Review: Mount Eerie – Now Only (2018)

Lançamento: 16/03/2018
Gênero: Indie rock, Indie folk, Noise rock, Lo-Fi
Gravadora: P.W. Elverum & Sun
Produtor: Phil Elverum.

“Now Only” confronta a tragédia pessoal com letras notavelmente vívidas. Menos impassível e mais florido do que seu antecessor, é um disco comovente de muitas maneiras diferentes. Os temas ainda cercam a morte de sua esposa, mas Phil Elverum se permite refletir sobre como seguir em frente.

Atuando sob o nome de Mount Eerie, o cantor e produtor Phil Elverum trabalha a humanidade em suas letras. Quando Geneviève Castrée, sua esposa durante 13 anos, faleceu em julho de 2016, ele respondeu escrevendo uma série de músicas que formaram o álbum “A Crow Looked at Me” (2017). Onde esse registro examinou o impacto a curto prazo da morte de sua esposa, o seu novo álbum de estúdio, “Now Only”, mostra como ficou sua vida nos meses seguintes. A imprevisibilidade desse álbum parece um espelho da desorientação interna de Phil Elverum, encontrando lembranças de sua esposa em lugares improváveis. “A Crow Looked at Me” (2017) narrou o processo de luto, mas “Now Only” mostra como as memórias de Geneviève Castrée encaixam-se na sua vida atual. O repertório de seis músicas é composto principalmente pela guitarra acústica, além da ocasional utilização do piano, bateria e guitarra elétrica. Enquanto o álbum anterior era linear durante todo o tempo, “Now Only” experimenta camadas e ritmos variados. No entanto, Elverum nunca se aproxima do nível de complexidade instrumental de sua antiga discografia. “A Crow Looked at Me” (2017) é um álbum que não precisava de uma sequência, porque sua própria existência foi esmagadora e surpreendente. As músicas eram claras e sem metáforas. O ouvinte conseguia se conectar com o luto de Elverum.

Era uma obra-prima tão íntima em sua perda que você desejava que não existisse. O cantor continua criando uma filha sozinho e escrevendo canções sobre sua falecida esposa. No entanto, “Now Only” não é apenas uma continuação do álbum anterior. Phil Elverum expandiu o escopo de suas letras para mostrar o que o tempo fez com ele. A instrumentação se expande juntamente com seus pensamentos. Há impressionantes reviravoltas no álbum, além de um excelente sequenciamento entre os versos e surpreendentes mudanças de humor. Perder alguém que você ama é, sem dúvida, a coisa mais difícil que alguém pode enfrentar. Ele perdeu sua esposa para o câncer e ainda continua lidando com essa tragédia. Aqui, Mount Eerie reflete sobre o passado, mas com o propósito de encontrar respostas para o futuro. O próprio Elverum descreve esse disco como algo mais detalhado e pessoal. Com o passar dos anos, seus registros tornaram-se cada vez mais líricos. “Now Only” continua a jornada iniciada no “A Crow Looked at Me” (2017), mas com uma nova abordagem. Em vez de ser meticuloso, as músicas são supérfluas. Dessa vez, seu foco está nos aspectos cotidianos da vida, de modo que, suas anedotas e reflexões possam parecer comuns. Se o antecessor foi cru e imediato, “Now Only” é refinado e ambicioso.

Ele canta sobre um funeral de infância, liberdade, o primeiro encontro com Geneviève e as tarefas paternais. A arte da capa, com imagens de animais silvestres, fotos inanimadas, florestas e retratos de Elverum, fornece vislumbres do que já foi um casamento. A dor neste álbum é tão real quanto àquela do “A Crow Looked at Me” (2017). Os dias continuaram passando e ele resolveu compartilhar esses momentos conosco no decorrer de seis faixas reflexivas. A primeira delas, “Tintin in Tibet”, soa como uma continuação do álbum anterior do Mount Eerie – abordando memórias e dores recentes. O título refere-se ao vigésimo volume da série de quadrinhos “The Adventures of Tintin”, do cartunista belga Hergé. “Eu canto para você, eu canto para você, Geneviève”, ele lamenta nos primeiros segundos. Sobre guitarras escuras, ele conta como eles leram o livro em voz alta um para o outro em francês, enquanto esperavam por um barco. A canção fornece lembranças de uma viagem que ambos fizeram no Canadá, e relembra o começo de um romance que durou 13 anos. Ao longo da música, ele repete a frase – “Eu canto para você” – fazendo as letras parecerem ainda mais pessoais. A escolha das palavras é natural e poética. Dois minutos depois, um drone astuto aparece, seguido por duas notas de guitarra suspensas – a primeira alta e em elevação, e a segunda profunda e triste.

Embora seja a faixa mais desordenada do álbum, ela também é a mais curta, vívida e imediatamente define o tom para o que está por vir. O primeiro single do álbum, chamado “Distortion”, surgiu de forma muito apropriada. Assim como o disco anterior, este single vê Elverum usando as letras para resumir sua vida após a morte de Geneviève Castrée. No entanto, desta vez o conteúdo foi aprofundado através das dores de ser um pai viúvo que está tentando superar o luto. Dito isto, “Distortion” é uma reflexão de 11 minutos de duração, criada sobre o mesmo pano de fundo que compôs o álbum “A Crow Looked at Me” (2017). Sua melodia lúdica e provocadora reflete lindamente sobre momentos significativos da vida de Phil Elverum. Sua intensidade é construída sobre um ritmo lento, evocativo e de grande qualidade. Em “Distortion”, a morte ainda é real para o músico, mas o lirismo expandiu-se. “O primeiro cadáver que vi na vida real foi o do meu bisavô”, Elverum canta em um dos versos. Posteriormente, ele acrescenta: “O segundo cadáver que já vi foi você, Geneviève / Quando eu assisti você passar de viva para morta aqui em nossa casa”. Ele começa a música através da parede de uma poderosa guitarra elétrica, antes de iniciar uma longa meditação sobre memórias e perdas. Boa parte da canção é impulsionada por uma guitarra acústica, que logo nos remete ao álbum anterior.

Mas, ao longo da música, Elverum emprega a introdução de instrumentos para sublinhar os temas e focos de sua narrativa. Utilizando um baixo, harmonias vocais e o piano para marcar o escopo da música, ele enfatiza as poderosas letras. Em outras palavras, “Distortion” é uma canção impressionante e encantadora que mostra a visão de Elverum sobre os acontecimentos de sua vida. Na faixa-título, “Now Only”, ele se aventura na escuridão, cantando: “As pessoas têm câncer e morrem / As pessoas são atropeladas por caminhões e morrem”. Elverum aborda a precariedade da vida através de um refrão otimista, versos cheios de letras confessionais e tons de guitarra e piano. Além disso, Mout Eerie oferece uma encantadora melodia durante o refrão. A discrepância entre a melodia edificante do refrão e as letras é um lembrete do que está acontecendo com Phil Elverum. Por fim, ele discute a ironia da morte de sua esposa sendo o catalisador para a parte mais definidora de sua carreira: “Em um festival de música que pagou para voar comigo / Para tocar canções de morte para um grupo de jovens usando drogas”. A abertura elétrica de “Earth” parece desorientadora depois do fechamento contemplativo de “Now Only”. Aqui, a guitarra é colocada sobre repentinas ondas de raiva, que se transformam em um ambiente acústico e fantasmagórico.

Inicialmente, “Earth” abre com um som lo-fi, acordes cintilantes de guitarra e uma boa percussão, enquanto o cenário muda rapidamente para uma paisagem esparsa. A instrumentação continua a correr paralelamente através das imagens evocadas pelas letras. “Compostagem e memória, não há mais nada”, ele canta sobre o dedilhar incessante da guitarra. A quinta faixa, “Two Paintings by Nikolai Astrup”, refere-se ao pintor norueguês Nikolai Astrup e suas pinturas “Midsummer Eve Bonfire” (1915) e Foxgloves (1920). É uma poesia de estilo simples, onde Elverum tenta trabalhar com metáforas. Ele compara interpretativamente a sua própria experiência com a perda de duas pinturas do artista acima mencionado. Ao longo da música, ele descreve as pinturas em grandes detalhes, e encontra dentro delas uma alegoria pungente para sua tragédia atual. É uma canção quase abstrata, com quase 10 minutos de duração, que mantém uma intensa tranquilidade do começo ao fim. A última faixa, “Crow, Pt. 2”, é uma continuação de “Crow”, faixa final do álbum “A Crow Looked at Me” (2017). Aqui, o cantor parece encontrar algum final em relação à ausência de sua esposa. Ele mostra uma cadência nas palavras que está notavelmente ausente em músicas anteriores, e serve como um descanso bem-vindo do ritmo agitado habitual. Sua mente ainda está torturada e claramente lutando para lidar com o presente.

Mais do que qualquer outra faixa do álbum, é uma continuação do processo de cura que Elverum está buscando. “Tocando seu último suspiro / Alcançando o mundo do passado / Com a mão vazia”, ele canta, conforme afirma seu eterno amor por Geneviève Castrée. “O bebê que você conheceu agora é uma criança e quando ela olha para mim com os olhos / A forma de amêndoas / Eu sou mexido por dentro e ressurgido”, ele diz gentilmente ao observar os novos padrões de sua vida, sobre as cordas de nylon. “Crow, Pt. 2” é uma das músicas mais tocantes e humildes que Phil Elverum já escreveu até hoje. Artisticamente, o “Now Only” é um álbum construído em torno do processo interno de lidar com a morte e suas conseqüências. Mount Eerie continua lamentando em “Now Only”, dando mais um passo em direção à sua cura emocional em face da morte de sua esposa. Existem poucas palavras para descrever essa luta, então ele resolveu documentar cada passo através da música. A arte do Mount Eerie sempre foi muito pessoal e intrínseca, portanto, “Now Only” atua como um projeto catártico e terapêutico. Embora ele seja acusticamente repetitivo, a proficiência e a sinceridade lírica permitiu criar um disco comovente e perspicaz. “Now Only” é apenas isso: complexo, impressionante e uma das melhores coisas que Phil Elverum já lançou!

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Favorite Tracks:

“Distortion” / “Now Only” / “Earth”.

São Paulo, 22 anos, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas e séries. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.