Review: Kali Uchis – Isolation (2018)

O álbum de estreia da Kali Uchis possui uma enorme variedade de sons, que passam pelo R&B, pop, funk, reggaeton, bossa nova e neo soul. E nada parece forçado, pois ela não permite que nenhum gênero apague sua identidade.

Ouvir a Kali Uchis é como receber um pedaço de cada parte do mundo. Afinal, ela fornece uma grande diversidade de influências em seu repertório. Embora tenha trabalhado mais com o R&B, ela usou uma imensa variedade de sons no seu primeiro disco. Além de experimentar diferentes produções, fez uso de um lirismo inteligente. “Isolation” nasceu do soul de meados do século XX e foi mesclado com o pop moderno e R&B contemporâneo. Composto por quinze faixas e 46 minutos de duração, é um disco sedutor e praticamente sem falhas. No “Isolation”, Kali Uchis desliza facilmente entre diferentes gêneros e prova seu valor em músicas inspiradas pelo hip-hop, soul, pop, reggaeton, funk e bossa nova. Mesmo que possua quinze faixas, o álbum se move num ritmo rápido e cativante. Felizmente, a colombiana-americana vai direto ao ponto em suas mensagens. É incrível como Kali Uchis trabalha através de uma infinidade de gêneros. O seu primeiro EP foi lançado há três anos, consequentemente, ela aproveitou esse tempo para encontrar os colaboradores certos para este álbum. Aqui, temos a presença de nomes como Tyler, the Creator, Bootsy Collins, Steve Lacy, Kevin Parker, Thundercat e Gorillaz. Em suma, Uchis conseguiu criar uma narrativa inesperadamente marcante para um álbum de estreia. Em “Body Language (Intro)”, ela canta sobre a produção de Thundercat e apresenta um zumbido etéreo e balanço consistente. Homenageando suas raízes latinas, Uchis oferece tons jazzísticos, toques de bossa nova, linhas de baixo e proporciona uma escuta sedutora.

“Miami” faz uma mistura irresistível de R&B, jazz, dream pop e reggae. Enquanto a bateria de alto nível toca ao fundo, há vocais que nos remetem à Lana Del Rey. Sua narrativa está praticamente impecável, assim como a percussão eletrizante e a guitarra funcionam sobre a perspectiva das letras. Kali Uchis e a rapper BIA se unem a fim de falar sobre prostituição e tráfico de drogas em Miami. “Eles me olham engraçado quando eu assino um cheque / Porque eles acham que eu estou pagando em sexo / Miami, Miami”, ela canta. Liricamente, o conteúdo lida com temas desenfreados sobre sexo e dinheiro, mas de um ângulo diferente. Dessa vez, Uchis optou por uma produção mais cintilante do que a maioria das músicas urbanas contemporâneas. BIA fornece um verso muito breve, mas aproveita para incorporar um pouco de espanhol à música. “Just a Stranger” é um destaque com participação de Steve Lacy do grupo The Internet. Infundida pelo funk, esta canção continua explorando um roteiro vintage. A programação de bateria é mais voltada para o hip-hop e solidifica a versatilidade da Kali Uchis. O resultado é algo instantaneamente cativante e divertido. Em seguida, “Flight 22” nos leva para uma viagem figurativa e completamente literal. Uma balada de soul tradicional com a quantidade ideal de nostalgia. Uchis diminui o ritmo e mostra suas habilidades de composição. Produzida por Wayne Gordon, há instrumentos jazzísticos e letras como: “E talvez não vamos conseguir / Pelo menos estou indo com você / Nossa bagagem pode estar cheia demais / No vôo 22”.

“Your Teeth in My Neck” é um número de hip-hop descontraído com uma abordagem alternativa caracterizada por uma contagiante batida. Mais uma vez, Kali Uchis bate sobre suas raízes colombianas e exibe sua personalidade distinta. Em “Tyrant”, com Jorja Smith, ela diversifica seu som e expande ainda mais seus horizontes. Ambas saltam sobre uma bateria irregular e adicionam um sabor latino. Tematicamente, Uchis afirmou que esta música lida com o desejo de manter um caso de amor em seus estágios iniciais. Co-produzida por Sounwave, carrega uma certa dose de reggaeton e linhas de baixo saltitantes que pintam um excelente pano de fundo. Embora o álbum seja gravado em tom menor, Uchis está claramente chateada em “Dead to Me”. Esta canção usa teclados e linhas de baixo sintéticas a fim de trazer o funk dos anos 80 à vida. “Você está obcecado por mim / Apenas me deixe ir / Você está morto para mim”, ela canta sem remorsos. Na sequência, suas raízes latinas estão em pleno vigor na exuberante “Nuestro Planeta”. Uma canção que abraça totalmente o reggaeton e traz consigo o apoio do colombiano Reykon. Cantada inteiramente em espanhol, esta faixa apresenta batidas de tambor tipicamente latinas. A nona faixa é o maior destaque do repertório – em “In My Dreams”, ela realmente atinge o seu auge. Uchis flutua com facilidade por cima de incríveis batidas antes de acelerar no refrão. “Tudo é maravilhoso / Aqui nos meus sonhos, aqui nos meus sonhos / Todo dia é feriado / Quando você está vivendo dentro dos seus sonhos”, ela canta.

Produzida pelo Gorillaz, “In My Dreams” é uma canção synth-pop com uma mistura de guitarras, órgãos e sintetizadores. Embora pareça um pouco previsível em termos de escrita, provoca uma mudança de som surpreendente. As letras são uma conversa interna, onde Uchis descreve os sonhos como um mundo sem medos e inseguranças. No primeiro verso, ela chega a mencionar o abuso de drogas por parte de sua família. Damon Albarn recrutou Uchis para o álbum “Humanz” (2017) e a recompensou produzindo a melhor faixa do álbum. É um destaque de produção que dá à Kali Uchis um excelente pano de fundo para expor seus pensamentos. Em suma, “In My Dreams” é uma música liricamente sombria que adere ao som distinto do Gorillaz. Sua paisagem eufórica e produção nebulosa é atada por tons escuros e incríveis vocais. Após o exuberante interlúdio “Gotta Get Up”, sua colaboração com Kevin Parker acontece em “Tomorrow”. Temos clássicos riffs e uma suavidade reminiscente da Tame Impala, enquanto os vocais se mantém firmes e fortes. O terceiro single, “After the Storm”, é uma canção de R&B interpretada ao lado de Tyler, the Creator e Bootsy Collins. Anteriormente, Kali Uchis havia participado de dois álbuns do Tyler e mais uma vez demonstra uma boa química ao seu lado. Certamente, “After the Storm” é outra música de grande impacto. Produzida por BADBADNOTGOOD, é uma joia que nos faz lembrar dos anos 70. O lirismo elegante combinou perfeitamente com a linha de baixo funky e o ritmo neo soul.

Ela fornece mensagens de positividade, enquanto canta: “O sol vai sair / Nada de bom vem facilmente / Eu sei que os tempos são difíceis / Mas os vencedores não desistem / Então, não desista”. Sua sinceridade lírica é poderosa e encantadora na mesma proporção. O romantismo arejado e produção exuberante do interlúdio “Coming Home” é tão importante quanto as performances confiantes das outras faixas. Não importa se ela está introspectiva ou esclarecedora, Kali Uchis é uma compositora muito convincente. A penúltima faixa, “Feel Like a Fool”, é um jazz retrô que lhe rendeu comparações com Amy Winehouse. Sob instrumentos de metal, cordas características e forte bateria, Uchis canta sobre infidelidade. Outro número impactante e agradável. Por fim, “Killer” é um número pungente e significativo que mostra o quão longe Kali Uchis chegou. Tudo somado, ela criou um álbum de estreia extremamente conclusivo. Depois de um passado humilde no estado da Virgínia, ela está atualmente em Los Angeles colaborando com grandes nomes da indústria. Não dá para negar que sua abordagem eclética é difícil de categorizar. “Isolation” é diferente porque ela consegue trabalhar diferentes gêneros com uma grande facilidade. Não importa o que ela tente, as músicas estão cheias de ideias criativas, refrões memoráveis ​​e produções expressivas. Vocalmente ela tem um instrumento distinto, e artisticamente é uma cantora cheia de personalidade. “Isolation” é realmente uma das grandes surpresas do ano!

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Favorite Tracks:

“In My Dreams” / “Tomorrow” / “After the Storm (feat. Tyler, the Creator & Bootsy Collins).

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.