Review: Pond – Tasmania (2019)

Lançamento: 01/03/2019
Gênero: Pop psicodélico, Neo-psicodelia
Gravadora: Spinning Top
Produtores: Kevin Parker e Pond

“Tasmania” possui um som direto e acessível que pode deixar os admiradores do passado sem aquela estranheza conhecida. Porém, o mais importante é a evolução temática que ele representa para a Pond.

Dois anos depois do satírico e divertido comentário sobre sua cidade natal, Perth – onde a superficialidade foi confrontada com duras realidades – a prolífica banda Pond teve o aquecimento global em sua própria mente. É uma questão universal, é claro, mas como seus álbuns anteriores, Pond está se concentrando no impacto que terá em seu país, já que o registro de 49° C de dezembro passado e as recentes inundações ao longo dos anos fizeram com que a banda se preocupasse com as ameaças ambientais. O vocalista Nic Albrook estava familiarizado com um cientista ambiental há um tempo atrás, que mostrou a ele uma sinistra projeção de temperaturas da Austrália no século seguinte. O último lugar para ser habitável antes da destruição completa é a Tasmânia. Este gráfico codificado por cores explica a capa do álbum, o título e o ponto de partida do seu conceito. “Tasmania” é uma coleção inebriante e realista sobre o pensamento que se tem ao tentar digerir um futuro apocalíptico. Para referência, pense na histeria em torno dos personagens do filme “Melancolia”, do dinamarquês Lars Von Trier, que enfrenta o Armagedon. O primeiro estado mental descrito é o pânico. Você não saberia imediatamente pela justaposição do soul psicodélico semi-sedutor dos anos 70, mas o personagem da faixa-título está em um estado de alarme impulsivo.

Ele deixou seu “telefone em Sydney, porque todo o estresse me superou”, alegando que quer “respirar ar de verdade novamente”, está preocupado com a guerra e planeja ir para a Tasmânia antes do paraíso “queimar na Austrália”. Esses tipos de pensamentos também são compartilhados em “Burnt Out Star”, uma faixa com 8 minutos de duração. Em uma das composições mais inteligentes da Pond, eles confrontam o apocalipse como um vilão malvado que destrói um romance: “Corpo perfeito que eles nunca quebrarão / Primeiro eles vão ter que arrancar minha cabeça do seu coração”. Quase personificando as estrelas com as falas: “Queime a estrela, não importa onde você esteja / Tente entender quem você é”, enquanto o ouvinte escuta sons que lembram estrelas cadentes. Também vale a pena notar que Albrook menciona estrelas em “Goodnight, P.C.C.” – uma nítida canção de ninar inspirada no David Bowie – como sendo o local de nascimento de todos os seres humanos. A próxima reação de Albrook é a nostalgia e retrospectiva. Ele pensa sobre o passado e se ele realmente apreciou aqueles momentos. Na faixa de abertura, “Daisy”, ele pensa em sua infância na região de Kimberly, na Austrália Ocidental, uma área conhecida por sua população esparsa e flora rara que atrai turistas de todo o mundo. Ele adere a esta beleza quando menciona flores de cerejeira e pluméria. O nome esotérico de amigos e familiares faz dela uma narração muito pessoal, enquanto as seções assombrosas ameaçam dissolver essa memória dourada.

Diversos tipos de arrependimento são sentidos no funk eletrônico “Sixteen Days”, e na fascinante balada “Shame” – o ambiente cintilante e instável reflete de forma incrível sobre o registro homogêneo da Björk, de 1997 – também com temas ambientais. “Sixteen Days” é sobre um caso romântico que o cantor teve em Gênova, na Itália – mas confusamente, apresenta letras em francês. Ao invés de abraçar o tempo que ele tinha com seu amante, a experiência foi preenchida com ansiedade e ciúmes que evoluíram para uma obsessão irracional, desespero e, eventualmente, loucura. Enquanto isso, “Shame” pode ser interpretada como uma desculpa simbólica para o planeta pelo descuido da humanidade, especialmente quando coincide com “Doctor’s In”, onde parece que o apocalipse já está ocorrendo com sua percussão cada vez mais sufocante. Apesar de não ter o humor e a cultura divertida do seu antecessor, “The Weather” (2017), e seu uso regular de decodificadores de voz, que ocasionalmente desfocavam as letras potencialmente significativas, “Tasmania” é uma experiência sonora incrivelmente bem produzida. Mais uma vez o baterista e o mentor do Tame Impala, Kevin Parker, supervisionou a produção. Ele traz texturas criativas que seriam melhores apreciadas em fones de ouvido, especialmente por seus numerosos momentos de psicodelia, técnicas efervescentes e atmosfera celestial. Parker é aquele cara que nos leva temporariamente em uma jornada através das galáxias.

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Favorite Tracks:

“Tasmania” / “The Boys Are Killing Me” / “Hand Mouth Dancer”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.