Review: Morrissey – California Son (2019)

Versões de “Don’t Interrupt the Sorrow”, de Joni Mitchell, e “Only a Pawn in Their Game”, de Bob Dylan, são surpreendentemente persuasivas. Mas em outros lugares, as coisas não conseguem empolgar da maneira que deveriam.

Trinta anos atrás, Morrissey era o grande líder da banda The Smiths. Todos adoravam sua mistura de sentimentalismo e indiferença, sua estranheza, seu cabelo e o grande amor pela poesia romântica. Acima de tudo, o público amava suas letras cheias de sensibilidade e compaixão. Em 2019, Morrissey está de volta com “California Son”, um disco com covers dos anos 60 e 70 – com músicas de Jobriath, Joni Mitchell e Bob Dylan. Mas o ex-vocalista dos Smiths também retorna à cultura popular e política, na forma de um homem estranhamente diferente. O cara sensível tornou-se um membro vocal de extrema-direita que faz uma série de declarações deprimentes. Dito isto, é importante afirmar que a melhor maneira de apreciar sua música é abordá-la como uma obra de arte, avaliando-a em seus próprios méritos musicais e líricos e separando-a de qualquer divergência que você tenha com o caráter, estilo de vida ou crenças pessoais do artista. É o caso desafiador que você terá que enfrentar quando ouvir o décimo segundo álbum de estúdio do Morrissey – que também é conhecido por seus pronunciamentos exagerados que às vezes se aproximam do absurdo ou de valores políticos questionáveis. Muitos críticos e ouvintes não conseguem ver através de sua música por conta de suas declarações. Portanto, simplesmente ignore todos esses aspectos não musicais antes de ouvir o “California Son”. Afinal, a música – em seu sentido mais puro – é apenas instrumentação, ritmo, melodia e letra.

Nascido em 22 de maio de 1959, em Davyhulme, Lancashire, Inglaterra, Morrissey é conhecido como o vocalista da lendária banda The Smiths, cuja carreira durou de 1983 a 1987. Logo após o término do grupo, ele embarcou em uma carreira solo, lançando o bem-sucedido “Viva Hate” (1988), traçando um caminho duradouro e atingindo um status bastante polarizador, principalmente por causa de suas visões políticas muitas vezes arraigadas. Infelizmente, agora chegou ao ponto em que é impossível mencionar Morrissey sem falar de política. Usar um distintivo de lapela do For Britain Movement (partido político do Reino Unido) na TV dos Estados Unidos parece indicar que ele é realmente fã da extrema-direita. Seu novo álbum, uma explosão imaginativa de covers intrigantes, incluindo várias colaborações, pode ser uma tentativa de levar a conversa adiante, mas, para muitos, as coisas já foram longe demais. O título do álbum pode parecer estranho, mas Morrissey não foi repatriado; em vez disso, ele simplesmente mostra sua afinidade pela música pop americana dos 60 e 70. Como um artista que sempre apresenta uma perspectiva intensamente pessoal e excêntrica, Morrissey usa o inevitável para atrair os fãs. A seleção de músicas sugere nostalgia, mas os arranjos vibrantes do produtor Joe Chicarelli ignoram o som do passado, enquanto as pronúncias do Morrissey tornam cada música palpável e até mesmo urgente. À medida que ele envelhece, seu pessimismo cultural e sua nostalgia são transformados em uma misantropia flexionada.

Sua última manifestação foi o mencionado apoio a um partido político tóxico. A consumação do longo flerte do ex-vocalista dos Smiths com a extrema-direita britânica pode parecer incidental ao seu mais recente projeto. Mas é impossível experimentar o “California Son” sem recuar da versão ruim que Morrissey fez de si mesmo. O álbum começa com um cover de “Morning Starship” do ícone gay Jobriath, também conhecido como Bruce Wayne Campbell. Embora Ed Droste, do Grizzly Bear, seja creditado na música, sua contribuição não é muito clara. Essa faixa o vê apresentando seu reconhecível barítono sobre licks de guitarra e cravo, mantendo-se fiel à versão original e abrindo novos caminhos para si mesmo. Sua versão é um pouco mais psicodélica em termos de produção e oferece um som mais eletrônico que entra em consenso com o século XXI. Ainda assim, a música permanece essencialmente fiel à sua inspiração, espelhando de perto sua forma e melodia originais. Enquanto “Don’t Interrupt the Sorrow”, da Joni Mitchell, é surpreendentemente terna e sonhadora, é “Only a Pawn in Their Game”, do Bob Dylan, onde Morrissey fornece o maior choque do repertório. O arranjo de Chicarelli e Jesse Tobias remete ao som agudo das baladas inglesas e irlandesas, evocando a tradição de luta e protesto. A leitura de Morrissey tem uma ressonância surpreendente. Mas o choque vem de alguns detalhes específicos que a torna na faixa mais audaciosa do “California Son”.

“Only a Pawn in Their Game” foi coletada do álbum “The Times They Are a-Changin'” (1964), que também contou com a alarmante “The Lonesome Death of Hattie Carroll”. O registro chega num momento em que as virtudes políticas se tornam questionáveis. Os covers afirmam uma grande questão moral – especialmente sua comovente versão do protesto “Days of Decision” de Phil Ochs. Densa com imagens de violência racista, a mensagem progressiva da música adquire uma nova dimensão nas mãos de um cantor que adotou um distintivo decorado com o tridente vermelho e preto da For Britain Movement. Ele também mostra seu considerável alcance vocal em “It’s Over” do Roy Orbison. Sua voz soa boa como sempre, mas os arranjos não possuem o mesmo brilho. Há uma introdução comovente sobre um simples violão, enquanto a tristeza é maior do que a soma de suas partes. A guitarra, teclado, saxofone e a percussão lembram as técnicas de produção de estúdio dos anos 60. A versão de “Wedding Bell Blues” traz Morrissey ao lado de Billie Joe Armstrong do Green Day. O chocante piano nos remete aos primeiros álbuns solo do Morrissey, mas os backing de Armstrong não são imediatamente reconhecíveis. Originalmente interpretada por uma mulher, a mensagem da música é deliciosamente esquisita quando Morrissey fala: “Oh Bill / Eu te amo tanto / Eu sempre vou te amar / Eu olho para você e vejo / Os olhos apaixonados de maio / Ah, mas eu alguma vez verei / O dia do meu casamento?”.

O cover de “Loneliness Remembers What Happiness Forgets” da Dionne Warrick apresenta um trabalho de guitarra acústica reforçada por arranjos de metais, enquanto Morrissey opina com sua voz exuberante. Novamente, a música se encaixa em sua postura, especialmente quando ele canta: “A solidão lembra o que a felicidade esquece / Eu tive que perder você para lembrar / A vida não é realmente toda luz do sol e risos”. O hit de 1972 do Carly Simon, “When You Close Your Eyes”, foi atualizado com baterias eletrônicas de inspiração vagamente trip hop. Uma assistência vem da violinista e cantora Petra Haden, que tocou com Tito & Tarantula e a banda The Decemberists. A piada sonhadora de Morrissey é perfeitamente adequada às letras de Simon quando ele canta: “Grande surpresa / Você foi informado que não está dormindo / Por mais que você tente / Você nunca foi feito realmente para chorar”. “California Son” serve como um lembrete importante de, que antes de ser uma estrela, ele era um fã obsessivo de música. Um álbum cheio de canções profundas de artistas que não associamos imediatamente ao Morrissey. Mas em todos os casos, o icônico líder dos Smiths encontrou músicas que combinam com ele, e que foram grandes influências em suas próprias composições. Para os fãs dispostos a ignorar a incorreção política do Morrissey, “California Son” é mais uma prova de que seu talento não mostra sinais de declínio.

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Favorite Tracks:

“Morning Starship” / “Don’t Interrupt the Sorrow” / “Only a Pawn in Their Game”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.