Review: Nas – NASIR (2018)

Lançamento: 15/06/2018
Gênero: Hip hop
Gravadora: Mass Appeal Records / Def Jam Recordings
Produtor: Kanye West, Andrew Dawson, Benny Blanco, BoogzDaBeast, Cashmere Cat, Che Pope, Eric Danchick, Evan Mast, Mike Dean e Plain Pat.

Enquanto estilisticamente “NASIR” pode ter muitos momentos fortes, as contradições do Nas se tornam complicadas. Às vezes, a escrita é tão mecânica que poucas coisas parecem realmente intencionais.

Nas é indiscutivelmente um dos artistas mais importantes do hip-hop, o gênio das líricas e das batidas ásperas que ajudaram a colocar a Costa Leste dos Estados Unidos de volta no mapa durante os anos 90. Um estilo que lhe renderia um enorme sucesso – seus contos e sua dura realidade foram pioneiros em uma nova era do hip-hop. Agora, mais de duas décadas depois do “Illmatic” (1994), Nas manteve seu status lançando oito álbuns platinados, além de vender mais de 30 milhões de discos em todo o mundo. Respeitado por muitos, já faz um bom tempo desde que alguém ouviu alguma música nova do mestre lírico. Seis longos anos depois de lançar seu último álbum de estúdio, ele fez seu retorno épico com “NASIR” em 15 de junho de 2018. Houve especulações de que o álbum estava quase completo em 2017, mas em abril deste ano, o anúncio foi de que Kanye West estaria atuando como produtor. Com isso em mente, o álbum também inclui participações de Puff Daddy , 070 Shake, Tony Williams e The-Dream. Além disso, e talvez o fator mais ousado: o álbum tem apenas sete faixas de comprimento e menos de 30 minutos de duração. Para muitos, isso seria considerado um EP. Como mencionado, Nas sempre foi muito talentoso e revelador quando trata-se de conteúdo lírico. Para o “NASIR”, ele permanece atual – abordando tópicos de desigualdade, brutalidade policial, pobreza e tensões raciais.

Do ponto de vista musical, o disco é muito bem montado – mantendo as batidas e sons clássicos do hip-hop tradicional – ao mesmo tempo em que apresenta uma produção soberba. Diga o que quiser sobre o Kanye West, mas ele é certamente um produtor brilhante. Este registro segue o lançamento do “DAYTONA” (Pusha T) e “KIDS SEE GHOSTS” (Kanye West e Kid Cudi), álbuns produzidos por West em Jackson Hole, no estado de Wyoming. A capa do álbum é polêmica por si só. Descreve como crianças negras são criminalizadas desde cedo e forçadas a abandonar sua inocência. É um visual que comunica a dor e mostra a falta de humanidade de muitas pessoas. Quando anunciaram que o Kanye West estaria produzindo um álbum do Nas, os fãs ficaram enlouquecidos e todo mundo passou a esperar pelo lançamento. Entretanto, o “NASIR” não recebeu a aclamação de sempre e, infelizmente, eu devo concordar. A maior parte do repertório é repetitiva e carente do lirismo habitual do Nas. Embora tenha algumas boas mensagens, simplesmente não é a obra-prima que você esperaria de um rapper como ele. “NASIR” é mais uma reflexão sobre ele como artista e pode tornar-se um álbum decente se você não ouvir com grandes expectativas. E não posso deixar de sentir que esse disco faz mais pelo Kanye West do que pelo Nas, especialmente dada o esforço que ele colocou nisso tudo.

A faixa de abertura, “Not for Radio”, com Puff Daddy e 070 Shake, lança as bases para uma narrativa sobre equívocos, supremacia branca, discrepâncias e verdades. No refrão, 070 Shake canta: “Eu acho que eles temiam a gente” – ilustrando a intimidação do poder negro. Esta faixa mostra a grandeza dos negros e destaca como eles são marginalizados na sociedade devido ao medo da cultura afro-americana. Nas fala sobre o crescimento de homens e mulheres negros sendo mortos por policiais, bem como os recentes tiroteios em escolas. A produção de Kanye West, Mike Dean, Benny Blanco e Cashmere Cat é extremamente soberba – há cordas dramáticas e uma bateria rígida. Uma incrível introdução que mostra a habilidade lírica de Nas, embora seja a produção que realmente se destaque. Isto é seguido pela poderosa “Cops Shot the Kid”, com uma amostra de Slick Rick em loop ao longo de toda sua execução. Nas pinta um quadro que faria qualquer um pensar duas vezes sobre a violência armada e a brutalidade policial. A música começa discutindo a discriminação que policiais mostram em relação às crianças negras que não estão causando problemas. Isso reflete em uma falta de confiança naqueles que supostamente acabam com a violência e não a causam. Kanye West é apresentado no segundo verso, e ele continua ilustrando as questões raciais.

Mas mesmo com ambos entregando versos estelares, o elemento de destaque é a nítida e nostálgica produção que preenche a faixa com uma energia surpreendente. “White Label” é preenchida com um jogo de palavras do Nas. Ele se encaixa em uma amostra energética, cortesia do cantor iraniano Shahram Shabpareh. Aqui, o rapper reflete sobre o sucesso que ele construiu durante todos esses anos. Mesmo que essa música caia no lado mais fraco do álbum, ela ainda oferece alguns elementos redentores, como o ótimo instrumental apoiado por metais. “Bonjour”, com Tony Williams, é sobre a beleza e o fascínio das mulheres. Frases em francês aumentam a sensação romântica da música, ao mesmo tempo em que eles discutem a epidemia do crack, a violência e outras lutas que prevaleciam nos bairros de Nova York nos anos 80. É uma música elegante – com teclas saltitantes espalhadas por toda parte – que rapidamente apresenta vocais refinados do The World Famous Tony Williams. Nas contribui com um verso arrogante que retrata os luxos de ser um rapper rico. Dito isto, apesar de instrumentalmente agradável, o lirismo é um pouco sem graça. Apresentando tanto o The-Dream quanto o Kanye West nos vocais, e com mais de 7 minutos de duração, “Everything” é uma música lindamente produzida, bem como atmosférica e sombria.

Ela aborda a individualidade, mas também os pensamentos de querer ser mais “aceito” na sociedade devido aos julgamentos das pessoas. Mais de 2 minutos se passam antes de Nas entrar, e embora seja um longo período de tempo, ela é executada com maestria. Aqui, o rapper fala sobre desvantagens enfrentadas pelos negros. “Escute abutres, fui algemado pela cultura ocidental”, ele canta. “Você convenceu a maioria do meu povo a viver de emoções”. O segundo verso vai ainda mais fundo, enquanto ele retrata a desigualdade. No terceiro verso, Nas permanece no piloto automático, enquanto West e The-Dream fecham a canção. A bela produção vocal da música vem com uma forte mensagem: acredite em si mesmo. Tudo é sonoramente bonito e se destaca como uma das faixas mais originais e eloquentes do álbum. The-Dream entrega vocais angelicais que, combinados com os acordes sombrios, cercam a faixa com um sentimento espiritual. Embora se compare precocemente com Otelo de William Shakespeare nas primeiras linhas, Nas soa paranoico e vulnerável em “Adam and Eve”. Dessa vez, o rapper fala sobre família e lições da vida, inicialmente dizendo: “Oh meu Deus, eles querem o fim de mim porque eu sou puro”. No entanto, ele soa contraditório, visto que algumas linhas depois, pede para que seus pecados não sejam herdados por seus filhos: “Ore para que meus pecados não sejam passados ​​para meus filhos”.

The-Dream é o responsável pelo refrão de “Adam and Eve”, conforme invoca algumas imagens bíblicas: “Adão e Eva / Não caia muito longe da macieira”. Na composição há uma bateria pesada, guitarras acústicas e teclas de piano retiradas da música “Gole Yakh” do cantor iraniano Kourosh Yaghmaei. Mas nem tudo é baseado em assuntos sérios, tanto que Nas tira um tempo para se divertir. A produção faz a maior parte do trabalho, pois é simples e eficaz. Enquanto isso, o gancho cantado por The-Dream ilustra a ideia de crianças que não se afastam das raízes de seus pais. Nas também fala sobre o que fez ele mudar durante sua carreira. “Eles não pararam de imprimir dinheiro, porque eles fizeram o meu”, ele rima depois de admitir que a caçada por dinheiro nem sempre é fácil porque “inseguranças mantém você incapacitado”. O conceito de “Adam and Eve” é genial, mas não apenas porque contém referências bíblicas ao primeiro homem e mulher na Terra que se entregaram à tentação. Afinal, Nas também discute sobre seus demônios pessoais e seu amor pelas mulheres. Ele demonstra confiança em suas habilidades de rap, enquanto alterna entre uma variada lista de fluxos. Infelizmente, o lirismo aberto desta canção é mais exceção do que uma regra no “NASIR” (2018). Em primeiro lugar, ele mostra uma paixão aqui que falta nas outras faixas, enquanto suas palavras dançam sob o loop de piano.

Falando da sabedoria da vida, “Simple Things” fecha o disco com uma mensagem de humildade. É a música mais curta do repertório – registrando apenas 2 minutos e 20 segundos de duração. A exuberância da produção, assim como a progressão harmônica, se destaca. Nas exibe um fluxo repleto de energia e notavelmente dá um soco quando cuspe: “Nunca vendi um disco pela batida, são os meus versos que eles compram”. Ele relembra sua carreira, evidenciada pela linha mencionada. Assim como o título sugere, “Simple Things” tem uma natureza quase minimalista e a produção mais simplista de Kanye West. A bateria repetitiva em cima dos vocais e sintetizadores eletrônicos dá à faixa uma qualidade interessante. No geral, o “NASIR” é outra vitória para o Kanye West e a G.O.O.D. Music. Mas considerando a influência do Nas, como alguém que lançou discos como “Illmatic” (1994), “It Was Written” (1996), “God’s Son” (2002) e “Life Is Good” (2012), é impossível não sentir uma certa decepção ao ouvir este álbum. “NASIR” possui suas qualidades, o trabalho de produção é incrível e o fluxo muito bom. Entretanto, outros pontos não são necessariamente adequados – muitas vezes Nas se contradiz no que fala. Além disso, suas rimas mudam de acusações agudas sobre racismo para coisas que não fazem sentido. Em outras palavras, “NASIR” é um bom álbum com alguns grandes momentos, embora imperfeito e carente de impacto.

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Favorite Tracks:

“Not for Radio (feat. Puff Daddy & 070 Shake)” / “Everything (feat. Kanye West & The-Dream)” / “Adam and Eve (feat. The-Dream)”.

São Paulo, 22 anos, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas e séries. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.