Review: Lily Allen – No Shame (2018)

Lançamento: 08/06/2018
Gênero: Electropop
Gravadora: Parlophone Records
Produtor: Lily Allen, Seb Chew, BloodPop, Dre Skull, Fryars, Ezra Koening, Cass Lowe, Jack Nichols-Marcy, P2J, Emre Ramazanoglu, Samuel Reinhard, Mark Ronson e Show N Prove.

Se o “Sheezus” (2014) foi Lily Allen em sua forma mais irônica, o “No Shame” marca um retorno à sinceridade – conforme ela fala sobre sua maternidade e relacionamentos fracassados.

Ao distanciar-se do “Sheezus” (2014), Lily Allen provocou uma mudança em sua abordagem sonora. A cantora londrina não dispensou inteiramente sua truculência, mas, fiel ao seu título, “No Shame” é uma mistura sincera que reflete sobre comportamento autodestrutivo, alcoolismo, maternidade e o fim de seu casamento. Para quem não sabe, a carreira da Lily Allen explodiu em 2006 com seu primeiro single mainstream, o hino “Smile”. Isso impulsionou a britânica para o número #1, colocando-a aos olhos do público e ganhando indicações para o Grammy Awards, BRIT Awards e Video Music Awards. Ela lançou três álbuns completos e dividiu palcos com outros artistas, incluindo seu produtor de longa data, Mark Ronson. Tal como acontece com tantos artistas hoje, sua carreira possui controvérsias e tragédias pessoais, mas ela enfrentou cada desafio e seguiu em frente. Precisando de algum tempo para si mesma, ela recentemente se afastou dos estúdios por quatro anos para explorar sua própria mente. O resultado final é o “No Shame”, um testemunho profundamente pessoal de quatorze faixas. O álbum mostra Allen mergulhando profundamente nas cordas do seu coração, usando a música como uma catarse para tentar consertar os danos que a vida lhe causou. Como a própria admitiu, o “Sheezus” (2014) foi um passo em falso: o subproduto de uma crise de identidade e pressões de sua gravadora. Em contraste, “No Shame” mostra que ela abandonou essa distração e explorou traumas pessoais a fim de criar um set mais forte.

Dessa vez, sua vulnerabilidade se tornou a força motriz, e essa franqueza ecoa na simplicidade dos arranjos. O fim do seu casamento também trouxe um fim ao ritmo otimista de sua música. Em “No Shame” a produção está minimalista, com apenas certos elementos de trap nos lembrando que ainda trata-se de um álbum contemporâneo. Algumas faixas são um pouco desanimadoras, mas aparentemente é o que elas pretendiam ser. As músicas são frias e carentes de paixão. Musicalmente, o modelo de Lily Allen de lançar shades sobre o reggae ou electropop ampliou-se e abraçou novas formas. Baladas introspectivas ocupam inesperadamente uma seção intermediária, enquanto os números de reggae oferecem algum charme. No caminho, o familiar selo de produtores, incluindo Mark Ronson e Ezra Koenig, do Vampire Weekend, chamam atenção. Acessível sem ser agressivo, “No Shame” é reconhecidamente dificultado pela falta de singles cativantes e pelo som menos imediato. No entanto, é preciso admirar sua insistência em querer fazer a música que ela quer fazer. Mesmo na ausência de faixas radiofônicas ou de sua personalidade impetuosa, Lily Allen continua desafiadora e sem remorso como sempre. “No Shame” às ​​vezes é emocionalmente elaborado, com reflexões sobre as expectativas que ela depositou sobre si mesma. Melodicamente, ele abrange o electropop, baladas de piano e inclui colaborações com Giggs, Lady Chann e Burna-Boy.

Há momentos brilhantes, além de baladas maduras mais despojadas, carregadas apenas pelo piano e sua voz. As mudanças em “No Shame” são sutis na melhor parte, mas fazem o truque de recriá-la como uma personagem simpática e envolvente. O Greg Kurstin ficou de fora, enquanto Mark Ronson retornou. Embora de forma fugaz, os sons de reggae e ska dominam a paisagem sonora em alguns momentos. Colocadas no meio do álbum há um tríptico de músicas que provam que Lily Allen cresceu consideravelmente como compositora. A fama não comprou sua felicidade e suas escolhas parecem entrelaçadas com um modo padrão de auto-sabotagem. A primeira faixa, “Come on Then”, a vê abordando algumas das controvérsias e histórias que perseguiram por anos. É menos um convite para começar uma briga, e mais uma chamada para se colocar no seu lugar e experimentar o quão dura sua vida tem sido. Ela reflete sobre os caminhos que tomou e os altos e baixos de sua carreira. Sonoramente, Allen parece tão fabulosa como sempre, mas ironicamente admite que é uma mãe e esposa ruim. Os vocais sonhadores e a atmosfera eletrônica fornecem a base perfeita para suas letras confessionais. Em seguida, o rapper Giggs fica responsável pelo primeiro verso de “Trigger Bang”, uma admoestação de falsos amigos. É uma música com uma vantagem mórbida que funciona muito bem. A vibração sonhadora permanece, mas adota contundentes batidas de hip-hop.

A cativante “What You Waiting For?” é um aceno para as raízes de reggae e ska da Lily Allen, local onde ela mergulha em assuntos profundamente pessoais – discutindo acerca do seu casamento e posterior divórcio. Burna Boy injeta um pouco de reggae em “Your Choice”, uma exploração ainda mais generalizada sobre relacionamentos. Embora seja uma música pop cativante e soberbamente compatível com as rádios, ela não tem o mesmo poder das faixas mais alucinantes do álbum. As batidas sinuosas de “Lost My Mind” servem de base para as confissões da cantora, que resolve questionar sua própria sanidade. “Higher”, por sua vez, é uma canção discreta e melancólica na qual Lily Allen aborda o drama de um relacionamento. Sua produção despojada apresenta um sutil riff de guitarra e uma suave percussão. É uma canção descontraída e discreta que fornece uma nova direção sonora para ela. Mas em vez de um conteúdo lírico sarcástico, explícito e atrevido, ela preferiu explorar algo mais sincero e reflexivo. “Desculpe, mas eu conheço o seu tipo / Não serei prejudicada”, ela canta. No refrão, Allen apenas sussurra a palavra “higher”, conforme experimenta uma produção mais simples e tranquila. Inicialmente, é difícil de se acostumar com “Higher”, mas posteriormente você consegue conectar-se com sua vibe e ritmo mais lento. A perspectiva ambígua de “Family Man” é o mais próximo que Lily Allen chegará de uma balada. Novamente, há um senso de honestidade percorrendo todas as veias dessa canção – reconhecendo o outro lado de uma situação difícil.

Com acompanhamento de um piano, Allen espera que seu relacionamento sobreviva. Enquanto isso, a delicada “Apples” é uma pequena canção que a vê lamentando os erros ancestrais e se desculpando por magoar o coração de alguém. Uma balada de guitarra com uma voz íntima, onde ela confirma que repetiu os mesmos erros cometidos por sua família. Essa faixa leva as coisas por uma rota muito íntima, como podemos notar no segundo verso: “Eu senti que só era bom para escrever os cheques / Eu gosto de uma bebida, mas isso não faz de mim um desastre”. Enquanto isso, “Three” é uma balada de piano ligeiramente atrevida escrita da perspectiva de uma das filhas da cantora. Uma música inocente que se move de forma despreocupada com possíveis jargões que sua filha de três anos usaria. Há um sentimento relacionável causado pelo título de “Everything to Feel Something”, uma música ancorada pelo balanço jazzístico de um piano. O lamento do seu coração partido está se movendo, e há um trauma interno que brilha em cada linha que ela canta. Em “Waste”, Lily Allen se volta mais uma vez para os relacionamentos tóxicos, dessa vez com ajuda de Lady Chann. Apesar do tema escuro, a constante batida de reggae adiciona uma natureza bem divertida em seu escopo. “Waste” entra em ação após um segmento mais moderado, formado por quatro baladas de piano, e nos leva de volta para a época onde Allen era sarcástica e cantava com apoio de ritmos de ska e reggae.

Enquanto o baixo ancora a carismática “My One”, Lily Allen está pensativa em “Pushing Up Daisies”. Essa canção toca em seu lado mais romântico, porém, com um humor desconcertante. “Cake” é um golpe no patriarcado, pois questiona por que uma mulher não pode ocupar múltiplas facetas. “Eventualmente, você receberá um pedaço desse bolo patriarcal”, ela promete nesse hino feminista. “No Shame” é um álbum muito pessoal, mas além de toda incerteza e dor que ela canta, Lily Allen encontra tempo para lembrar as coisas boas que possui. Este registro é um testemunho de perseverança; mesmo nos dias mais sombrios. Sonoramente falando, é um material que brilha mais quando ela abandona as batidas de hip-hop recicladas. No entanto, é claramente um álbum que ela precisou fazer. Repleta de epifanias pessoais e confissões de cortar o coração, o repertório mostra que não há motivos para sentir vergonha de suas fraquezas. Em seu fluxo e refluxo, “No Shame” tem a honestidade de uma artista de peso que está redescobrindo sua própria identidade. Lily Allen nunca deixou os holofotes, por uma razão ou outra, mas com “No Shame” ela revisitou sua mentalidade com mais vigor e eloquência. Na superfície, é um bom disco feito por uma artista extremamente talentosa. Você não precisa cavar fundo para apreciar as mensagens mais complexos que alimentam a tracklist. Lily Allen usou suas experiências e as transformou em um material promissor.

  • 63%
    SCORE - 63%
63%

Favorite Tracks:

“Come on Then” / “What You Waiting For?” / “Higher”.

São Paulo, 22 anos, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas e séries. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.