Review: Justin Timberlake – Man of the Woods

Lançamento: 02/02/2018
Gênero: Pop, R&B
Gravadora: RCA Records
Produtores: Justin Timberlake, Danja, Larrance Dopson, Eric Hudson, Elliott Ives, Jerome “J-Roc” Harmon, Rob Knox, The Neptunes e Timbaland.

Justin Timberlake é um artista que adora fazer os fãs esperarem por um novo disco. Por exemplo, já fazem cinco anos desde que ele lançou as duas partes do álbum “The 20/20 Experience” (2013). Em dezesseis anos, o cantor só lançou quatro álbuns, então foi com muita ansiedade que os fãs esperaram pelo lançamento do “Man of the Woods”. O álbum foi lançado poucos dias antes da apresentação do astro no Super Bowl LII (14 anos depois do envolvimento controverso com o figurino de Janet Jackson) e, apesar do visual usado para promovê-lo, não é um álbum country. O título é uma homenagem do cantor para o seu filho, cujo nome significa “dos campos”. Além do nome do álbum, há músicas inspirados pela família de Timberlake. Enquanto “Young Man” é formada por conselhos para o seu filho, “Hers” e “Flannel” contém palavras faladas de sua esposa, Jessica Biel. Portanto, podemos notar que o “Man of the Woods” é mais uma celebração da família de Justin Timberlake. Mas, embora o tema seja emocional, as letras são extremamente fracas e preguiçosas. Além disso, os vocais estão muito auto-sintonizados e modificados.

Musicalmente, como de costume, o cantor explorou principalmente o pop e R&B enquanto utilizou violinos e gaitas como adorno. A ambição de Justin Timberlake já nos impressionou bastante, afinal “Cry Me a River”, “Like I Love You”, “Rock You Body”, “SexyBack” e, principalmente, “My Love” são clássicos da década de 2000. Entretanto, se reunir novamente com Pharrell Williams, Chad Hugo, Danja e Timbaland não serviu para criar os mesmos hits sensuais do passado. “Man of the Woods” poderia ser um registro cheio de autenticidade, pois parece uma tentativa de unir suas origens no Tennessee com o status de popstarNo entanto, o resultado final é algo superficial e mal concebido, que tenta fundir exageradamente elementos de country, folk, americana, funk, soul e gospel. As referências à natureza são vazias e mal-apropriadas, tanto que nem parece de um músico tão bem-sucedido como Justin Timberlake. Eu sou um grande fã dele, mas não é novidade que sua carreira solo dependeu da mistura do R&B e funk, dois gêneros criados e aperfeiçoados por artistas negros. Porém, em “Man of the Woods” ele falhou drasticamente ao tentar trabalhar com esses dois gêneros.

O conjunto muito ambicioso, mas ao longo de 65 minutos de duração, ela se torna descontroladamente desigual, errático e difícil de escutar até o ponto de exaustão. Como já mencionado, grande parte do repertório é focado em sua felicidade conjugal com Jessica Biel, mas os interlúdios falados espalhados pelo álbum são embaraçosos e particularmente desconcertantes. Há algumas faixas cativantes e dançantes, mas, no geral, a falta de inovação e as letras superficiais e bagunçadas são muito mais evidentes. O primeiro single do álbum, chamado “Filthy”, é uma música futurista e robótica e possui uma produção reminiscente de qualquer coisa que o The Neptunes (Pharrell Williams e Chad Hugo) já fez. Embora lembre o álbum “FutureSex/LoveSounds” (2006), não possui melodias poderosas e cativantes como “SexyBack”, por exemplo. Liricamente, é uma canção fraca que consiste apenas num gancho que diz “Os invejosos dirão que é falso / Tão real”. Musicalmente, “Filthy” é uma faixa de eletro-funk e R&B que tenta prestar alguma homenagem ao lendário Prince. Depois de começar com um gancho de guitarra elétrica e bateria, a faixa depende do ritmo exalado por uma linha de baixo distorcida, que arrasta-se por quase 5 minutos de duração.

O riff de guitarra, que aparece de vez em quando, poderia ser preenchido por melodias melhores. A batida de Timbaland e Danja é tão futurística e robótica que chega a ser irritante. Mantendo o ritmo com alguns sutis sintetizadores, o instrumental mal consegue jogar a favor de Justin Timberlake. Em suma, “Filthy” é tão super-produzida que, juntamente com os vocais mistos, não consegue fazer uma legítima homenagem ao Prince. As coisas melhoram um pouco com “Midnight Summer Jam” que, apesar de algumas letras desajeitadas, é uma sólida colaboração com The Neptunes. A produção se destaca pelo groove funky e som vintage, à medida que a guitarra rítmica e os falsetes de assinatura nos cativam. Possui mais de cinco minutos de duração, por isso há tempo para a estrutura da música oferecer uma pausa inesperada, antes de recomeçar com uma linha de guitarra repetitiva e envolvente. Em seguida, “Sauce” tenta canalizar novamente algumas vibrações reminiscentes do Prince, porém, em vez disso ouvimos uma das músicas mais confusas do álbum. Sobre sample de “Juice vs Sauce” de Gino Russ, Timberlake usa uma percussão pesada e ostenta seu falsete.

É basicamente uma fusão desajeitada de pop, rock e R&B onde Danja lida com a maior parte da produção. A faixa-título, “Man of the Woods”, é o primeiro momento real do álbum que se encaixa com a proposta de Justin Timberlake. Aqui, a produção do The Neptunes ficou realmente interessante ao explorar o pop, funk e country e combinar batidas eletrônicas com uma sensação soulful. Realmente, é um número encantador, interessante e com uma bela produção. Liricamente, é sobre a esposa do cantor, conforme ele canta no refrão: “Eu fico me gabando por ter você pra qualquer um por aí / Mas eu sou um homem do campo, é o meu orgulho / Me desculpa, amor, você sabe que eu tento / Mas eu sou um homem do campo, é o meu orgulho”. O The Neptunes permanece por trás da produção de “Higher Higher”, uma faixa que não parece muito distante da já mencionada “Midnight Summer Jam”. “Wave”, por outro lado, traz um toque caribenho para a mistura juntamente com um arranjo de reggae e ska. Sua produção é um pouco mais elegante, além de ser misteriosa e peculiar. Ela surge com uma guitarra ensolarada e linha de teclado, mas as letras meio tímidas são novamente o ponto fraco.

Dito isto, o excesso de repetitividade e duração também é algo mal concebido por aqui. Duas semanas depois de lançar “Filthy” como primeiro single promocional do álbum, Justin Timberlake divulgou “Supplies”. Dessa vez, a produção é um pouco mais moderna e elegante. Em seu interior existem sintetizadores, vocais rítmicos e influência de hip-hop. Mas, infelizmente, é outro single que não conseguiu me convencer. O refrão é repetitivo, simplista e desprovido de qualquer significado ou profundidade. É uma música de R&B que, sonicamente, não vai a lugar algum. Ela não possui um refrão impactante ou qualquer outro ponto que desperte a atenção do ouvinte. Por trás do processo criativo temos o próprio Justin Timberlake, além de Pharrell Williams e Chad Hugo. Em termos de melodia, “Supplies” é melhor do que “Filthy”, entretanto, a produção orgânica não soa natural. Dito isto, toda a música se resume numa bagunça sonora sem sentido. Ademais, o ritmo trap onipresente no mercado atual, só deixa a música menos relevante. É uma canção simplesmente ruim que não me instigou a ouvir mais algumas vezes. Liricamente, as coisas ficam ainda piores!

“Porque eu serei a luz quando você não conseguir ver / Eu serei a lenha quando você precisar de calor / Eu serei o gerador, me ligue quando precisar de eletricidade / Alguma coisa está desmoronando / E eu serei o que está com a cabeça no lugar / O mundo poderia acabar agora / Querida, nós viveremos no cenário de The Walking Dead”, ele canta. Me pergunto como Justin Timberlake teve coragem de cantar algo tão boring e risível. Ele está simplesmente tentando convencer sua mulher de que ele é algum tipo de salvador do mundo. Felizmente, a próxima faixa, intitulada “Morning Light”, é um agradável dueto entre Justin Timberlake e Alicia Keys. Um número contemporâneo e elegante, com uma pitada de country e reggae. Ademais, possui uma sensação bem mais orgânica e natural que adapta-se ao estilo do cantor. Uma semana antes do disco ser lançado, Justin Timberlake nos apresentou “Say Something”, uma colaboração com Chris Stapleton. O cantor country se apresentou com Justin Timberlake pela primeira vez no Country Music Awards de 2015. Esse é, provavelmente, o single mais agradável que Timberlake lançou deste álbum até agora.

“Filthy” é um eletro-funk obscuro que dividiu opiniões, enquanto “Supplies” é um faixa de R&B sem qualquer profundidade. Sem batidas exageradas e pesados sintetizadores, as guitarras acústicas dominam a produção de “Say Something”. É uma pequena fatia de country-rock com um refrão imensamente repetitivo. Certamente, possui a melhor melodia que ouvimos até agora nessa nova era do Justin Timberlake. Entretanto, mesmo sendo impulsionada pela guitarra acústica, handclaps e percussão, “Say Something” possui letras que, literalmente, não dizem absolutamente nada. “Às vezes, a melhor maneira de dizer algo / É não dizer absolutamente nada”, eles cantam com uma certa harmonia. Liricamente, ambos artistas não chegam a lugar algum. A letra é extremamente repetitiva, chata e sem sentido. Assim como “Filthy”, este single foi produzido por Timbaland e Danja, antigos e frequentes colaboradores de Timberlake. Entretanto, em vez de criar um crossover country interessante, Timbaland e Danja preferiram adicionar uma percussão sem graça ao lado de algum trabalho de guitarra acústica.

Este foi o ajuste ideal que Timberlake e Stapleton encontraram para trocar versos e cantar sobre nada: “Todos dizem: fale alguma coisa / Vamos falar alguma coisa, falar alguma coisa / Vamos falar alguma coisa, falar alguma coisa / Vamos falar alguma coisa / Não quero ficar preso nesse ritmo / Mas não posso fazer nada, não”Infelizmente, “Say Something” é outra peça desconfortável com acordes repetitivos e letras desprovidas de significado. Depois de ouvir esta música por vezes suficientes, você percebe o quanto Justin Timberlake perdeu sua direção artística. Certamente, “Say Something” não é tão irritante quanto “Supplies”, afinal a melodia é agradável. Porém, se você estiver procurando por algo inteligente, pungente ou fresh, com certeza vai se decepcionar. Aqui, você não encontrará um refrão marcante e muito menos algo que possa te mover confortavelmente. Outra desvantagem para o álbum são interlúdios como “Hers (Interlude)”, uma narração particularmente constrangedora de sua esposa. A descarada balada country “Flannel”, possui o título menos atraente de todo o repertório. Porém, é um momento incrivelmente interessante conduzido pela guitarra acústica, que mostra vocais mais maduros e emocionantes. 

Curiosamente, durante o último minuto e meio de “Flannel”, Jessica Biel fornece outra narração inesperada. “Montana” soa um pouco fora do lugar com sua batida disco inspirada nos anos 70, mas não deixa de ser uma canção agradável e simpática. O mesmo pode ser dito de “Breeze Off the Pond” que, embora não seja marcante, é particularmente empolgante e divertida. “Livin’ Off the Land”, por sua vez, define o tom do álbum antes que a guitarra e moderna programação de bateria amarrem as coisas. A penúltima faixa e terceira co-escrita por Chris Stapleton, intitulada “The Hard Stuff”, é uma das peças mais ousadas. Aqui, as vibrações country são mais pronunciadas, enquanto Justin Timberlake canta sobre os altos e baixos de um relacionamento. “Qualquer um pode estar apaixonado num dia de Sol / Qualquer um pode se virar e fugir quando começa a chover / E todo mundo quer que o céu esteja sempre azul / Mas não é esse o tipo de amor que eu quero ter com você / Então me mostre os momentos difíceis / Do tipo que te faz ser real / Eu estarei aí quando a tempestade chegar / Porque eu quero estar nos momentos difíceis”. Em “Young Man”, o cantor dá alguns conselhos paternos para o seu filho, Silas.

É uma homenagem onde ele tenta transmitir a sabedoria das lições que aprendeu na vida. A canção começa com o cantor e Jessica Biel persuadindo Silas a dizer “da-da”, antes dele compartilhar as alegrias universais da paternidade. “Eu disse, garotinho / Sente-se aqui e deixe-me te dizer como as coisas devem ser / Como eles me disseram / Eu disse, garotinho se você quer fazer Deus sorrir / Faça planos, você tem que estar pronto / Você não entende ainda, você é só um garotinho / Mas você vai ter que se posicionar na vida”, ele canta no refrão. Uma música simples, com fortes elementos de country e algumas batidas de tambor que termina com a voz do seu filho dizendo: “Eu te amo papai”. Dito isto, o grande problema com a música é que ela não evoca emoção nenhuma. “Man of the Woods” possui seus bons momentos, mas não é um trabalho coeso ou consistente. É um trabalho confuso, desajeitado e inofensivo, no que diz respeito à visão de Justin Timberlake. É um passo em falso para um artista que, até então, havia feito três álbuns pop notavelmente sólidos. Provavelmente, vai ser um registro atribuído como um fracasso para o mainstream, da mesma forma que falam dos últimos álbuns da Katy Perry e Lady Gaga.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.