Review: Shawn Mendes – Shawn Mendes

Lançamento: 25/05/2018
Gênero: Pop
Gravadora: Island Records
Produtores: Shawn Mendes, Louis Bell, Teddy Geiger, Ian Kirkpatrick, Joel Little, John Mayer, Nate Mercereau, Zach Skelton e Ryan Tedder.

No seu álbum auto-intitulado, Shawn Mendes experimenta estilos diferentes de uma forma mais madura. Mas embora seja uma boa coleção pop, também possui um grande senso de familiaridade.

Nos últimos anos, Shawn Mendes conseguiu alguns singles de sucesso, como “Stitches”, “Treat You Better” e “There’s Nothing Holdin’ Me Back”. Agora, com apenas 19 anos, ele continua em estado de crescimento lançado o seu terceiro álbum de estúdio. Sentindo-se fiel a si mesmo como artista, ele se posiciona com sua voz e tenta mostrar um lado mais íntimo em “Shawn Mendes”, seu disco auto-intitulado. Ele é um garoto talentoso e o violão é um suporte que o diferencia de outros jovens artistas. Usar o violão em suas performances o colocou em um ângulo diferente e moldou sua imagem. Sua voz também é um instrumento rico e caloroso, fazendo com que as músicas funcionem mesmo quando a base não é tão forte. Em “Shawn Mendes”, seus vocais estão mais fortes e vulneráveis do que nunca. Desde que o cantor surgiu em 2014, como uma estrela em ascensão do extinto Vine, ele se empenhou para conquistar o seu espaço. Neste novo álbum, por exemplo, podemos notar algo mais soulful em suas músicas. Anteriormente, ele utilizou elementos estritamente acústicos.

Desta vez, ouvimos um garoto mais maduro experimentando os altos e baixos do amor sobre uma produção mais requintada. Ele teve muita ajuda para adotar um som diferente e bem-sucedido. Além da cooperação de produtores como Teddy Geiger e Joel Little, Shawn Mendes foi auxiliado por Ed Sheeran na escrita de uma música e John Mayer na produção de outra. No seu primeiro álbum, “Handwritten” (2015), Mendes forneceu um pop-rock lento que lembra o Jason Mraz, John Mayer e o começo da carreira do Maroon 5. Enquanto isso, o “Illuminate” (2016) manteve o foco no romance e mostrou um certo amadurecimento no seu som. Singles como “Treat You Better” e “Mercy” nos lembrou que, independentemente da sua idade, ele é um músico talentoso. O conteúdo lírico do álbum pode ter deixado a desejar, mas forneceu uma imagem amadurecida. Já no seu terceiro álbum, Shawn Mendes continua amadurecendo, porém, nas primeiras audições, o álbum causa algumas más impressões. É um disco definitivamente mais focado no pop do que o o “Handwritten” (2015) ou “Illuminate” (2016). Considerando que ele se dá bem num rock mais suave, eu estava esperando algo mais brilhante.

Mas, dito isto, “In My Blood” mostra o cantor perseguindo algo mais cru e orgânico. Em entrevistas para promover o lançamento, ele citou a banda Kings of Leon como inspiração. E “In My Blood” realmente possui um som muito semelhante ao do Kings of Leon, especialmente “Sex on Fire”. Comparado com o seu último álbum, não é uma mudança drástica, pois é uma balada que mostra suas lutas contra a depressão e ansiedade, e constrói lentamente um explosivo refrão impulsionado por guitarras elétricas. É um single emotivo e honesto com letras como: “Me ajude / É como se as paredes estivessem desmoronando / Às vezes, sinto vontade de desistir / Nenhum remédio é forte o suficiente”. Depois de uma introdução misteriosa que define o tom da música, Shawn Mendes comenta sobre medos, inseguranças e solidão. “Mexendo no meu celular de novo, me sentindo ansioso / Com medo de ficar sozinho de novo, eu odeio isso / Estou tentando encontrar um jeito de relaxar, não consigo respirar, oh / Será que tem alguém que poderia / Me ajudar?”, ele canta no segundo verso. O emotivo riff de guitarra, bateria e a bela melodia ampliam a vulnerabilidade de Mendes.

E, conforme a música vai aumentando sua intensidade, ele fornece vocais incríveis. No pré-refrão e refrão, o alcance de sua expressividade vocal é completamente desencadeado. E justamente no refrão há uma carga de esperança quando ele admite: “Às vezes, sinto vontade de desistir / Mas eu não posso / Não está no meu sangue”. Enquanto ele canta, a confissão das letras sobre sua voz trêmula parecem curar o sentimento de ansiedade e insegurança. Felizmente, “In My Blood” não é uma canção de amor clichê. É uma das músicas mais cruas e comoventes que o Shawn Mendes lançou. Liricamente, destaca o seu crescimento e maturidade. Assim como no primeiro single, ele é honesto sobre seus sentimentos na faixa “Nervous”. Co-escrita por Julia Michaels, é uma canção pop e soul que o mostra ansioso quando fica perto de determinada garota. Ele é charmoso e autoconsciente em suas palavras, cantando com um tom mais baixo e apresentando excelentes falsetes. “Eu fico um pouco nervoso perto de você / Fico um pouco tenso / Quando eu penso em você / Fico um pouco animado”, ele diz aqui.

Lançada logo depois de “In My Blood”, “Lost in Japan” serviu como um bom single promocional. É uma canção que atende às necessidades dos fãs e amantes da música pop. Utilizando uma melodia funk e refrão infeccioso, “Lost in Japan” é uma faixa pop dançante caracterizada por sintetizadores, linhas de baixo e piano. Liricamente, ele fala o quanto gostaria de entrar num avião para visitar sua pretendente, mesmo estando do outro lado do mundo. Certamente, as letras são bem românticas e sensuais. A quarta faixa, “Where Were You in the Morning?”, encerra a sequência de faixas inspiradas pela música soul e o R&B. Shawn Mendes parece determinado a deixar de lado sua imagem de adolescente, em favor de explorar um apelo sexual. Ele claramente não é mais uma criança. Mendes não possui canções sexuais e libidinosas no seu catálogo, mas por trás desta faixa podemos notar algo explícito. “Where Were You in the Morning?” é uma balada acústica fortemente inspirada no Justin Timberlake. Conduzida por uma guitarra de blues, um baixo profundo e handclaps, ele apresenta um falsete magistral. Sua voz continua sendo uma força a ser considerada.

Em “Like to Be You”, Shawn Mendes é vocalmente auxiliado por Julia Michaels. Mantendo as coisas despojadas, o cantor se afasta do pop-soul e apresenta algo mais descontraído. O conteúdo é um exemplo da honestidade do cantor, uma vez que possui letras como: “Posso beijá-la ou não? / Porque eu realmente não tenho certeza do que você quer agora”. Outra colaboração acontece na próxima faixa, “Fallin’ All in You”, porém, apenas na escrita. Ed Sheeran co-escreveu esta canção e sua influência pode ser claramente sentida. Shawn Mendes se inspira no estilo do britânico e apresenta uma guitarra relaxante e melodia adocicada. Desta vez, Mendes detalha uma noite de diversão e fornece, novamente, falsetes com um grande senso de maturidade. Sonoramente, é uma faixa de grande destaque. Em seguida, ele fica à mercê de algo mais experimental durante “Particular Taste”. Embora seja diferente de qualquer coisa que ele tenha gravado até agora, é uma faixa bem boring. No papel a ideia parecia boa, mas o resultado final não foi bem-sucedido. Em contrapartida, “Why” é uma das maiores surpresas do álbum. Um teclado mais pesado define o sentimento das letras, enquanto Shawn Mendes combina influências de R&B com uma performance vocal poderosa.

O impressionante refrão é cheio de perguntas reflexivas sobre um determinado relacionamento. E, além dos excelentes vocais, “Why” possui um produção de alto nível. Embora não alcance o mesmo nível da faixa anterior, “Because I Had You” continua exibindo um certo crescimento artístico. Os falsetes durante o refrão são, mais uma vez, o maior ponto de venda. Uma música que mostra que é necessário seguir em frente, mesmo que pareça impossível. Apesar de ser mais orgânica, ela possui um tom escuro semelhante ao de “Why” e uma bela guitarra acústica. “Queen” se beneficia de um ritmo divertido e produção relativamente mais leve. Uma canção atrevida e interessante carregada por guitarras acústicas e letras como: “Você se acha legal demais / Fazendo o bonito parecer feio / Pela forma como você se coloca acima de mim”. “Youth”, com Khalid, mantém as coisas relativamente simples. É uma faixa pop e R&B que se apoia mais na simplicidade do que no excesso de produção. A letra tocante foi inspirada pelo ataque terrorista que aconteceu em 2017 na ponte de Londres. É, provavelmente, a faixa mais significativa de todo o álbum. Mesmo que as letras não sejam originais ou poéticas, possui uma mensagem admirável.

“Acordo com manchetes e sou preenchido de devastação novamente / Meu coração está quebrado / Mas eu continuo seguindo”, Shawn Mendes canta no primeiro verso. O piano e a guitarra acústica definem a natureza mid-tempo da canção, enquanto as vozes de ambos exalam dor e permanecem evidentes. A produção de Joel Little, o responsável pelo primeiro álbum da Lorde, é bastante discreta. O amor domina as letras da próxima faixa, chamada “Mutual”. Definida em chave menor e com vocais um pouco mais potentes, esta faixa fala sobre a insegurança de Shawn Mendes. “Eu preciso saber / Se esse sentimento é mútuo / Antes que eu / Me envolva demais”, ele canta. Em “Perfectly Wrong”, o cantor enfrenta um cenário familiar de se apaixonar pela pessoa errada. Aqui, ele consegue expor sua vulnerabilidade sobre teclas de piano, porém, é uma balada morna demais. Infelizmente, esta canção não consegue atingir o nível ou emoção desejada. O mesmo pode ser dito da delicada “When You’re Ready”, onde Mendes demonstra mais confiança sob acordes de violão. O álbum encerra com uma faixa entediante e produção que passa despercebida.

“Mesmo daqui a dez anos, se você não encontrou alguém / Eu prometo, estarei por perto”, ele canta no refrão. Sem dúvida, o Shawn Mendes está crescendo e possui energia suficiente para nos dar aquele som jovial. Seu disco auto-intitulado é uma coleção pop de transição para algo mais maduro. Tudo somado, é um registro que fica um pouco amarrado sobre questões amorosas e se torna liricamente bobo em alguns pontos. Mas, obviamente, não podemos nos esquecer que ele tem apenas 19 anos de idade. Vocalmente, Mendes mostrou uma grande progressão do seu falsete, um dos maiores atrativos desse registro. Entretanto, é necessário mais do que talento e esforço para conseguir atingir um objetivo. Um dos pontos fracos do álbum é a falta de personalidade em determinados momentos. Algumas faixas você pode imaginar sendo gravadas por qualquer outro jovem cantor. Essa sensação de familiaridade aparece várias vezes no decorrer do repertório. Enquanto “Nervous” lembra “Bad Liar” (Selena Gomez), a cativante “Fallin’ All in You” possui o estilo vocal do Ed Sheeran e “Because I Had You” nos faz recordar de “Love Yourself” (Justin Bieber). No entanto, mesmo com seus erros, “Shawn Mendes” não é um álbum ruim.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.