Review: Norah Jones – Begin Again (2019)

Lançamento: 12/04/2019
Gênero: Pop, Jazz
Gravadora: Blue Note Records
Produtor: Doveman

“Begin Again” é praticamente uma coleção de singles e, como tal, não pretende ter uma estrutura linear e coesa. Também é um álbum curto, um lembrete do seu talento e autoconsciência.

Uma das coisas mais estranhas sobre Norah Jones é que ela se recusa a ser rotulada pela música que definiu sua carreira. Ela conseguiu canalizar suas raízes como uma cantora de jazz e construiu uma carreira prolífica cheia de experimentações musicais. “Begin Again”, o seu trabalho mais recente, é uma adição adequada à sua discografia, uma joia menor que mostra seus limites musicais e a virtuosidade entre diferentes gêneros. Jones faz música simplesmente pela alegria de fazer. É esse impulso criativo que a leva para o estúdio. Mas onde o gênero e a experimentação podem levar outros a perder o foco, Jones traz uma graça especial à composição. Isso permite que ela se adapte quase que perfeitamente às novas formas e tendências. “Begin Again” revela sua exploração, provando que nenhum território é inacessível para Norah Jones. Ela tinha apenas 23 anos quando a Blue Note lançou seu disco de estreia, o “Come Away with Me” (2002). Ela ganhou cinco prêmios Grammys, e em 2005 já tinha vendido mais de 10 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos. Ela se tornou uma queridinha do jazz durante a noite, mas rapidamente estabeleceu que não queria ser encaixotada em um gênero. Nos anos seguintes, depois desse lançamento estratosférico, Jones permaneceu concentrado em sua arte, em vez de se tornar uma celebridade.

Ela se transformou em uma colaboradora ansiosa, e não se apressou para lançar qualquer “produto”. Jones sempre mostrou uma curiosidade expansiva na escolha de seus colaboradores. Se ela estava ajudando bandas como The Little Willies e Puss N Boots, ou trabalhando com Willie Nelson, Dolly Parton, Billie Joe Armstrong e Danger Mouse, ela sempre fazia isso de forma intrigante. “Begin Again” possui apenas sete faixas originais, a maioria das quais ela já lançou anteriormente. O projeto aproveita suas habilidades em explorar outros fluxos musicais, mas mantendo uma sensação central no jazz. Influências eletrônicas são menos pronunciadas do que no “Little Broken Hearts” (2012), porém mais presentes do que no “Day Breaks” (2016). A sutileza e experimentação são bem-vindas no “Begin Again”. Como Esperanza Spalding, a inquietação artística de Jones parece entrelaçada com a evasão das formas tradicionais pelas quais os álbuns foram feitos, embalados e promovidos. Entre seus colaboradores estão o vocalista Jeff Wileedy, o tecladista Thomas Bartlett e o baterista Brian Blade. “My Heart Is Full” combina piano, teclado e sintetizador com vocais estratificados para uma memorável e assombrosa criação de estúdio. A faixa-título, “Begin Again”, é um rock com letras pontiagudas: “Será que uma nação construída sobre o sangue pode sair da lama? / As pessoas no topo perderão o suficiente para parar? / Podemos começar de novo?”.

Violinos sinistros e instáveis dão lugar a uma batida turbulenta; um violento corte de guitarra elétrica ameaça subjugar seu pânico – “Qual é o sentido de procurar problemas ao resolvê-los?” – mas depois se afasta, dando-lhe novamente o centro do palco, que ela comanda com facilidade. Norah Jones persegue uma vibe americana com Tweedy em “A Song with No Name”, enquanto “Wintertime” certamente vai agradar os fãs do “Feels Like Home” (2004). Em “Just a Little bit” – gravado e mixado por Patrick Dillett – os insistentes riffs de piano são incrementados pelo comovente trabalho de trompete de Dave Guy. Os vocais distorcidos a torna mais divertida, mas sem prejudicar a qualidade de sua escrita. “It Was You” fica na parte mais quente do álbum – ao lado de “Wintertime” – onde o toque suave e alegre contrasta com as letras sobre confiar demais em alguém. Seu tom é apologético e transmite a confiança de que a relação em questão pode arcar com o fardo e conseguir uma sensação de conforto. No geral, o encantador “Begin Again” não é uma afirmação grandiosa; é o documento de uma artista observando para onde a vida vai levá-la. Como uma coleção de singles, “Begin Again” está menos preocupado em gerar uma sensação coesa ao longo do álbum – talvez permitindo uma licença mais criativa em cada música.

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São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.