Review: Kanye West & Kid Cudi – KIDS SEE GHOSTS (2018)

Lançamento: 08/06/2018
Gênero: Hip-Hop, Rap Rock, Pop Psicodélico
Gravadora: G.O.O.D Music / Def Jam Recordings
Produtores: Kanye West, Kid Cudi, André 3000, Andrew Dawson, Andy C, Benny Blanco, BoogzDaBeast, Cashmere Cat, Dot da Genius, Evan Mast, Francis and the Lights, Jeff Bhasker, Justin Vernon, Mike Dean, Noah Goldstein, Plain Pat e Russell “Love” Crews.

“KIDS SEE GHOSTS” é um álbum formidável que deixa o ouvinte com uma impressão muito melhor do que aquela causada pelo “ye” (2018). Todas as músicas são intrigantes e repletas de amostras irresistíveis.

Um álbum como “KIDS SEE GHOSTS”, uma colaboração entre Kanye West e Kid Cudi, faz sentido quando você lembra de tudo que aconteceu com os dois. É um projeto sobre liberdade e, de certa forma, parece o álbum que ambos gostariam de ter feito há anos. Igualmente ao “Daytona” (Pusha-T) e o “ye” (Kanye West), “KIDS SEE GHOSTS” têm apenas sete faixas cronometradas em 24 minutos. Todos esses discos foram produzidos por West em Jackson Hole, como parte do projeto “Wyoming Sessions”. Além do “Daytona” (2018), “ye” (2018) e “KIDS SEE GHOSTS”, ainda será lançado nesse verão os álbuns “Nasir” (Nas) e “K.T.S.E.” (Teyana Taylor). Um disco tão curto pode ser arriscado, embora eficaz, se feito corretamente. Geralmente, é difícil para um artista estabelecer sua presença e fazer grande narrativas em um registro assim. Entretanto, Kanye West e Kid Cudi conseguiram fazer isso e exploraram as partes mais profundas e sombrias de suas vidas pessoais. Depois de passar por várias controvérsias por conta de suas declarações polêmicas, envolvendo o presidente americano e a escravidão, Kanye West tenta resgatar sua reputação. “ye” (2018), seu oitavo álbum de estúdio solo, não foi a explicação clara que todos esperavam.

Simultaneamente, é o seu registro menos aclamado até a presente data. Felizmente, “KIDS SEE GHOSTS”, o seu tão esperado álbum conjunto com o Kid Cudi, reafirma sua genialidade. Além disso, é a maior promessa musical do Kid Cudi, um artista que notoriamente participa da produção dos seus próprios álbuns. Os maiores esforços colaborativos entre West e Cudi poderiam direcionar este disco para algo como “808s & Heartbreak” (2008). Porém, West não é mais o mesmo daquele álbum de dez anos atrás. A vida o endureceu, especialmente depois da morte de sua mãe por causa de uma cirúrgia plástica. “808s & Heartbreak” (2008) era um disco intergalático, conduzido principalmente por pesadas baterias e sintetizadores. Era um projeto sombrio, emotivo e cheio de auto-tune. Um álbum que solidificou-se como um dos mais transformadores da última década. Ao lado do Cudi, West empurrou sua angústia em faixas como “Welcome to Heartbreak”, “Heartless”, “Paranoid” e “RoboCop”. Tudo isso causou um contraste gritante da personalidade sombria do West exibida no “Graduation” (2007). “808s & Heartbreak” (2008) era gelado e causou uma ruptura. E, assim como uma ruptura na vida real, este álbum culminou em uma versão evoluída de West e Cudi, que mudaria a música pelos próximos dez anos.

Desde 2008, não há um álbum do Kanye West do qual o Kid Cudi não tenha participado. Mas com a chegada do “KIDS SEE GHOSTS”, fica a pergunta: eles são capazes de criar outro álbum tão inovador quanto o “808s & Heartbreak” (2008)? Embora seja comercializado como um álbum conjunto, parece mais um projeto do Kid Cudi, com alguns versos do Kanye West. Se esse disco é indicativo de alguma coisa, é que talvez o ego do Kanye West esteja encolhendo, já que este lançamento parece uma tentativa de finalmente colocar seus colegas em primeiro lugar. Em vez do Cudi se sentir como um enfeite, ele toma o centro das atenções para si. “KIDS SEE GHOSTS” é tudo o que “ye” (2018) não é, ou seja, convincente e conciso. Um registro que traz o que há de melhor nos dois artistas. Até agora, a brevidade não tem sido um ponto forte do Cudi, afinal seu álbuns anteriores são gigantes, como por exemplo o “Speedin’ Bullet 2 Heaven” (2015), que possui vinte e seis faixas e abrange 1 hora e meia de duração. Em contrapartida, as sete faixas contidas no “KIDS SEE GHOSTS” possuem menos de 24 minutos, e dão espaço para o Kid Cudi exibir uma sensação imaculada. Em “KIDS SEE GHOSTS”, Cudi renasce. É como se a base que West forneceu para ele, tenha lhe dado uma nova confiança e uma plataforma para brilhar.

Se a construção do “ye” (2018) é instável, o “KIDS SEE GHOSTS” é um produto completo e bem sucedido. Através da rotação de harmonias distorcidas, tambores maníacos, riffs sujos e amostras obscuras, intercalados com risadas demoníacas e um punhado de outros artistas, este álbum explora menos o rap tradicional e mais a música psicodélica. É mais parecido com os trabalhos da banda Tame Impala ou do Danny Brown, do que qualquer outro disco de rap. Sua arquitetura ambiciosa se assemelha a uma destilação melhorada da discografia eclética do Kid Cudi, tocando em quase todos os seus discos, do “Man on the Moon: The End of Day” (2009) até o “Passion, Pain & Demon Slayin'” (2016). A flexibilidade vocal do Cudi é o verdadeiro cúmplice do West, que, mais uma vez, extraiu um valor de grandeza da carreira do seu colega de destaque. A inspiração melódica e psicodélica do álbum equilibra suas forças com zumbidos de sintetizadores e floreios eletrônicos. Ao contrário do “ye” (2018), no entanto, este álbum não parece estar faltando algo. A criatividade está em pleno vigor e as faixas são introspectivas. A arte da capa dá uma boa noção de sua estrutura sonora, que destila, entre outros elementos, sobre amostras de Kurt Cobain e tambores meticulosamente programados.

Em suma, “KIDS SEE GHOSTS” é um triunfo que canaliza o gosto do Kid Cudi pela música psicodélica, soul, rap-rock e indie-rock. A faixa de abertura, intitulada “Feel the Love”, encontra Cudi gritando repetidamente: “Eu ainda posso sentir o amor”. Essa música é um bom exemplo do porquê de “KIDS SEE GHOSTS” ser tão eficaz. Os primeiros sintetizadores podem não ser impressionantes, mas espere até Pusha T terminar seu verso como convidado. É nesse momento que Kanye West espalha sons de armas, explosivos estrondosos e gigantescos sons de bateria. Ele cria efeitos sonoros realmente agressivos, enquanto Cudi continua repetindo a mesma frase sobre a produção bombástica e de alta energia. Os violentos ruídos improvisados carregam esse grande trecho da canção. A produção do Kanye West ao longo do álbum não é nada menos do que alucinante. “Feel The Love” serve mais como uma introdução para o álbum, uma vez que Pusha T possui o único verso da música. As mensagens de cada faixa no “KIDS SEE GHOSTS” são surpreendentemente sucintas. Muitas canções lidam de forma introspectiva, como a assombrosa “Fire” e sua estranha batida marchante. Kid Cudi e Kanye West falam sobre seus fracassos e eles encontram uma maneira de seguir em frente.

Cudi faz referências aos dias em que ele orava a Deus para que toda sua dor fosse embora. Aqui, ambos revelam que têm demônios que os assombram, mas nenhum quer ou permite que isso os defina. Guitarras rosnantes, bateria lo-fi e zumbidos de fundo fornecem a agitação dessa faixa. Embora também se desdobre através de uma estrutura musical não tradicional, “Fire” é construída em torno de “They’re Coming to Take Me Away, Ha-Haaa!” do Napoleon XIV. A música termina depois de dois minutos, enquanto você fica com uma batida distorcida e desalinhada de uma guitarra, que posteriormente leva você para a próxima canção. “4th Dimension” possui uma das produções mais impressionantes do álbum, uma vez que mostra a voz de Louis Prima cantando “What Will Santa Claus Say (When He Finds Everybody Swingin’)”. Só essa amostra do Louis Prima é suficiente para tornar essa canção em algo intrigante. Aqui, as batidas vão do agressivo ao refrigerado, embora isso não deixe a mensagem desconexa. Apesar de parecer preso no primeiro verso, Kanye West apresenta algumas linhas inteligentes que detalham um encontro sexual. O verso denso do Kid Cudi faz referências às suas lutas pessoais nos últimos anos. Deixando a bagagem para trás, os dois aproveitam esta oportunidade para lançar sua faixa mais pesada nas guitarras.

Em “4th Dimension” um calor extra é adicionado. Além da amostragem única de Louis Prima, ela é ancorada por uma batida oscilante e algumas das rimas mais atraentes do repertório. “Freeee (Ghost Town, Pt. 2)”, a continuação de “Ghost Town” do “ye” (2018), é provavelmente a música mais ambiciosa do registro. Ela também é baseada na ideia de críticas incessantes, mas se mantém ancorada na perspectiva de seguir em frente. Aqui, ambos trazem a liberdade mental, juntamente com um ótimo recurso de Ty Dolla $ign. As camadas vocais insanas e o modo como eles explodem quando gritam, é simplesmente incrível. Após a amostra do diálogo de Marcus Garvey, West entra com o gancho explosivo que fará você rir na primeira vez que ouvir. É um pouco dramático e talvez até estranho, mas inegavelmente divertido. O tom único do Ty Dolla $ign foi o ajuste perfeito para esta canção. Também vale a pena notar que Kid Cudi recebe seu próprio refrão e ponte para dizer: “Morri e voltei duas vezes / Agora estou livre”. Da mesma forma, é animador ouvir Kanye West gritar: “Eu não sinto mais dor / Adivinhe, querida? Eu me sinto livre”. Enquanto isso, os elementos de rock ajudam a transformar “Freeee (Ghost Town, Pt. 2)” na peça central do álbum.

As últimas três músicas mudam drasticamente o ritmo, dando-lhe tempo para recuperar o fôlego após a primeira parte. A maravilhosa “Reborn” surge em torno de um gancho contagioso, conforme Kid Cudi canta: “Continue em frente, continue andando / Eu estou tão – estou renascendo, estou indo pra frente”. Raramente eu me identifico completamente com uma letra de rap, mas quando eu ouvi isso, meu pensamento foi de total compreensão. Seguir em frente é o principal tema de “Reborn”, uma faixa onde Kid Cudi discute sua luta contra as drogas e o abuso de álcool. Enquanto isso, Kanye West parece aceitar alguma responsabilidade por suas ações recentes. “Eu estava fora da cadeia, eu era frequentemente drenado / Eu estava fora dos remédios, eu era chamado de insano / Que coisa incrível, envolvida em vergonha / Eu quero toda a chuva, eu quero toda a dor / Eu quero toda a fumaça, eu quero toda a culpa”, ele diz. O seu verso é particularmente forte porque aborda suas tendências anti-sociais, dependência de opiáceos e transtorno bipolar. É tão inesperadamente cru e pessoal que você praticamente não sabe como reagir na primeira vez ouve. São músicas como essa que destacam a verdadeira harmonia entre os dois.

A surpreendente beleza do órgão que aparece no final, a produção verdadeiramente psicodélica, atmosfera gelada, batida suavemente controlada pelo piano e a linha de baixo dão suporte para as melodias brilharem. A música mais longa do repertório é também aquela que melhor desenvolve a narrativa. Há um motivo para que “Reborn” seja a faixa mais longa do álbum. É um verdadeiro hino para os momentos sombrios. Entretanto, o maior destaque do álbum é justamente a faixa-título, “Kids See Ghosts”. Um número escuro conduzido por uma percussão em loop e produção introspectiva. É tudo sobre flutuar pela vida e buscar a redenção. É a canção que reflete perfeitamente a arte da capa criada por Takashi Murakami. Sem dúvida, “Kids See Ghosts” apresenta uma das melhores batidas do álbum. Além disso, contém um gancho horripilante do rapper Yasiin Bey, também conhecido como Mos Def. Aqui, o jogo de rap do Kanye West contém nuances e está bem mais focado do que na maior parte do “ye” (2018). Ele consegue acertar suas palavras com absoluta convicção e impressiona com seu fluxo. Liricamente, “Kids See Ghosts” é uma reflexão sombria sobre as dificuldades da fama e do sucesso. Como esperado, sua produção dá espaço para sons incrivelmente arrepiantes que poderiam até fazer parte de algum filme de terror.

Felizmente, os latejantes sintetizadores e a excelente percussão impulsionam o verso do Kid Cudi. Desta vez, ele comenta de forma sincera sobre sua luta para encontrar a real felicidade. “Mesma coisa, em um quarto / Sentado sozinho, encontrando o paraíso em breve / Muitas coisas que irão incomodá-lo / Olhe para além de um sentimento como se você nunca soubesse / Chegando fora, caçando a verdade / Eu acho que estou cansado de fugir / Todo esse tempo procurando por algo / Eu posso ouvir os anjos chegando”, ele recita. Kanye West, por outro lado, é mais refinado e tenta viver de acordo com seu próprio legado: “Bem, eu demorei o suficiente no rap para fazer isso com rapidez suficiente / Pago essa merda, é só desistir, porque você apenas vai viver / Para tudo que te suga e isso nunca é suficiente / Pensei que seria inteligente o suficiente para desistir enquanto estivesse à frente”. Yasiin Bey, por sua vez, contribui com a paranoia e a escuridão do refrão: “As crianças vêem fantasmas às vezes / Espírito, andando por aí, apenas andando por aí”. Os demônios interiores de West e Cudi não os atacam diretamente, mas são um lembrete do seu presente. Surpreendentemente, Cudi parece trazer um senso de equilíbrio para West. Por causa disso, “Kids See Ghosts” aparenta ser a música mais rejuvenescedora da dupla.

Produzida por ambos, esta faixa contém versos pessoais que refletem sobre a luta pela saúde mental. Em um determinado momento, West confessa sua obsessão para ser entendido. “Não gosto de ser questionado e não gosto de ser menos do que / Qualquer competição em qualquer uma das minhas profissões”, ele admite. Em “Kids See Ghosts”, Kanye West e Kid Cudi estão revitalizados e apresentam uma excelente química vocal. A faixa de encerramento, “Cudi Montage”, é construída a partir de um riff sujo do lançamento póstumo de “Burn the Rain” do Kurt Cobain, enquanto Kanye West e Kid Cudi investigam as complicações da mentalidade e a violência das gangues. Além disso, West também oferece um verso socialmente consciente. O violão e a bateria polida carregam os dois versos, separados por um refrão sintetizado que encontra o duo pedindo salvação a Deus. No momento em que “Cudi Montage” termina, você realmente fica querendo mais, a mesma reação que eu tive depois que escutei o “Daytona” (2018) do Pusha T por completo. Parece que, pelo menos nesse caso, sete músicas são suficientes para manter o ouvinte interessado, mesmo depois do fim do repertório. No geral, “KIDS SEE GHOSTS” possui as melhores qualidades de ambos artistas, ao lado de uma produção expansiva e melodias cativantes.

O lirismo os mostra de forma vulnerável enfrentando a pressão da fama e lidando com demônios interiores. Em outras palavras, esse registro é profundamente terapêutico para os dois rappers. Ele não é uma celebração, mas sim uma recuperação. Meses atrás, Kid Cudi enfrentou a depressão e impulsos suicidas, semanas depois de Kanye West ser internado à força por exaustão e psicose, uma provação que culminaria em um diagnóstico de bipolaridade e a dependência de opiáceos. Portanto, é difícil não ver o “KIDS SEE GHOSTS” como um conforto para eles. Como West provou com suas recentes artimanhas, tudo pode desabar repentinamente, afinal o futuro é imprevisível e, como o título do álbum sugere, “crianças sempre vêem fantasmas”. Dito isto, este álbum é importante para os dois. Graças a produção do Kanye e a energia espiritual do Cudi, o álbum tornou-se coeso. Em última análise, posso afirmar que os dois formam uma ótima dupla. Isso não é surpreendente, dado o quão bem suas colaborações anteriores funcionaram. Às vezes, as estruturas das músicas são questionáveis, mas é um álbum curto com ótimos momentos e sem grandes erros. Por fim, “KIDS SEE GHOSTS” serviu como um processo de recuperação e libertação pessoal para Yeezy e Scott Mescudi.

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    SCORE - 76%
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Favorite Tracks:

“Freeee (Ghost Town, Pt. 2) [feat. Ty Dolla $ign]” / “Reborn” / “Kids See Ghosts”.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.