Review: Khalid – Free Spirit (2019)

A honestidade é muitas vezes perdida no meio da superprodução – tanto no som quanto no lirismo. É cativante e ocasionalmente instigante, mas sua originalidade parece que foi deixada pelo caminho.

Quando tinha apenas 19 anos, Khalid lançou um álbum quase excelente. “American Teen” (2017) deu uma lufada de ar fresco no R&B – com “Location” e “Young Dumb & Broke” soando como hinos da Geração Z. Ele capturou a energia inquieta dos adolescentes do ensino médio, misturando murmúrios com um barítono penetrante e cheio de alma. Naquele ano, ele citou Kendrick Lamar, Chance the Rapper, James Blake e Father John Misty como suas principais influências musicais. Em 2018, Khalid resolveu lançar apenas um EP, intitulado “Suncity” (2018). Entretanto, menos de um ano depois, ele retornou com seu segundo álbum de estúdio. Quando ele estava trabalhando em sua estreia, se misturou com amigos e escritores-fantasma bastante promissores. Agora, Khalid se uniu com hitmakers consagrados como Stargate, Disclosure, Hit-Boy e Murda Beatz. Um dos perigos de confiar tanto nos hitmakers é que suas músicas podem parecer com as de outros artistas. Hoje, ele tem 21 anos e fez uma transição bem sucedida para o profissional que se tornou. O “Free Spirit” tem algumas faixas simplesmente fantásticas. Mas comparado ao seu antecessor, é muito mais convencional e menos focado. Durante uma recente entrevista, Khalid falou sobre a pressão que sentiu ao gravá-lo: “Você tem sua vida inteira para escrever seu primeiro álbum. Você não tem toda a sua vida para escrever o segundo. Com o seu segundo, você tem que escrever mais sobre o que as pessoas querem”.

Ele tem trabalhado duro para dar aos fãs exatamente o que eles querem. Juntamente com algumas colaborações no topo das paradas, ele arrumou tempo para criar seu segundo registro. Embora seja admirável ver a dedicação de alguém tão jovem, infelizmente “Free Spirit” não atingiu as expectativas. Desde que “Location” surgiu em 2016, Khalid tem sido uma presença constante nas plataformas de streaming, e enquanto os fãs podem desfrutar do novo material, o período relativamente curto entre os lançamentos acabou prejudicando seu poder criativo. Sem ter tempo para crescer, a inspiração oitentista que definiu seu álbum de estreia não conseguiu evoluir. Como você poderia esperar, os vocais estão no ponto – fornecendo alguns tons sombrios e amorosos recentemente popularizados pelo The Weeknd – mas não parece que Khalid tenha algo de novo para dizer. É como se ele estivesse sendo pressionado para manter presença nas paradas, independentemente de estar realmente pronto ou não. Para início de conversa, a tracklist é muito exagerada, visto que possui dezessete faixas – duas das quais já tinham aparecido no “Suncity” (2018). Às vezes, o álbum oferece uma melodia pop super-produzida, matematicamente perfeita e perfeitamente sem graça. “Intro”, por exemplo, é grande e brega. Outro problema é que a maior parte do repertório se confunde, assim como as palavras resmungadas que definem o seu estilo de cantar. As exceções incluem os singles “Better” e “Talk”, ambos os quais se destacam graças à energia que Stargate e Disclosure depositaram.

A capa de “Better” é uma homenagem ao Texas, seu estado de nascimento. Observe como o horizonte conquista tanto o céu quanto a figura do topo de uma cordilheira na cidade de El Paso. Além dos ótimos vocais, o trabalho de produção é sólido – composto por uma programação de bateria, piano e calorosos sintetizadores. O som geral não é tão ornamentado, mas incrivelmente eficaz. Liricamente e tematicamente, “Better” gira em torno do amor. No primeiro verso, ele canta: “Ninguém tem que saber o que nós fizemos, me doeu quando você se foi”. O refrão é simples, mas muito convincente: “Nada parece melhor do que isso / Nada parece melhor, oh não / Nós não temos que esconder, isso é o que você gosta, eu vou fazer”. Aparentemente, o cantor está tentando sair da friendzone, cantando frases como: “Você diz que somos apenas amigos, mas eu juro quando ninguém está por perto / Você põe minha mão perto do seu pescoço para nos conectar, você está sentindo isso agora?”. “Better” é um R&B mal-humorado que brinca com algumas batidas de hip-hop. Khalid se mantém vocalmente vulnerável e apresenta uma honesta entrega lírica. Com um enredo doce e reflexivo como este, ele consegue transmitir a emoção necessária. Depois de apresentar uma introdução instrumental de 20 segundos, que lentamente nos prepara para os vocais, “Better” encapsula lindamente a sensação de se apaixonar por alguém pela primeira vez. Sua melodia relaxante é ideal para momentos românticos.

E embora a canção não seja tão impactante, Khalid permaneceu fiel às suas raízes de R&B e soul. “Talk”, por sua vez, mistura habilmente uma vibe de R&B com elementos eletrônicos, a fim de criar uma peça charmosa sobre conversar com alguém especial. Ela possui uma animada bateria e sintetizadores incrivelmente elásticos que brotam entre os vocais. “Eu nunca me senti assim antes”, ele canta. “Peço desculpas se estou indo muito longe / Não podemos apenas conversar? / Não podemos apenas conversar? / Descobrir para onde estamos indo”. Liricamente ele olha para os aspectos da comunicação entre um casal, algo muitas vezes deixado para trás. Sua voz tem aproximadamente a mesma singularidade que você encontra em artistas como SZA – peculiar, mas ainda viciante. Musicalmente, possui a vibe pela qual o Disclosure é conhecido – uma fusão inteligente de música eletrônica e pop. Essa canção é quase um apelo para erradicar os erros cometidos no passado e simplesmente conversar. Em si, é uma peça bem simples, mas completamente digna de repetição. O Disclosure adotou uma abordagem de produção similar ao seu trabalho com o Sam Smith, permitindo que os vocais soulful do Khalid brilhem confortavelmente. Embora tenha uma produção mais eletrônica, “Talk” permanece fiel ao seu som. Quanto à melodia, é cativante na primeira audição e definitivamente radio-friendly. Um single elegantemente produzido graças ao grande talento do Disclosure. Os sintetizadores são quentes, mas também têm a quantidade certa de eficiência.

A batida em si é perfeitamente adequada para o Khalid. Como sempre, ele oferece um forte desempenho vocal, mostrando mais uma vez seu tom inescapável e distinto. Adicionando força à “Talk”, há um refrão memorável que serve como a cereja no topo do bolo. Outro destaque é o new wave de “Hundred”, que equilibra perfeitamente as letras sombrias com um contraste envolvente. Ela aumenta a força da produção com uma batida mais pesada, que ainda consegue se encaixar com as faixas vizinhas. Outro momento grandioso é sua colaboração com John Mayer em “Outta My Head”. Uma canção pop otimista que, embora não seja inovadora, consegue parecer uma grande estrela. É tudo o que você espera do Khalid. Liderado por um riff de guitarra, é um número groovy e cheio de emoção. A música mergulha na luxúria e obsessão que vem quando você se apaixona e não consegue tirar a pessoa da cabeça. “Porque os dias melhoram quando você está aqui, então eu tenho que manter isso / Enlouquecendo e eu não consigo tirar você da minha cabeça”, ele canta no refrão. No entanto, os destaques são poucos e distantes entre si, em um álbum que prioriza a vibração de cada música em vez das próprias músicas. Essa abordagem faz do “Free Spirit” um projeto consistente, mas também facilmente esquecível. Ele funciona melhor entrelaçado nas playlists do Spotify, em vez de um corpo de trabalho coeso. Isto é particularmente frustrante quando você considera o quão bem o álbum trabalha em um nível técnico.

Em “Bad Luck”, Khalid prefere uma melodia ascendente e mais suave, enquanto filtra suas emoções decorrentes da depressão. Ele enfatiza a verdade sobre estar apaixonado: você tem que amar a tudo, não apenas às partes boas. Enquanto isso, “My Bad” – lançada como single promocional – tem uma gagueira jazzística. Felizmente, os instrumentos utilizados criam uma forte ligação entre ela e a faixa anterior. “Right Back” tem um ritmo sintetizado que lhe dá uma vibe dos anos 90, mas mantendo a sincronia com as tendências atuais. A maior parte do repertório possui sintetizadores melancólicos que podem se tornar a trilha sonora de alguma viagem no final da tarde. Da mesma forma, “Don’t Pretend”, “Paradise” e “Twenty One” também atingem tal objetivo. Vocalmente, Khalid floresce em “Self” e fornece tendências de soul em “Bluffin”. Porém, elas são facilmente perdidas no repertório obscuro, e o mesmo pode ser dito das letras. Linhas clichês como “a vida é o que você faz”, não fazem justiça ao tipo de honestidade emocional que Khalid exibe frequentemente em suas entrevistas. Há uma amarga ironia ao nomear o álbum de “Free Spirit”, porque Khalid parece muito mais cauteloso e amarrado aqui do que no “American Teen” (2017). As anedotas relatáveis ​​que tornaram o seu primeiro disco tão divertido foram colocadas em segundo plano, em favor de reflexões padronizadas sobre a fama. Dado o tempo de duração, é lamentável que Khalid não tenha exibido algum tipo de experimentação.

Musicalmente e liricamente, há pouca coisa desafiadora. O autoproclamado adolescente americano não é mais um adolescente, e já é hora de se abrir para novas experiências. Uma incursão recente no mundo do country sugere que Khalid é receptivo à experimentação. Mas se ele vai ou não trabalhar esse lado, é outra questão. “Free Spirit” é um trabalho tecnicamente sólido, mas infelizmente Khalid jogou pelo lado seguro para a satisfação dos seus fãs. Individualmente, as canções são ótimas, mas não atinge a nostalgia emocionante do “American Teen” (2017). Claro, os vocais permanecem consistentemente belos, não importa a música que ele cante. Então, independentemente do seu estilo convencional, sua voz é motivo suficiente para escutar o álbum. Seu controle vocal e entonação são consistentes ao longo de todas as frases e notas; ele cria uma qualidade relaxante que é incomparável para a maioria dos outros artistas. Mas dito isto, os aspectos positivos não superam a sensação de que Khalid não conseguiu encontrar a mensagem que estava procurando. Como um todo, “Free Spirit” é muito bem produzido, mas não tem aquela coisa especial que ele normalmente traz à sua música. Khalid tem apenas 21 anos. E assim como a maioria dos jovens de sua idade, ainda está se descobrindo. Certamente o talento está lá e ele pode ter uma longa carreira. Mas o “Free Spirit” é uma bagunça sem foco e muito carente de edição. O “American Teen” (2017) tinha uma personalidade e originalidade que ficaram ausentes por aqui.

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Favorite Tracks:

“Better” / “Talk” / “Saturday Nights”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.