Review: Miley Cyrus – SHE IS COMING EP (2019)

Embora tenha duas faixas consistentes, “SHE IS COMING” é um EP desleixado e notavelmente repetitivo. A coisa mais surpreendente é o quanto ela soa desapegada.

Miley Cyrus está esculpindo um caminho para encontrar sua voz – mas isso não está tão claro em seu novo EP, “SHE IS COMING”. Em outubro de 2013, ela mostrou um lado mais indomável de si mesma. Naturalmente, o álbum fez muito sucesso, inclusive dando a Cyrus sua primeira indicação ao Grammy. Ao se desviar para o mundo do hip-hop, surgiu sentimentos mistos. Ela trabalhou duro para se livrar daquele status inocente de estrela infantil da Disney com a infame performance no Video Music Awards. Mas todos podemos concordar que a apropriação cultural com o único propósito de exploração é insípida e extremamente desrespeitosa. No caso da Miley Cyrus, não há como negar que esse álbum foi considerado um de seus projetos mais diversos até o momento, e os hits falam por si. A execução da liberdade criativa é um processo complicado e muitas vezes comprometedor. Quando avançamos para 2017, a ouvimos criticando abertamente a natureza tóxica do hip-hop em uma reportagem da capa da Billboard. Na entrevista, ela expressou como se sentiu alienada por todo o materialismo superficial e linguagem sexual. Então ela voltou às suas raízes e se distanciou de determinadas polêmicas. “Malibu” inicialmente conquistou o público e o início de uma nova era parecia promissor, mas “Younger Now” (2017) acabou sendo um completo fracasso de vendas. Ao falar sobre seu próximo projeto para a Vanity Fair no início deste ano, Cyrus detalhou como ela combinou elementos de pop, música psicodélica e hip-hop. Vale ressaltar que ela se assumiu como pansexual em 2015.

Naquele mesmo ano, fundou uma organização sem fins lucrativos em prol da comunidade LGBT. Seis anos depois do “Bangerz” (2013), a ex-estrela da Disney finalmente se casou com o amor de sua vida, Liam Hemsworth. Às vezes é difícil encontrar uma artista e mulher mais madura e sofisticada neste EP. “SHE IS COMING” sofre porque ela apresenta diferentes humores e lados de si mesma ao invés de dobrá-los perfeitamente em um processo coeso. Parece que ela está trabalhando para descobrir a si mesma – ela ainda não percebeu a soma de suas partes. Composto por seis faixas, o EP é projetado em menos de 20 minutos. O EP vê Cyrus se apoiando em sua sexualidade de maneira mais agressiva. Ela se reconecta com Mike WiLL Made-It junto com Mark Ronson e Andrew Wyatt para produzir faixas com Ghostface Killah, RuPaul e Swae Lee. No entanto, essas colaborações não são suficientes para transportar este espectro de bagunça; tudo é executado sem qualquer senso de direção. Deixando as piadas sexuais e trocadilhos de lado, é um EP muito flácido. Na primeira escuta, “SHE IS COMING” se encaixa entre o “Bangerz” (2013) e o “Miley Cyrus & Her Dead Petz” (2015). Longe estão os suaves dedilhados de guitarra acústica e contemplações inocentes do “Young Now” (2017); “SHE IS COMING” combina a influência de hip-hop do “Bangerz” (2013) com o devaneio lúcido do “Miley Cyrus & Her Dead Petz” (2015) e o pop rock de seus primeiros discos. A primeira faixa deixa claro por que ela está usando a camisa do “Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols” (1977) da Sex Pistols na capa – não, Miley Cyrus não se tornou uma artista de punk rock.

Em vez disso, ela está lutando pelo direito das mulheres no feminismo de “Mother’s Daughter”. Enquanto a batida de trip hop é refrescantemente nova para ela, as letras possuem referências mais brandas. “Não foda minha liberdade / Eu vim pra me dar bem / Sou safada, sou má / Deve ser alguma coisa na água / Ou o fato de eu ser filha da minha mãe”, ela canta no refrão. São linhas relevantes na luta das mulheres para terem autonomia sobre seus corpos. É notável neste momento que Miley Cyrus esteja dobrando uma mensagem de liberdade. Ela faz referência a várias coisas que as mulheres são ou foram caracterizadas como – especialmente pelos homens. Independentemente disso, ela infunde uma ampla personalidade – chegando a se identificar como uma aberração e bruxa: “Sou uma aberração, sou uma aberração, aleluia / Todos os dias vou transar com você como eu quiser / Eu sou um crocodilo do Nilo, uma piranha”. “Mother’s Daughter” abre com uma introdução inspirada no trap antes de mudar para um ritmo pop mais tradicional. De alguma forma, o tom mais suave expressa letras seriamente fortalecedoras sobre sua atitude em relação às coisas que as pessoas falam sobre ela. Cyrus aceita plenamente sua reputação de criança selvagem, condenando os haters e aqueles que querem oprimir sua liberdade. A batida percussiva realçada por notas sintéticas de piano adiciona camadas à música, enquanto a vibração é mais orientada para o pop rock. Sob a forte batida, sua voz é intensificada pela linha de base reverberante e tem uma qualidade surpreendentemente irritada.

Ademais, não deixa de ser uma homenagem para sua própria mãe, Tish Cyrus. A breve “Unholy” continua a inclinação rebelde do “SHE IS COMING”. Ainda assim, Cyrus parece mais madura do que seis anos atrás. Nós sabemos onde ela exatamente está, quando o único verso diz: “Acordei no meio de um colapso / Faço sexo na mesa com a comida”. O ruído é estridente e sedutor, embora ela transmita confusão sobre o aspecto divertido da instrumentação. Essa faixa traz de volta as batidas de hip-hop para o seu som. A produção de John Cunningham tem um ritmo descontraído, conforme ela admite: “Tô um pouco bêbada, eu sei / Vou ficar chapada pra caramba / Sou um pouco profana / E daí? Todo mundo é”. Embora não seja tão boa quanto “Mother’s Daughter”, tem um charme silencioso. Há um elemento folk na entrega vocal que compensa a produção trap. A batida gagueja e brilha atrás do lirismo sujo; sua “falta de santidade” é desesperada, melancólica e, para ela, necessária. Mais uma vez, Cyrus assume o controle de sua reputação indomável e sua forma de festejar. Em “D.R.E.A.M.”, ela entra na era de ouro do hip-hop, experimentando não apenas samples, mas uma reviravolta nas letras do clássico “C.R.E.A.M.” do Wu-Tang Clan. Uma música de R&B viciante que instantaneamente fica presa na sua cabeça – até que o Ghostface Killah aparece com um verso completamente desconexo. O abuso de substâncias é um problema sério, mas é difícil dizer se ela está ostentando ou chamando a atenção do ouvinte.

As próprias letras parecem animar as noites nubladas por drogas, ao passo que o tom quase frágil de sua voz é emparelhado com uma profunda batida e guitarra sintetizada. A quarta faixa, “Cattitude”, instantaneamente me lembrou de “4×4” e “SMS (Bangerz)”, uma vez que a velocidade do ritmo é similar. Nesta canção, Miley Cyrus e RuPaul fazem rap sobre o amor por sua genitália. Ambos falam explicitamente sobre o poder de seus desejos sexuais e como eles o possuem. Além disso, a música possui uma citação controversa: “Eu te amo Nicki, mas eu escuto Cardi”. Aparentemente, ela parece estar tomando o partido da Cardi B e não demonstra ter medo de se meter em uma disputa. Curta, embaraçosa e transbordando atitude, Cyrus pisa em uma direção inesperada. Nas letras, ela também menciona sua cidade natal e relembra como foi transformada em música por Billy Ray Cyrus quando tinha 3 anos. “Cattitude” é uma atrevida música de hip-hop com batidas vigorosas que é melhor em sua ideia do que na execução. “Aumente sua gratidão, baixe sua bola / Eu amo minha buceta, isso significa que eu tenho gatitude”, ela canta no refrão. Os dois cantam sobre uma batida inspirada pelo house, mas às vezes as letras são dignas de piada. Dito isto, provavelmente a melhor coisa é a interpolação de “rum-pum-pum-pum” de “Work It” da Missy Elliott. Isso nos leva a outra colaboração: “Party Up the Street”, com Swae Lee. Uma peça de hip-hop drogada e sonolenta com uma dor e melancolia debaixo dos vocais.

Swae Lee estabelece o clima frio e enigmático cantando o primeiro verso. Ele é acompanhado por Cyrus no refrão, enquanto ambos colaboram no restante da música. Os acordes emocionais, o refrão atmosférico e os violinos foram produzidos por Mike WiLL Made-It. Co-gravada com Mark Ronson, “The Most” é vulnerável, confessional e a música mais tradicional do EP. A canção que mais se aproxima da sonoridade do “Younger Now” (2017). Um tributo a um relacionamento que funciona contra todas as probabilidades. “Eu não sei porque você ainda acredita em mim”, ela reflete. Mas o refrão ilumina até mesmo o mais sombrio dos pensamentos. Um momento maduro que capta os altos e baixos de um relacionamento. “The Most” é um lembrete de que as baladas são uma das maiores forças da Miley Cyrus. É uma pena que esses momentos se percam em meio ao caos. Ela amadureceu em termos de estilo; a maioria das músicas tem uma mistura interessante. No entanto, ela ainda gosta de chamar atenção e do fator surpresa. Com isso em mente, “SHE IS COMING” é enferrujado e honestamente não deveria ter saído do estúdio nessa condição. Cyrus pode continuar alegando que sua influência supostamente vem de seu entorno e das pessoas que fazem parte de sua vida, mas não há o menor sinal de conexão em qualquer música. Ela sempre será uma talentosa cantora e compositora, mas nenhuma dessas habilidades entrou em cena nesse EP. Ainda este ano ela lançará o “She Is Here” e o “She Is Everything”, enquanto as dezoito faixas juntas formarão o álbum “She Is Miley Cyrus”.

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Favorite Track:

“Mother’s Daughter”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.