Review: Eminem – Revival (2017)

Lançamento: 15/12/2017
Gênero: Hip-Hop, Rap Rock
Gravadora: Aftermath Entertainment / Shady Records / Interscope Records
Produtores: Dr. Dre, Rick Rubin, Aalias, Alex da Kid, DJ Khalil, Emile, Eminem, Fredwreck, Frequency, Illa da Producer, Just Blaze, Luis Resto, Mark Ronson, Mr. Porter, Neff-U, Rock Mafia, Scram Jones, Skylar Grey e Trevor Lawrence.

Desde que lançou o álbum “The Slim Shady LP” (1999), Eminem têm estado no topo da indústria da música. Ele já ganhou 15 Grammy Awards, 1 Óscar e vendeu cerca de 172 milhões de álbuns e singles. No final de 2009, o rapper foi eleito o artista da década pela Billboard Magazine, pelo enorme sucesso nos charts dos Estados Unidos. No entanto, mesmo com um grande sucesso comercial, Eminem já passou por grandes adversidades em sua vida. Em 2007, por exemplo, quase morreu de uma overdose de metadona. O seu nono álbum de estúdio, “Revival”, foi divulgado em 15 de dezembro de 2017, e provavelmente matou a saudade dos seus fãs. O disco possui dezenove faixas e chega a impressionante marca de 77 minutos de duração. Algo normal para o rapper, porém, uma média muito longa para a indústria. Marshall Mathers é o rapper mais conhecido de todos os tempos e possui os maiores números de vendas de qualquer outro artista do gênero. Em seu auge, ele dominou as paradas musicais e influenciou uma geração de novos artistas de hip-hop. No início da década de 2000, Eminem atraiu a atenção por conta dos seus personagens, muitas vezes cômicos e cuspiu rimas na velocidade da luz. Entretanto, em seu mais recente projeto, Marshall não fez jus ao seu legado.

“Revival” é um LP confessional que reflete sobre inseguranças, fama, relações familiares, depressão, abuso de drogas e esfera política. Aos 45 anos de idade é natural que o rapper preferisse explorar temas como esses. Porém, ele se perde em meio a tantas dúvidas, refrões carentes de qualidade e piadas sem graça. A estrutura do álbum é definitivamente uma bagunça e tropeça na infinidade de temas. Além disso, as faixas mais políticas não solidificam sua opinião e pecam pela falta de foco. Basicamente, Eminem apenas repete o que outros artistas de hip-hop vêm dizendo desde a última eleição presidencial dos Estados Unidos. Dito isto, “Revival” não possui comentários inteligentes, criativos ou inovadores. Apenas vê Marshall Mathers repetindo ideias de outras pessoas sobre batidas mal produzidas. Pela primeira vez, Eminem se mostra inseguro sobre determinado assunto e não reproduz algo substancial. Em outras palavras, “Revival” proporciona uma experiência auditiva completamente exaustiva. As poucas mensagens perspicazes são ofuscadas pela produção boring e sem brilho. A primeira voz que ouvimos no álbum é de ninguém menos que Beyoncé, durante o primeiro single “Walk on Water”.

Uma balada de piano que, além de apresentar Beyoncé nos vocais, possui a presença de Skylar Grey no piano. É uma canção que explora o peso de cumprir com as expectativas que são colocadas sobre você. Aqui, o rapper discute sua possível irrelevância de uma forma extremamente emocional. “Eu ando na água / Mas não sou Jesus / Eu ando na água / Mas só quando congela”, Beyoncé canta no gancho principal. Depois do belo refrão realizado por ela, Eminem fala honestamente sobre o medo de decepcionar os fãs. “Por que nossas expectativas são tão altas? / Essa é a barra do padrão que eu impus?”, ele se pergunta. “Walk on Water” é uma música honesta, porém, igualmente auto-depreciativa. “É a maldição do padrão / Que o primeiro álbum Mathers impôs / Sempre buscando o verso que ainda não criei (…) / Para manchar todo legado, amor ou respeito que eu conquistei? / E sempre parece que estou alcançando o objetivo / Até eu sentar no carro, escutar, e começar a encontrar defeitos / Tipo: essa merda é um lixo”, ele diz no segundo verso. Marshall fala sobre as lutas que necessita enfrentar no jogo do rap, dizendo que sempre precisa se superar para cumprir com a expectativa das pessoas.

“Walk on Water” é uma balada conduzida por um piano de cauda e arranjo de cordas que usa uma estrutura parecida com a de “Love the Way You Lie”. O lindo refrão cantado por Beyoncé parece indicar que o álbum será introspectivo e maduro. Entretanto, imediatamente o registro mergulha num repertório ambicioso e obsoleto. Lançada como single promocional, “Untouchable” fornece uma discussão sobre a brutalidade policial e o racismo nos Estados Unidos. Uma canção de rap-rock que tenta cobrir a tensão racial sobre um cenário delirante e uma pesada guitarra elétrica. A mensagem desta faixa é boa, embora a produção seja confusa e prejudique o contraste das letras. Produzida por Emile Haynie, “River” é uma colaboração entre Eminem e o onipresente Ed Sheeran. Uma música de hip-hop e folk sobre um relacionamento com uma mulher casada, que leva adiante uma gravidez indesejada. Sem dúvida, “River” é um número bastante comercial e radiofônico, especialmente por causa do gancho de Ed Sheeran. Entretanto, carece de substância e a repetição torna sua escuta muito cansativa. A sétima faixa, “Remind Me”, possui fortes riffs de guitarra elétrica e uma boa amostragem de “I Love Rock ‘n Roll” (Joan Jett and the Blackhearts). 

Porém, sua credibilidade é jogada pelo ralo quando ficamos atentos às letras. Liricamente, é muito grosseira e de mau gosto, onde Eminem volta a canalizar seu alter-ego Slim Shady. “Você está usando essas calças que não te servem / Essa bunda nem mesmo se entrega / É por isso que você fica bem nisso, não importa o quê, hein?”, ele rima no primeiro verso. Mais tarde, ele acrescenta algumas piadas juvenis: “Estou olhando para seu traseiro apertado como um turista / Sua bunda é forte como a diarreia”. Depois de algumas faixas embaraçosas, eu me pergunto o porquê Eminem transformou num interlúdio uma faixa com grande potencial como “Revival (Interlude)”. Esta faixa apresenta um breve verso da falecida Alice and the Glass Lake e elementos de “Human of the Year” da Regina Spektor. Em seguida, “Like Home”, com Alicia Keys, fala sobre o orgulho de ser americano, porém, fazendo uma repreensão a América governada por Donald Trump. Eminem fornece um tom desafiador, entra em defesa dos Estados Unidos e contra-ataca a ameaça de Trump. É bom vê-lo usando sua voz para comentários sociais, enquanto o refrão de Alicia Keys mantém um tom motivacional. Esta faixa é certamente a maior declaração política do repertório.

Skylar Grey, que co-escreveu várias faixas do álbum, canta o refrão de “Tragic Endings”. Aparentemente, esta música é sobre o relacionamento de Eminem com sua ex-esposa Kim Scott. Embora o refrão não seja marcante ou poderoso, a doce voz de Skylar Grey é um bom contraponto para as revelações desesperadoras do rapper. “Heat”, por sua vez, usa um riff de guitarra aceitável em sua produção, porém, as letras apenas falam sobre querer fazer sexo com uma mulher. Como boa parte das suas músicas sobre mulheres, as letras de “Heat” fazem algumas referências pesadas e explícitas. No ano passado, Eminem participou do último álbum da P!nk numa faixa chamada “Revenge”. Consequentemente, ela quis retribuir o favor participando da cativante “Need Me”, a décima sexta faixa do “Revival”. A voz da P!nk encaixou-se muito bem ao lado do baixo e bateria, enquanto Eminem forneceu algumas harmonias vocais durante os versos. Liricamente, ambos falam sobre relacionamentos tóxicos: “E estou começando a pensar que talvez você precise de mim / Talvez você precise de mim”. Surpreendentemente, o álbum fecha com três faixas muito sólidas. A primeira delas, “In Your Head”, possui uma excelente amostragem de “Zombie”, hit de 1994 da banda The Cranberries.

Liricamente, é sobre a fuga de Marshall da realidade para a dependência de drogas durante os anos 2000. Num registro cheio de batidas mal acabadas, a guitarra cativante de “In Your Head” combinou perfeitamente com o fluxo de Marshall Mathers. Aqui, ele debate sobre sua instabilidade emocional e, ao mesmo tempo, estabelece um ótimo clímax para as duas últimas faixas do álbum. “Castle” é basicamente uma série de três cartas que Eminem escreveu para sua filha. Ele descreve sua preocupações como pai querendo o melhor para ela, menciona o fracasso comercial do seu primeiro álbum, suas dúvidas para continuar perseguindo seu sonho e, por último, menciona o momento em que quase morreu de overdose de metadona. “Castle” é, liricamente, um verdadeiro vislumbre do talento narrativo de Marshall Mathers, algo que já vimos anteriormente em “Stan”. Na última faixa, “Arose”, ele está vulnerável e expressa os seus sentimentos a respeito do momento em que conseguiu se livrar da metadona. A batida sombria e o vocal de apoio lutuoso foi o suporte ideal para suas rimas. No “Revival”, Eminem tentou explorar diferentes gêneros e ser mais político, mesmo permanecendo fiel ao seu estilo.

Entretanto, nada disso contribuiu para deixar o álbum mais impactante e memorável. Em suma, “Revival” falha na tentativa de ser verdadeiramente marcante e carece de melhores ideias. Elementos para fazer sucesso estão espalhados pelo seu interior, mas o rapper não se preocupou em organizá-los da melhor forma. Em sua maior parte, Marshall ficou preso em suas inseguranças e por um momento nem parece aquele que já foi um dos melhores da indústria. Aliás, há muito tempo ele não lança um clássico, como “The Slim Shady LP” (1999), “The Marshall Mathers LP” (2000) e “The Eminem Show” (2002). No decorrer dos anos, ele amadureceu como ser humano, mas sua música não evoluiu da mesma forma. Musicalmente, o “Revival” não é muito diferente dos seus últimos discos, pois está cheio de baladas de piano e artistas mainstream. A propósito, se as batidas fossem melhores, provavelmente o repertório seria mais convincente. Desta vez, os lendários Dr. Dre e Rick Rubin não foram capazes de produzir algo inspirador ou instantaneamente cativante. Em última análise, digo que “Revival”, assim como seus três últimos registros, é particularmente frustrante.

São Paulo, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.