Review: Jack White – Boarding House Reach (2018)

Apesar de todo o barulho, não há muita coisa realmente acontecendo neste álbum. Suas canções são colagens de ideias que, embora tenham um charme inquietante, rapidamente se tornam cansativas.

Onovo álbum do Jack White, “Boarding House Reach”, dá um passo além do blues a fim de explorar uma abordagem mais experimental. Na primeira audição, é uma mistura desconcertante de sons e letras acompanhados por bons desvios instrumentais. É válido para o que você espera do Jack White, mas contém inúmeras surpresas ao longo das treze músicas. Às vezes, a criatividade ilimitada leva ao fracasso por falta de foco ou direção. “Boarding House Reach” provavelmente vai te perder na primeira audição por causa da variação desorientadora dentro e através das músicas do álbum. O repertório é uma rica descoberta musical que explora os sons que foram construídos na cabeça do Jack White. Ele provoca momentos cheios de emoção e paixão, à medida que faz misturas desconcertantes com hip-hop, rock, gospel, country e até mesmo palavras faladas. White pintou uma tela com tantos gêneros e cores que você certamente ficará desordenado. Cada faixa é tão bizarra quanto a própria imagem do Jack White, mas não de maneira imediata e divertida que os fãs esperavam. O próprio White chamou o “Boarding House Reach” de bizarro, porém, é tão confuso quanto estranho. Pensamentos lineares quase não existem neste álbum. Ele é repleto de gritos digitalizados, samples de bateria, letras de rap, passagens faladas, melodias parciais e riffs segmentados. O problema com o “Boarding House Reach” não é o fato de Jack White ter se afastado dos seus ideais. O problema é que, apesar de sua crença de que o “Boarding House Reach” é um álbum “incrivelmente moderno”, ele não atinge um novo território além de seu próprio corpo de trabalho.

Pela primeira vez, ele está tentando acompanhar o resto da indústria. O ex-vocalista do The White Stripes parece ter perdido um pouco a bola, principalmente pela cansaço causado pela abundância de esquisitices. Como grande admirador do seu trabalho, eu confesso que fiquei um pouco decepcionado com o primeiro single, “Connected by Love”. Seus principais pilares estão ausentes na composição e produção dessa música. Inicialmente, ela começa com um sintetizador ondulado e misterioso. Base eletrônica é algo um tanto quanto inesperado e provocativo para ele. Embora seja surpreendente, nós sabemos que ele é um músico conhecido pela experimentação de diferentes gêneros. Felizmente, os vocais estão dramáticos e expressivos, algo característico do seu estilo ao longo dos anos. Apesar da falta de inspiração, o refrão, formado pelo uso de um órgão, piano e sintetizador, é aparentemente épico. O segundo refrão, por sua vez, é mais espiritual e possui a inclusão de vocais de apoio tingidos de gospel. Um dos principais problemas com “Connected by Love” é a indecisão do próprio Jack White. Ele ficou em dúvida se criava uma música melodiosa e sedosa, ou angustiada e indiferente. Embora não seja uma canção necessariamente ruim, “Connected by Love” deixa muito a desejar. “Respect Commander”, por sua vez, abre com uma seção instrumental composta por fortes tambores, sintetizadores e guitarra elétrica. O baixo ajuda a instalar as coisas na segunda parte, enquanto o áspero trabalho da produção alimenta os vocais. Embora seja uma peça intrigante, carece de inovação.

A segunda faixa, “Why Walk a Dog?”, exala simplicidade e mostra White ponderando que os animais de estimação pensam de si mesmos como entretenimento para os humanos. Uma música com pouca variação, carregada por bateria eletrônica, teclas de piano e guitarra distorcida. Em seguida, o álbum dá uma pequena reviravolta na terceira faixa, “Corporation”. Uma peça dominada por clavinet, batidas funky, bongôs saltitantes e uma interação entre o órgão e a guitarra. Os vocais falados e distorcidos não entram até depois da marca de 3 minutos. Menos de um 1 depois, seus pensamentos transformam-se em gritos estridentes. “Abulia and Akrasia” é um interlúdio que oferece palavras faladas sobre um adorável violino e sinistro piano. “Hypermisophoniac”, a faixa mais avant-rock e aventureira, apresenta proeminentemente um estranho loop de sintetizador e piano jazzístico. White tenta se destacar durante o solo de guitarra, mas acaba competindo com a linha de baixo que parece arrancada de alguma música da Rage Against the Machine. Está bem posicionada na tracklist e proporciona um bom fluxo para “Ice Station Zebra”, uma canção bastante inconvencional, mas em muitos aspectos parecida com o seu último álbum. É digno de nota e o mais próximo do rap que o ele já chegou. Mais tarde, “Over and Over and Over” faz um retorno ao seu conhecido som; com riffs de guitarra distorcidos, bongôs, backing vocals e melodias percussivas que nos remetem às suas raízes. É uma pista lindamente construída e a mais próxima de uma clássica música dele.

“Ezmerelda Steals the Show” soa semelhante ao hit “Everybody Hurts” da banda R.E.M., devido a similaridade da instrumentação e acordes quebrados. Aqui, White enxerga a esperança conforme é fascinado por uma mulher se apresentando para o público. Sobre um sintetizador sombrio, White fala de tocar piano em uma casa abandonada no começo de “Get in the Mind Shaft”. Um loop de percussão lo-fi e efeitos eletrônicos permeiam pela canção, ao passo que ele lidera a banda com uma performance distorcida de um vocoder. Enquanto a balada country “What’s Done Is Done” fornece uma sublime harmonização vocal, o álbum chega ao fim com a elegante “Humoresque”. Aqui temos melodias de piano num estilo folk rock tradicional que, posteriormente, faz uma transição para uma progressão de acordes jazzísticos. “Boarding House Reach” marca a primeira vez em que Jack White não aparece na capa de um do seus álbuns. Em vez disso, uma ilustração andrógina ocupa seu lugar habitual. Aqui, sua figura mudou de identidade, é familiar em alguns aspectos, mas irreconhecível em outros. Esse disco certamente dividiu opiniões, mas independentemente de você ser ou não um fã do Jack White, seu sentimento após a conclusão do álbum será de perplexidade. Ele manteve momentos de promessa, disposição para reinventar e assumiu riscos. Porém, uma questão permanece: será que este álbum melhora depois de repetidas escutas? Na minha humilde opinião, a resposta é não. Talvez eu esteja indo pelo caminho errado ao escutá-lo, mas é tão desorientador que é quase impossível conseguir apreciá-lo completamente.

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    SCORE - 47%
47%

Favorite Tracks:

“Corporation” / “Over and Over and Over” / “What’s Done is Done”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.