre paixão do que qualquer outra coisa. O refrão é altamente sensual, com imagens de facas cortando a tensão da intimidade, terminando com a garantia de que “serão apenas algumas horas, e eu estou prestes a ir embora”. A música também serve para mostrar a lealdade do cantor, que prova que a distância não poderá atrapalhar o seu amor. Uma das melhores características desta faixa é o seu consumismo – um sentimento quase universal que pode ser encontrado na confissão manufaturada do amor de Shawn Mendes. “Lost In Japan” atende às necessidades de seus fãs e dos amantes de música pop. Uma peça uptempo e funky com um refrão infeccioso e uma produção bem contemporânea. Mendes canta sobre como ele quer entrar em um avião para visitar o quarto de hotel de sua namorada, enquanto ele está do outro lado do mundo. Tão romântico e sensual! Andando sobre uma batida inspirada por Justin Timberlake, com cordas divertidas e um baixo viciante, ele parece perfeitamente à vontade. Sonicamente, parece um dos seus maiores riscos e consegue apresentar uma versão mais madura de si mesmo. “Where Were You in the Morning?” encerra a sequência de faixas inspiradas pela música soul e o R&B. Shawn Mendes parece determinado a deixar de lado sua imagem de adolescente, em favor de explorar um apelo sexual. Ele claramente não é mais uma criança.

Mendes não possui canções sexuais e libidinosas no seu catálogo, mas por trás desta faixa podemos notar algo explícito. “Where Were You in the Morning?” é uma balada acústica fortemente inspirada pelo Justin Timberlake. Conduzida por uma guitarra de blues, um baixo profundo e handclaps, ele apresenta um falsete magistral. Sua voz continua sendo uma força a ser considerada. Em “Like to Be You”, Shawn Mendes é vocalmente auxiliado por Julia Michaels. Mantendo as coisas despojadas, o cantor se afasta do pop-soul e apresenta algo mais descontraído. O conteúdo é um exemplo de sua honestidade, uma vez que possui letras como: “Posso beijá-la ou não? / Porque eu realmente não tenho certeza do que você quer agora”. Outra colaboração acontece em “Fallin’ All in You”, porém, apenas na escrita. Ed Sheeran co-escreveu esta canção e sua influência pode ser sentida. Shawn Mendes se inspira no estilo do britânico e apresenta uma guitarra relaxante juntamente com uma melodia adocicada. Desta vez, Mendes detalha uma noite de diversão e fornece, novamente, falsetes com um grande senso de maturidade. Em seguida, ele fica à mercê de algo mais experimental durante “Particular Taste”. Embora seja diferente de qualquer coisa que ele tenha gravado até agora, é uma faixa bem boring. No papel a ideia parecia boa, mas o resultado final não foi bem sucedido. Em contrapartida, “Why” é uma das maiores surpresas do álbum. Um teclado mais pesado define o sentimento das letras, enquanto Shawn Mendes combina influências de R&B com uma performance vocal poderosa.

O impressionante refrão é cheio de perguntas reflexivas sobre um determinado relacionamento. Embora não alcance o mesmo nível da faixa anterior, “Because I Had You” continua exibindo um certo crescimento artístico. Os falsetes durante o refrão são, mais uma vez, o maior ponto de venda. Uma música que mostra que é necessário seguir em frente, mesmo que pareça impossível. Apesar de ser mais orgânica, ela possui um tom escuro e uma bela guitarra acústica. “Queen” se beneficia de um ritmo divertido e produção relativamente mais leve. Uma canção atrevida carregada por guitarras e letras como: “Você se acha legal demais / Fazendo o bonito parecer feio / Pela forma como você se coloca acima de mim”. “Youth”, com Khalid, é uma faixa pop e R&B que se apoia mais na simplicidade do que no excesso de produção. A letra tocante foi inspirada pelo ataque terrorista que aconteceu em 2017 na ponte de Londres. É provavelmente a canção mais significativa do álbum. Mesmo que as letras não sejam originais ou poéticas, possui uma mensagem admirável. “Acordo com manchetes e sou preenchido de devastação novamente / Meu coração está quebrado / Mas eu continuo seguindo”, Shawn Mendes canta. O piano e a guitarra acústica definem a natureza midtempo da canção, enquanto as vozes de ambos exalam dor e permanecem evidentes. A produção de Joel Little, o responsável pelo primeiro álbum da Lorde, é bastante discreta. Em seguida, o amor domina as letras de “Mutual”. Definida em chave menor, esta canção fala novamente sobre suas inseguranças.

“Eu preciso saber / Se esse sentimento é mútuo / Antes que eu / Me envolva demais”, ele canta. Em “Perfectly Wrong”, o canadense enfrenta um cenário familiar ao se apaixonar pela pessoa errada. Aqui, ele consegue expor sua vulnerabilidade sobre teclas de piano, embora seja uma balada morna demais. Infelizmente, esta canção não consegue atingir o nível de emoção desejada. O mesmo pode ser dito da delicada “When You’re Ready”, onde Mendes demonstra mais confiança sob acordes de violão. Sem dúvida, o Shawn Mendes está crescendo e possui energia suficiente para nos dar aquele som jovial. Seu disco auto-intitulado é uma coleção pop de transição para algo mais maduro. Tudo somado, é um registro que fica um pouco amarrado sobre questões amorosas e se torna liricamente bobo em alguns pontos. Mas, obviamente, não podemos nos esquecer que ele tem apenas 19 anos de idade. Vocalmente, Mendes mostrou uma grande progressão nos falsetes – um dos maiores atrativos do álbum. Entretanto, é necessário mais do que talento e esforço para conseguir atingir o objetivo. Um dos pontos fracos do LP é a falta de personalidade em determinados momentos. Algumas faixas você pode imaginar sendo gravadas por qualquer outro jovem cantor. Essa sensação de familiaridade aparece várias vezes no decorrer do repertório. Enquanto “Nervous” lembra “Bad Liar” (Selena Gomez), a cativante “Fallin’ All in You” possui o estilo vocal do Ed Sheeran e “Because I Had You” nos faz recordar de “Love Yourself” (Justin Bieber).

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Favorite Tracks:

“Nervous” / “Lost in Japan” / “Where Were You in the Morning?”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.