Review: J Balvin – Vibras (2018)

Lançamento: 25/05/2018
Gênero: Reggaeton, Pop
Gravadora: Universal Music Latin
Produtores: ChildsPlay, Chuckie, Gaby Music, Jeday, Sky, Tainy e Willy William.

O “Vibras”, quinto álbum de estúdio do J Balvin, é mais consistente e dinâmico que o “Energía” (2016). Suas composições, performances e produção são melhores inspiradas.

Já faz muito tempo que o reggaeton é um gênero predominante na América Latina, mas somente nos últimos dois anos que ele se tornou-se onipresente no mundo todo. Já se passaram três anos desde que J Balvin lançou seu último álbum e, desde então, muita coisa aconteceu no mundo da música. Falando nisso, poucos artistas latinos conseguiram o sucesso mundial que ele fez com “Mi Gente” em 2017. O vídeo tem 1,8 bilhão de visualizações no YouTube e alcançou o terceiro lugar na Billboard Hot 100. Na América Latina, o reggaeton ainda é considerado repetitivo e adequado para pistas de dança, mas J Balvin explora um potencial mais amplo. A sexualidade desempenha um grande papel nas letras do reggaeton, mas a misoginia dos primeiros anos do gênero felizmente diminuiu. Doze anos se passaram desde que ouvimos “Gasolina” do Daddy Yankee pela primeira vez. Naquela época, o reggaeton era caracterizado por sons intensos, faixas que pareciam gravações caseiras, alto-falantes adicionados a mixagens virtuais e letras baseadas em sexo e drogas. Foi naquele tempo que nasceu um gênero que só visava ser uma moda. Embora o preconceito sobre o gênero ainda seja forte, é hora de analisar sua evolução – em sons e letras – para perceber que ele se ajustou aos novos tempos. Um tipo de sofisticação que gradualmente foi dada graças ao surgimento de artistas que tentaram experimentar. J Balvin foi um deles!

Ele apareceu timidamente em 2010, quando lançou o álbum “Real” (2010), mas sem conseguir a repercussão que precisava. O colombiano permaneceu na indústria e manteve sua ascensão com os álbuns “El Negocio” (2011) e “La Familia” (2013). Este último levou-o a obter os seus primeiros reconhecimentos internacionais, com faixas conhecidas como “6 AM” e “Ay Vamos”. J Balvin já era alguém conhecido no cenário latino, até que o LP “Energía” (2016) o posicionou como uma importante referência da nova escola do reggaeton. A mistura de ritmos urbanos com o dancehall, pop e moombahton conquistou o mundo inteiro. Em seu novo álbum, intitulado “Vibras”, J Balvin seduz com seus ritmos dançantes e letras inspiradas em romances do passado. Seus vocais soam melhor quando vão de uma cadência rápida a um rap profundo e calmo. Desde que Balvin lançou “Ginza” em 2015, ele e seus produtores de longa data, Sky e Tainy, confiaram em uma combinação inteligente para encantar com sutileza e grandiosidade. “Vibras” é muito mais mesclado com o pop do que seus trabalhos anteriores, uma chance que os fãs de reggaeton não costumam dar. Esse registro confirma que o estilo barulhento dos primeiros sucessos do gênero está sendo lentamente deixado para trás. Ao longo de sua carreira, ele assumiu a missão de mudar o padrão de artistas de língua espanhola e reescrever uma narrativa para si mesmo.

Ele já conseguiu várias realizações, entre elas, apareceu no Coachella ao lado da Beyoncé e fez de “Mi Gente” a primeira faixa em espanhol a alcançar o primeiro lugar nas paradas globais do Spotify. “Mi Gente” é a música apropriada para liderar o álbum. O hit crossover que todos nós estamos saturados de ouvir é transcendente em questão de gênero e cultura. Com esses sucessos, Balvin renunciou às limitações para artistas de língua espanhola e simplesmente passou a prosperar. Um modelo não reconhecido anteriormente pelo mainstream, em que os sons afro-caribenhos de língua espanhola eram limitados ao seu nicho. O “Vibras”, apresentando letras quase exclusivamente em espanhol, exige não apenas o respeito por Balvin como um artista global, mas também serve como uma reconsideração do que hoje constitui a cultura dominante no mercado internacional. Ele descreve seu mais novo trabalho como um “recorde mundial”, indo tão longe a ponto de dizer explicitamente que “sequer pensa nele como um disco de reggaeton”. Mas embora Balvin intencionalmente se desvie de ser rotulado apenas como um artista de reggaeton, “Vibras” é talvez o retorno mais verdadeiro à filosofia que alimenta o gênero ao qual ele não quer se vincular exclusivamente. Como nos álbuns anteriores, esse registro coloca J Balvin vários passos à frente de seus colegas, além de aprofundar as raízes rítmicas do que o impulsionou inicialmente.

Sua visão do reggaeton sempre será distinta dos pioneiros panamenhos e porto-riquenhos, e os críticos apontaram que essa nova onda de estrelas representa um afastamento das raízes da música. Sua coragem desperta atenção em uma indústria onde ainda é um feito raro para os artistas latinos se destacarem e terem a mesma visibilidade de quem canta em inglês. Sua presença dominante em plataformas de streaming exige uma visibilidade que perturba o padrão da indústria e a segmentação do mercado. Balvin está aqui para ocupar espaço, então cabe ao setor seguir sua liderança e tentar acompanhá-lo. A sequência de sucessos do artista colombiano que nos leva para o lançamento do “Vibras” é uma indicação de que seu objetivo foi conquistado. Sua participação ao lado de Bad Bunny em “I Like It” da Cardi B já alcançou o status de ouro. O “Vibras” retoma de onde seus predecessores pararam, imaginando uma escala não limitada para a música latina e tentando redefinir o som popular global. Ele espera conseguir isso com a integração de elementos de afrobeat, moombahton e referências de flamenco. Com os recursos de Anitta, Rosalía e Carla Morrison, Balvin dá as boas-vindas a uma mudança que inclui as mulheres na música urbana. É difícil restringir quais músicas são essenciais no “Vibras”, pois o álbum é consistente em todo o seu processo. Cada música é fortemente enraizada no reggaeton e emparelhada com sons e influências experimentais.

Balvin sempre teve sua própria visão e esse novo projeto prova que ele não vai parar tão cedo. Colaborações com veteranos do gênero como Zion & Lennox em “No Es Justo” e Wisin & Yandel em “Peligrosa” se parecem mais com suas faixas antigas. Mas o “Vibras” também dá espaço para faixas mais experimentais como “Brillo”, uma balada de R&B e flamenco com participação da catalã Rosalía. Uma canção hipnotizante onde os delicados vocais da Rosalía brilham sobre um fundo minimalista, palmas intuitivas e timbres que dão uma precisão aérea à conversa com Balvin. A faixa-título, um prelúdio dramático que flutua sob as vocalizações sensuais da mexicana Carla Morrison acima de uma batida esparsa, é outra canção bastante experimental. A mencionada “No Es Justo” possui uma forte batida forte de reggaeton misturada com uma pontada de guitarra. A dupla porto-riquenha Zion & Lennox adiciona seu som habitual ao reggaeton de alto nível do J Balvin. Produzido por Chris Jeday, “Peligrosa” leva o álbum para mais perto de Medellín, local do qual Balvin é o principal exportador. Sobre uma batida acelerada e a notável falta de elementares de reggaeton, esta música consegue fazer referências ao gênero de forma mais abstrata. Caracterizada por sua suavidade, “Peligrosa” ainda faz uma transição sem esforço do canto para o rap, um movimento de assinatura dos dois artistas.

“Ambiente”, influenciada por metais, explora mais profundamente o gênero adjacente, mergulhando no reggae e flertando com um som romântico e clássico. “Cuando Tú Quieras” e “Noches Pasadas” mostram mais da evolução experimental no som do cantor – com batidas agudas e linhas de sintetizadores. “Ahora” é outra canção que fica mais próxima do formato de reggaeton românico do Balvin – graças às batidas marcadas como ponto primordial. “En Mí” abre com um chocalho suave que ajuda a construir um tom mais doce, enquanto os sintetizadores estão aquáticos e os vocais ligeiramente auto-ajustados. Assim como a citada, “Tu Verdad” opta pelo caminho mais lento e minimalista, com estruturas de batidas influenciadas pelo afrobeat. “Donde Estáras” é o mais próximo da assinatura Balvin em sua glória de reggaeton e pop, onde ele canta sobre querer conversar e voltar com sua ex-namorada. A última faixa, “Machika”, é uma colaboração com o cantor Jeon e a brasileira Anitta. “Machika” é a terceira parceria entre J Balvin e Anitta, pois ambos já tinham trabalhado anteriormente no remix de “Ginza” e “Downtown”. Ao contrário da cativante “Downtown”, “Machika” é um pouco decepcionante. É uma canção de reggaeton extremamente repetitiva e boringEm toda música, o verso mais interessante é justamente o da Anitta. É uma música conduzida principalmente pelas batidas de tambor, além de efeitos um pouco desnecessários.

Depois que o J Balvin faz uma comparação embaraçosa com a boneca Anabelle, a batida de tambor entra fortemente. O refrão é a pior coisa de toda a música, pois é formado apenas pela repetição irritante da palavra “machika”. Liricamente, é uma música superficial e sem propósito. Enquanto Anitta se auto-intitula como “a sensação da favela”, ela pelo menos consegue exaltar as mulheres durante o seu verso. A presença de Jeon é tão desnecessária quanto os sons de sirene ecoando ao fundo. “Vibras” desdobra-se rapidamente através de 42 minutos, e embora às vezes pareça haver uma falta de coesão, é um ótimo álbum. Tingir o reggaeton e outros ritmos parece ser a prova de que Balvin pretende cobrir todos os gêneros possíveis, numa ambiciosa tentativa de eliminar associações negativas à música latina. Ele quer que o reggaeton seja respeitado, onde o principal objetivo é o resgate da cultura latina. Com a ascensão de “Despacito” do Luis Fonsi e Daddy Yankee e o subsequente sucesso de “Mi Gente”, surgiu uma espécie de revolução musical latina, não muito diferente da explosão latina de décadas passadas, que produziu Carlos Santana nos anos 60, Gloria Estefan nos anos 80, Ricky Martin no final dos anos 90 e Shakira no início dos anos 2000. De qualquer forma, indo além dos rótulos do mercado latino para produzir algo codificado com o pop global, o “Vibras” abre infinitas possibilidades para o J Balvin. Uma oportunidade de auto-reinvenção constante que poderá lhe garantir longevidade.

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Favorite Tracks:

“Mi Gente (feat. Willy William)” / “Ambiente” / “No Es Justo (feat. Zion & Lennox)”.

São Paulo, 22 anos, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas e séries. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.