Review: Kacey Musgraves – Golden Hour (2018)

É um desperdício de tempo escolher os destaques, porque todo “Golden Hour” é essencial. Os elementos e instrumentos fazem dele, em sua essência, um álbum country. Os tradicionalistas podem discordar, mas eles devem admitir que é um crossover feito de forma engenhosa.

Embora Kacey Musgraves já tenha oferecido muitos vislumbres de sua vida pessoal, “Golden Hour” é o seu álbum mais autobiográfico, ponderado e vulnerável. Nos discos anteriores, Musgraves ganhou prêmios como o Grammy e cativou todo o público country com suas histórias perspicazes. Mas dessa vez, ela está cheia de uma vulnerabilidade calorosa, senso de resiliência e conteúdo maduro. Com “Golden Hour”, ela criou novas alturas para si mesma e empurrou os seus limites sonoros. Em vez de mergulhar em suas raízes tradicionais, Musgraves optou por uma paleta sonora celestial, exibindo arranjos brilhantes e números inspirados pela música pop e disco. Teria sido mais fácil para ela continuar fazendo o mesmo tipo de música influenciada pelo country, mas para continuar crescendo como artista, ela preferiu se reinventar. Um dos elementos mais inspiradores do álbum são suas grandes reflexões líricas. Musgraves sempre foi uma boa compositora, mas “Golden Hour” vai a lugares mais profundos. É um álbum intemporal e igualmente refrescante. Depois de se casar no ano passado, ela naturalmente começou a escrever mais canções de amor e deixou para trás o humor irônico de seus discos anteriores. As músicas do “Golden Hour” são silenciosamente introspectivas e provocam uma escuta confortável e encantadora. Na faixa de abertura, “Slow Burn”, sua voz tranquila e serena foi combinada com uma sensação de dream pop e belos toques acústicos. Ela mostra um pouco das influências que fazem do “Golden Hour” um álbum tão bom.

Enquanto “Lonely Weekend” é uma perfeita representação do registro, com seu som reminiscente do Fleetwood Mac, “Butterflies” é uma peça incrivelmente cativante e exuberante. Essa canção pega uma imagem clichê e transforma em algo verdadeiramente autêntico. A instrumentação sutil e discreta permite que sua voz cresça livremente. A paleta sonora inclui sons de violão, baixo, piano saltitante e bateria. Mesmo sendo tão bem produzida, “Butterflies” não peca pelo exagero na produção. De fato, é uma canção que mantém a simplicidade da Kacey Musgraves. Essa mesma simplicidade é o que faz com que “Butterflies” seja uma joia infalível. Presumivelmente, ela oferece uma postura eficaz e vocais incrivelmente lindos. Embora possua algumas sugestões de country, é uma música com um apelo mais amplo. O refrão é a peça central e o momento mais memorável. A bela harmonização vocal torna tudo mais colorido e infeccioso. “Golden Hour” alcança as profundezas da música country moderna ao capturar a beleza da vida em “Oh, What a World”. Musgraves detalha a pureza em seu entorno enquanto simultaneamente pondera nossa existência. Depois de ouvir o efeito de um vocoder no início, esta canção pode ser um pouco alarmante a princípio. Mas serve como uma metáfora do reflexo distorcido da realidade que ela vê ao seu redor. Ademais, há uma sensação extravagante na maneira como a música percorre por nossos ouvidos. É difícil lidar com as coisas quando sua família mora tão longe. É exatamente este assunto que Musgraves aborda em “Mother”.

Uma balada de piano sincera, delicada e extremamente curta que pode te levar às lágrimas. “Love Is a Wild Thing”, por sua vez, deve ser a canção que mais soa tradicionalmente country. Uma peça melancólica encharcada pela época de ouro dos anos 70 e inspirada por artistas como Dolly Parton e Lee Ann Womack. Em “Space Cowboy”, o primeiro single do álbum, Musgraves transmite muita emoção no decorrer de 3 minutos e meio. Após um acorde introdutório, ela começa a canção de forma inesperada. Embora estamos acostumados com um prefácio mais longo, ela fornece vocais lindamente expressivos. A clareza pela qual ela canta é um ponto muito importante de seus trabalhos. Co-escrita por Shane McAnally e Luke Laird, “Space Cowboy” não apresenta algo que você esperaria. Definitivamente, não é uma música sobre um cowboy indo para o espaço. É uma canção que possui uma complexidade emocional, além de ser vulnerável, tranquila e confiante. Uma bela balada com forte domínio da melodia, acordes de piano e bom jogo de palavras. “Você pode ter seu espaço, cowboy / Eu não vou te prender / Vá em viagem, no seu silverado / Acho que vou te ver novamente / Eu conheço o meu lugar, e não é ao seu lado / O pôr do Sol desaparece e o amor também / Sim, tivemos nosso dia no sol / Quando um cavalo quer correr, não faz sentido fechar o portão / Você pode ter seu espaço, cowboy”, ela canta no lindo refrão. Liricamente, os versos lembram um pouco a escrita da Taylor Swift antes dela cruzar a fronteira entre Nashville e a música pop.

Musicalmente, “Space Cowboy” é um peça country com um apelo mais amplo que, felizmente, não parece forçada. Sua composição é enfeitada por um arranjo de banjo e pedal steel. Mas enquanto inclina-se para o pop, não abandona o country completamente. Em última análise, “Space Cowboy” pode não ser necessariamente a canção mais emocionante do seu catálogo, mas é muito bem interpretada, produzida e escrita. “Happy & Sad” pode parecer um título preguiçoso, mas a simplicidade faz parte do apelo do álbum. A honestidade das letras é clara, uma vez que ela não se sente confortável em se apaixonar. Musgraves construiu muros para evitar esse tipo de amor e de alguma forma seu marido os derrubou. Uma peça onde ela cria mensagens espirituosas de forma bem melancólica. Em seguida, há um movimento country inexplicável em “Velvet Elvis”. Uma faixa simplista construída principalmente por seu grande charme vocal. Posteriormente, a perfeita “High Horse” vê Kacey Musgraves explorando suas tendências pop e exibindo influências de disco em meio a elementos familiares. É o ápice de sua exuberância, uma vez que ela abraça uma nova paleta sonora. Musgraves canta sobre linhas de baixo funky, batidas dançantes, arranjos orquestrais e pinta um cenário completamente vintage. Musicalmente falando, “High Horse” é em muitos aspectos o destaque mais progressista do álbum. Liricamente, acompanha sucessos como “Step Off”, “This Town” e “Biscuits”, que destacam o seu senso de humor aguçado e observações intrigantes.

Para uma artista do Texas que cantou uma vez “você pode me tirar do country, mas você não pode tirar o country de mim”, Musgraves certamente sabe como ser uma estrela pop. Ela soube fazer uma boa transição de violões de aço para vibrações disco intoxicantes. Enquanto possui uma pitada de country, incluindo a sensibilidade vocal e o banjo, “High Horse” com certeza exibe um apelo musical mais amplo. Além disso, Kacey Musgraves continua fornecendo uma narrativa consistente. “Aposto que você pensa que é John Wayne / Aparecendo e abatendo todo mundo / Você é clássico da maneira errada / E todos nós sabemos o final da história”, ela diz no primeiro verso. Enquanto fala sobre a arrogância de um homem, ela apresenta vocais em camadas e uma produção polida e elegante. “High Horse” é uma música disco de grande qualidade que cairia muito bem na voz de artistas como Katy Perry. “Rainbow” é uma balada de piano refrescantemente direta que encerra o repertório. Outra canção que conseguiu mostrar a sua nova faceta, mas sem abandonar completamente suas raízes. Se você estiver disposto a escutar este álbum, com certeza não vai se arrepender. Ao terminar de ouvi-lo instantaneamente ficará surpreso com seu som e lirismo. Para mim, é o melhor álbum da carreira da Kacey Musgraves, isto levando em conta que seus dois primeiros álbuns são consistentemente sólidos e de grande qualidade. Tudo somado, posso afirmar que “Golden Hour” é um dos melhores discos lançados em 2018.

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    SCORE - 87%
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Favorite Tracks:

“Slow Burn” / “Butterflies” / “High Horse”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.