Review: Nicki Minaj – Queen (2018)

Lançamento: 10/08/2018
Gênero: Hip hop
Gravadora: Young Money Entertainment / Cash Money Records
Produtores: Beats Bailey, Ben Billions, Big Juice, Blank, Boi-1da, Chris Braide, Cirkut, Cubeatz, DJ Wes, Eminem, Frank Dukes, Illmind, J Beatzz, JFK, J Gramm, JMIKE, J. Reid, Kane Beatz, Labrinth, Mel & Mus, Messy, Metro Boomin, Mike Will Made It, Murda Beatz, Nawakii, Nicki Minaj, Pluss, Rex Kudo, Ringo, Sevn Thomas, Sool, Supa Dups e Zaytoven.

“Queen” se destaca como seu melhor e mais ousado álbum lançado até hoje. Pode faltar coesão em determinados momentos, mas Nicki Minaj continua sendo uma força – mesmo se você não estiver disposto a aceitar.

Desde 2007, Nicki Minaj vem trabalhando duro para mostrar seu potencial no hip hop. Nascida em Trinidad e Tobago, ela cresceu no Queens, Nova York, e se apresentou ao mundo com suas mixtapes antes de assinar contrato com a gravadora do Lil Wayne e alcançar a fama com o “Pink Friday” (2010). Com o passar dos anos, Minaj tornou-se o rosto do empoderamento das mulheres no rap e passou por alguns altos e baixos, que inclui as tretas com Lil’ Kim e Remy Ma, e os términos de namoro com Safaree Samuels e Meek Mill. Além disso, a ascensão de Cardi B no ano passado fez a mídia insinuar que seria o declínio da Nicki Minaj. Entretanto, ela passou a gravar seu novo álbum em silêncio e surgiu com um projeto muito bem elaborado. Intitulado “Queen”, o seu quarto álbum de estúdio é muito mais focado no hip hop do que no pop. O tema principal centra-se na capacitação e promete deixar os ouvintes cientes de quem é a atual rainha do hip hop. Depois de sofrer vários contratempos, o disco foi liberado para todos os serviços de streaming em 10 de agosto de 2018. É uma coleção honesta e ousada que vê Nicki Minaj focando nas suas raízes, assim como fez no “The Pinkprint” (2014). Embora não haja nenhum momento completamente pop no registro, há algumas faixas acessíveis que poderiam facilmente passar semanas no Hot 100 da Billboard.

“Queen” é um álbum ambicioso que busca referências em meados dos anos 90, desde artistas como The Notorious B.I.G. até Foxy Brown. Nicki Minaj é uma das rappers mais talentosas da indústria, e ainda possui um ouvido aguçado para batidas sólidas. Não é à toa que este álbum pode ser considerado o seu melhor trabalho até a data. Você não precisa chamá-la de “rainha”, mas não poder negar que ela é uma das rappers mais técnicas dos últimos anos. Ela atraiu atenção da maioria das pessoas depois que foi convidada do single “Monster” do Kanye West. Minaj mostrou sua proficiência, fluxo acrobático e apresentou um desempenho dinâmico que ofuscou dois grandes artistas que estavam na mesma faixa. Desde o “Pink Friday” (2010), ela sempre misturou seu rap com o canto a fim de atingir o público mainstream. Dois dos seus maiores hits são músicas pop: a brilhante “Super Bass” e a infecciosa “Starships”. O seu segundo álbum, “Pink Friday: Roman Reloaded (2012)”, foi quase completamente conduzido por sons EDM, embora também tenha poderosas faixas de hip hop como “Come on a Cone” e “Beez in the Trap”. Durante sua carreira, ela sempre colocou ênfase em alter egos, como o Roman Zolanski, mas nunca lançou um álbum tão direto e focado. “Queen” ainda possui baladas no estilo de “Save Me” e “Grand Piano”, mas é o mais próximo que ela já chegou de suas raízes desde que alcançou a fama.

Destaque para a capa do álbum, uma imagem sedutora de Nicki Minaj sentada num tronco e vestida com roupas egípcias. Eu realmente adoro a produção de “Ganja Burns”, uma faixa pop-rap com elementos de reggae fusion e batida caribenha. Seu fluxo está ágil e possui uma resistência incrível. É uma canção que define perfeitamente o tom do álbum – entrando com um belo contraste causado pelo rap agressivo e o refrão emocional. “Queimando a erva, queimando a erva, queimando a erva / Toda vez que fico chapada, eu só penso em você”, ela canta no refrão. Liricamente, Nicki usa linhas inteligentes contra aqueles que duvidam do seu potencial. O ritmo da guitarra acústica soa muito bem, enquanto a percussão é constante e impulsiona as coisas. Outro destaque do repertório é “Majesty”, uma colaboração com Eminem e Labrinth. O contraste causado pelas saltitantes teclas de piano, cordas dramáticas, percussão e a suave melodia do refrão são nítidas e confortáveis ​​para todos os envolvidos. É uma faixa peculiar com um fluxo rápido e doentio do Eminem, que conseguiu cuspir impressionantemente 123 sílabas em apenas 11 segundos. Quando “Barbie Dreams” foi liberada nos serviços de streaming, a internet ficou incendiada pelas letras ácidas de Nicki Minaj. A música contém sample de “Blues and Pants” do James Brown, e interpolações com “Dreams and Nightmares” do Meek Mill e “Just Playing (Dreams)” do The Notorious B.I.G.

Além disso, revisita a faixa “Dreams ’07” da mixtape “Playtime Is Over” (2007) da própria Nicki Minaj. “Barbie Dreams” já está entre as melhores músicas que a Nicki Minaj gravou, uma vez que coloca seu feminismo em exibição. É uma brincadeira atrevida, hilária e repleta de ironia, onde ela humilha seus colegas de profissão. A ideia é questionar se o protagonista masculino é tão bom no sexo como ele fala em suas canções. Uma coleção de encontros sexuais que poderá ferir alguns egos mais frágeis. A auto-confiança da Nicki Minaj é impiedosa e sem remorso, mas mostra com precisão sua força no hip hop. Consequentemente, é apropriado que seja um verdadeiro tributo para uma lenda como o Biggie Smalls. Começando com uma batida old-school, Nicki Minaj direciona suas rimas para artistas como 50 Cent, Drake, Young Thug, DJ Khaled, Meek Mill, Eminem, Swae Lee, Lil Uzi Vert, Fetty Wap, Quavo, Future, YG e 6ix9ine. Os vocais são vaidosos e alternam de sua marca registrada para linhas inspiradas por seu alter ego britânico. “Sonhos de foder um desses rappers pequenos / Estou apenas brincando, mas estou dizendo”, ela canta descaradamente no refrão. Conduzido pela bateria e o cativante riff de guitarra, o ritmo de “Barbie Dreams” é extremamente vicioso e possui uma mudança drástica quando chega na marca dos 3 minutos de duração. A partir desse momento, sons de alarme e uma batida mais pesada tomam conta do ritmo.

E assim como as rimas do Biggie, as letras são explícitas e ofensivas. Mas Minaj afirmou que não se trata de uma diss-track, porque todos os rappers citados são indivíduos que ela ama. Provavelmente, a parte mais hilária da música é a linha direcionada para o Drake. “Rich Sex” não foi um single particularmente memorável, e ainda apresenta letras bem estúpidas. Aqui, Minaj deixa claro que gosta mais de dinheiro do que de sexo, por isso só transa com homens ricos. Lil Wayne entra em ação no segundo verso e permanece tão sexualizado como sempre. A produção fornece uma batida de trap e um minimalista loop de piano. Em “Hard White”, ela vai atrás de rappers que começaram como dançarinas: “Nunca brinquei na posição de uma puta / Eu nunca precisei me despir no pole para conseguir uma posição”. Linhas como essas parecem ser direcionadas para Cardi B, cuja carreira começou através do seu trabalho como stripper. Mesmo em uma faixa musicalmente desinteressante como essa, com sua batida inspirada no trap, Minaj não mede suas palavras. “Bed”, com Ariana Grande, a vê deixando o trap de lado em favor de algo mais pop e sensual. É um banger cativante que tenta mostrar os pontos fortes de ambas artistas. Nesta canção, Grande serve o refrão de forma descontraída sobre um trabalho vocal discreto, ofegante e quase sussurrado.

O contraste causado por sua voz adiciona um efeito mais sedutor que funciona ao lado das letras explícitas da Nicki Minaj. Sua voz está apaixonada e igualmente sensual, enquanto a lenta produção fornece agradáveis elementos de R&B. As batidas são contemporâneas e adicionam um efeito rítmico muito envolvente. Enquanto isso, Nicki Minaj fornece um conteúdo sexual com letras que descrevem o sexo oral. Enquanto “Thought I Knew You” está entre as faixas mais melódicas do “Queen”, Nicki Minaj opta por cantar ao invés de fazer rap. Infelizmente, a presença do The Weeknd é previsível e não adiciona nada de novo. Como esperado, ele expressa seus pensamentos sobre uma melodia nebulosa e sintetizadores gelados. Minaj mantém seus sentimentos na discreta “Run & Hide” – uma prova de que ela e Drake sofrem com os mesmos tipos de problemas de confiança. “Chun Swae” não precisava ter 6 minutos de duração, apesar da hipnótico batida do Metro Boomin e os falsetes do Swae Lee. É uma canção descontraída com um trabalho de produção arejado e descontraído. Inspirada pela personagem do jogo Street Fighter, “Chun-Li” vê a rapper fazendo referências à imprensa negativa que recebe. Novamente, Minaj apresenta um ótimo fluxo e rimas extremamente ágeis. Sob uma entrega mais clássica, ela se mantém no controle. A produção fornece todo o combustível para ela cuspir suas palavras.

O cenário minimalista, composto por uma batida contundente e sintetizadores recorrentes, é simples e repetitivo. No entanto, também não deixa de ser eficaz e bem-sucedido. Certamente, Nicki consegue se destacar quando trabalha com produções mais simples e orgânicas. Com uma batida misteriosa, o principal foco da música parece ser o empoderamento feminino. “LLC”, por sua vez, é um banger com uma mensagem – fazer o seu dinheiro trabalhar para você. É uma faixa que se beneficia do refrão assassino e produção movida por batidas contundentes. “Good Form” é uma contrapartida apropriada para “LLC”, por conta do lirismo ardiloso e fluxo brutal. Suas habilidades de MC permanecem em exibição a todo momento, assim como em “Nip Tuck”. Entretanto, esta pode ser caracterizada como uma faixa filler que poderia ter sido cortada do álbum. A balada “Come See About Me” mostra Minaj no seu momento mais sentimental e melódico, à medida que ela mostra soberbamente seu lado pessoal e vulnerável. Provavelmente, essa é a sua melhor performance como cantora. O refrão é relativamente simples, mas incrivelmente agradável. O trap rotativo de “Sir”, com Future, matou o fluxo do álbum e é uma perda de tempo. Não é uma faixa completamente desleixada, mas certamente não faria falta no “Queen”. Os sintetizadores que Murda Beatz inseriu em “Miami” é o elemento mais cativante da mesma.

Embora não seja uma música tão ensolarada quanto a cidade que serve como título, é uma peça cativante. De longe, a melhor canção do álbum é “Coco Chanel”, sua colaboração com Foxy Brown. Ela e Nicki Minaj são de Trinidad e Tobago, mas possuem raízes fincadas em Nova York. Uma ode ao seu passado caribenho com teclas pesadas e uma batida inspirada pelo dancehall. A produção possui um sabor tropical, uma entrega arrogante, letras ameaçadoras e interpolação de “Showtime Riddim”. A presença de Foxy Brown foi uma dádiva para “Coco Chanel”, uma vez que ela compartilha uma energia magnética com Nicki Minaj. Elas exibem uma química invejável em sua primeira colaboração, e o resultado foi impressionante. Com “Coco Chanel”, o álbum termina com uma nota alta, enquanto ambas trocam versos ferozes e fornecem um momento solidário entre duas rappers femininas. Não é uma surpresa que essa canção se transformou numa peça tão desafiadora, afinal Foxy Brown é um ídolo para Nicki Minaj. Elas têm muitas características em comum, desde a herança tobaguiana até o estilo similar. Ademais, elas cresceram em bairros vizinhos de Nova York e lutaram contra o paradigma masculino estabelecido dentro da indústria do hip hop. Dito isto, Foxy Brown já entrou em defesa de Nicki Minaj quando ela confrontou outras duas rappers, Lil Kim e Remy Ma.

Em “Coco Chanel”, elas conseguiram encontrar um espaço perfeito para combinar seus estilos agressivos. Em um álbum tão inchado como o “Queen” (2018), é gratificante ouvir um momento de grandeza como este. A pesada batida, enfeitada por teclas perfurantes, enfatiza a forças dos versos da Nicki. O fluxo da Foxy Brown não fica para trás, e ganha o posto de melhor verso convidado do “Queen” (2018). Nicki Minaj se distanciou de sua imagem colorida, e encontrou a companheira ideal para trocar rimas. A última faixa, intitulada “Inspirations (Outro)”, é uma extensão de “Coco Chanel” que pega emprestada a batida da música anterior. Há muita coisa para se gostar neste álbum. Demorou muito tempo para Minaj lançar seu quarto álbum, mas a espera valeu a pena. “Queen” poderia ter um comprimento menor, uma vez que nem todas as dezenove faixas são necessárias. Ainda assim, qualquer pessoa que ouvi-lo não terá problemas para gostar de quase todo o repertório. Enquanto ela não é conhecida por seu lirismo introspectivo, as letras agressivas e grosseiras podem afastar um determinado tipo de público. No entanto, oito anos depois de seu álbum de estreia, Nicki Minaj continua sendo uma das rappers mais vitais da indústria. “Queen” oferece uma vitrine de seus talentos vocais e grande versatilidade. Ela realmente amadureceu como artista e cresceu desde que a ouvimos pela primeira vez no “Pink Friday” (2010).

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Favorite Tracks:

“Ganja Burns” / “Barbie Dreams” / “Coco Chanel (feat. Foxy Brown)”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.