Review: Eminem – Kamikaze (2018)

Lançamento: 31/08/2018
Gênero: Hip hop
Gravadora: Aftermath Entertainment / Interscope Records / Shady Records
Produtores: Dr. Dre, Eminem, Paul Rosenberg, Swish Allnet, Fred Ball, Boi-1da, Illa da Producer, Jeremy Miller, Tay Keith, LoneStarrMuzik, Mike Will Made It, Luis Resto, Ronny J, S1, Tim Suby e Jahaan Sweet.

A habilidade do Eminem ainda permanece intacta, mas sua música não tem a inspiração de antigamente. Suas deficiências líricas ficaram mais evidentes com o passar do tempo, consequentemente, “Kamikaze” é resolutamente um álbum antiquado.

Considerando que o Eminem lançou este projeto repentinamente e sem qualquer aviso prévio, precisamos de alguns dias para nos familiarizarmos completamente com ele. A produção é muito semelhante ao estilo de música que o tornou famoso, mas suas falhas inerentes nos últimos anos surgem novamente no “Kamikaze”. Ninguém pode questionar sua capacidade de escrever um verso: sua obsessão com a estrutura e o ritmo, e o talento para as rimas é incrível por si só. Entretanto, muitas vezes, sua técnica é apagada por piadas que perderam a graça há muito tempo. Eminem ataca várias pessoas neste álbum e reage ferozmente ao decepcionante desempenho comercial e crítico de seu antecessor, o “Revival” (2017). Ao longo dos seus 20 anos de carreira, Marshall Mathers acumulou uma grande base de fãs graças ao seu estilo distinto e lirismo inteligente. Sua criatividade o manteve relevante no rap em constante mudança, enquanto as vendas acima de 100 milhões e os 15 Grammy Awards são um testemunho de todo o seu sucesso. Este lançamento surpresa foi especialmente surpreendente, dado o fraco desempenho do “Revival” (2017). Em todo o “Kamikaze”, a resiliência do Eminem é novamente testada. Apesar do vício em drogas, uma série de controvérsias e incontáveis ​​disputas públicas, Eminem mostrou sua capacidade de superação.

No “Kamikaze”, o rapper está respondendo claramente ao feedback que recebeu em seu último LP, e o faz de uma maneira extremamente direta. Ele está tentando recuperar seu status como um ícone do rap. O ritmo das músicas e o seu fluxo mudam dramaticamente à medida que ele desafia a si mesmo a ser tão rápido e complexo quanto pode. O hip hop evoluiu de tantas maneiras diferentes desde o auge do Slim Shady. Rappers hoje estão tristes, bravos, drogados e loucos, mas de uma forma muito diferente daquela apresentada pelo Eminem há vinte anos. Houve um tempo em que ele esteve no topo, tanto criticamente quanto comercialmente. O “The Marshall Mathers LP” (2000) ainda é o álbum de rap mais vendido de todos os tempos. Mas nos últimos dez anos, ele caiu e sua música foi se tornando cada vez mais acessível, obsoleta e radio-friendly, enquanto suas letras, uma vez ditas como notáveis por causa do humor, agora parecem imaturas. O “Revival” (2017), por exemplo, foi uma bagunça sonora com letras desinteressantes, produção ruim e colaborações com uma série de artistas pop. Mas, menos de doze meses depois, o rapper resolveu lançar o “Kamikaze” de surpresa. É importante entender o contexto por trás dele, porque age como uma resposta para todos aqueles que condenaram o “Revival” (2017). Felizmente, este novo LP é um pouco mais agradável.

As músicas são mais focadas no lirismo e trocadilhos, em vez de salientar os instrumentais mal infundidos. Também vale a pena mencionar que o intervalo de tempo entre o “Revival” (2017) e o “Kamikaze” é o período mais curto entre álbuns em toda carreira do Eminem. No decorrer do repertório, ele ridiculariza o estado atual do rap, desde a nova onda de rappers até os astros acusados de não escrever suas próprias letras. Entretanto, ainda falta algo de especial que deu início à carreira do Slim Shady. “Kamikaze” nasceu da raiva, as rimas são rápidas e muito afiadas. Mas embora seja um retorno bem-vindo à forma lírica do Marshall Mathers, as críticas do ano passado são mais do que justificadas. Além disso, é difícil não reparar na hipocrisia do Eminem enquanto você ouve este álbum. E o maior problema surge quando ele é incapaz de entregar uma obra-prima que exibe consistência. “Kamikaze” é melhor do que a maioria dos seus últimos álbuns, mas o traz como uma pessoa amarga por causa de suas próprias frustrações. “The Ringer” ecoa algumas das obras mais antigas e populares do Eminem, seu vicioso alter-ego Slim Shady faz uma aparição, enquanto ele destrói artistas como Lil Yachty, Lil Pump e Lil Xan. Mas os ataques do Eminem não se limitam aos rappers: ele também critica os meios de comunicação por usar seu nome como ponto de venda.

Às vezes, ele é descontroladamente irracional e incoerente, mas isso faz parte de sua raiva. Mas para um cara que uma vez recitou “Just Don’t Give a Fuck” em 1998, ele certamente parece se importar com os outros agora. Apesar disso, “The Ringer” é, de fato, uma de suas faixas mais fortes nos últimos anos – alimentada pela raiva como um animal selvagem quando é provocado. “O Revival não se tornou viral!”, ele grita zombando do Kendrick Lamar. Ele cospe em um ritmo impressionante, mas tanto o refrão quanto a batida do Mike Will Made It se tornam irritantes conforme avançam. E é aqui que ele oferece um dos refrões mais corriqueiros do álbum em uma estranha forma de cantar. Embora reconheça a reação que seu último álbum teve, Eminem não é o tipo de pessoa que simplesmente aceita isso. “Lucky You”, que apresenta o rapper Joyner Lucas, é muito mais reflexiva. Em seu verso, Eminem discute a venda de sua alma para ser comercialmente bem sucedido. Ganhando 15 Grammys de suas 43 indicações, ele canta que está na indústria pelo reconhecimento e espera receber sucesso contínuo. “Eu sou como um disco quebrado toda vez que eu quebro um recorde / Ninguém poderia tirar o legado”, ele diz. Ademais, Eminem também lança algumas indiretas para rappers que usam ghostwriters. Joyner Lucas funciona principalmente porque tem a habilidade lírica de acompanhar a entrega do Eminem.

Apesar da batida ser meio genérica, “Lucky You” é uma das melhores faixas do repertório. Uma demonstração adicional da recusa do Eminem em se conformar com as críticas de terceiros, vem nas duas esquetes do “Kamikaze”. Em “Paul”, o empresário do Eminem, Paul Rosenberg, deixa uma mensagem de advertência de que o álbum pode ser uma má ideia, já que em grande parte ele ataca seus colegas de profissão. Eminem responde com uma sátira em “Em Calls Paul”, no qual ele não expressa dúvidas sobre o álbum e lança ataques para um crítico musical não identificado. “Normal”, que divide o álbum com um fluxo cantado, também fornece uma pausa temática. Eminem toca em um tema comum em suas canções: relacionamentos fracassados. Ele aborda despreocupadamente a violência doméstica, normalizando-a dizendo que ela faz “o amor um pelo outro ficar mais forte”. Minha tolerância com ele acaba quando a misoginia casual desta faixa é alinhado com a vida real do rapper. Como “Normal”, “Stepping Stones” tem semelhanças com o seu trabalho no início dos anos 2000, mais obviamente “When I’m Gone”. Ele abandona temporariamente seu rap veloz em favor de uma apresentação mais cantada. O exterior do Eminem desaparece quando ele expressa arrependimento por erros que ele cometeu tanto publicamente quanto em particular.

Liricamente, “Stepping Stone” é uma reflexão sobre o grupo D12. Em meio à intensidade frenética do “Kamikaze”, esta canção é uma mudança de ritmo bem-vinda. Ele começa relembrando a popularidade do grupo no início dos anos 2000, que mais tarde acabou por conta da morte do Proof. “Not Alike”, que serve como uma crítica para a atual cena do rap, apresenta o colaborador Royce da 5’9, que apareceu pela última vez no “The Slim Shady LP” (1999). Sobre a batida do Tay Keith, essa música também possui versos direcionados ao Machine Gun Kelly. “Not Alike” é uma estilização inteligente de fluxos e batidas de trap que podem ser encontradas em qualquer lugar. Liricamente, é o tipo de ataque perspicaz que alguns rappers superficiais do momento estavam precisando. A faixa título, “Kamikaze”, parece ser intencionalmente irritante e surrealmente caricatural. Mais uma vez, Eminem tenta ser esperto e força outra piada horrendamente juvenil. Falando em piadas, essa é outra das piores características do registro. Ele aponta o dedo para todo mundo, desde o Tyler, The Creator até o Logic nesta faixa, às vezes destruindo carreiras e outras vezes dizendo quem são os verdadeiros. Você realmente não pode mexer com o Eminem. “Fall”, por sua vez, é um número onde Slim Shady coloca sua mira em Joe Budden, Charlamagne Tha God, Earl Sweatshirt e principalmente Tyler, the Creator.

Os dois últimos já disseram que o Eminem é uma influência do passado, mas desde então passaram a criticar seus novos álbuns. Aliás, o cara sabe de sua influência no hip hop e menciona no final da música alguns nomes que ele inspirou. Com vocais e co-escrita de Justin Vernon, mais conhecido como membro da banda Bon Iver, “Fall” contém muitas referências à cultura pop. É uma peça sonoramente agradável, habilmente produzida e liricamente controversa. Em um conjunto de linhas, Eminem ataca Tyler, The Creator, usando um insulto homofóbico, que é desnecessário devido às especulações sobre a sua sexualidade após o lançamento do “Flower Boy” (2017). A palavra “faggot” é definitivamente desnecessária em qualquer contexto. Por causa disso, “Fall” foi a faixa mais duramente criticada após a liberação do “Kamikaze” (2018). Aplicando um ritmo fluído, Marshall Mathers consegue bater forte em suas letras. No entanto, em determinados momentos, ele é desnecessariamente brutal. Os vocais em falsete do Justin Vernon, que reprovou boa parte das letras da música, conseguem criar um refrão memorável. O fluxo do Eminem ainda permanece intacto, entretanto, boa parte de suas músicas atuais não possuem a mesma inspiração do passado. Chamar o Tyler, the Creator de “bicha” foi completamente inconveniente e dispensável. Seria negligente ignorar “Fall”, uma vez que seu fluxo é envolvente e a produção do Mike Will Made It requintada.

O teclado e os sintetizadores emolduram a voz do Vernon, enquanto o Eminem apresenta letras caracteristicamente polêmicas. Sonoramente falando, é uma boa canção, mas no geral possui algumas linhas muito ruins. Em seguida, o repertório é arrastado para baixo por duas músicas fracas que não possuem qualquer relevância temática. As chatas “Nice Guy” e “Good Guy”, ambas com vocais de Jessie Reyez, são completamente desinteressantes. A primeira, com refrão cantado pela voz dolorosamente estridente da Reyez, é francamente doloroso de se ouvir. O verso do Eminem é abaixo do esperado e quase não possui substância. Enquanto isso, a segunda é uma balada sombria e uma melhora significativa, se for comparada com a anterior. No entanto, ainda é um declínio das primeiras faixas do álbum. Essas músicas desconexas diminuem drasticamente a coesão do registro. A última faixa, “Venom”, é um rap rock que fará parte da trilha sonora do filme de mesmo nome. Este álbum contém muitas indiretas para pessoas que criticaram o rapper no passado. Sua tentativa de trazer de volta a magia do Slim Shady parece uma pessoa tentando desesperadamente ser relevante. A produção é bastante genérica, mesmo possuindo produtores como Ronny J, Mike Will Made It, Tay Keith e Boi-1da. E, quando empilhado ao lado de toda a sua discografia, assim como seu trabalho mais recente, não chega perto de seus clássicos e pode afetar seu legado. Infelizmente, mesmo depois de todos esses anos, Eminem continua o mesmo.

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Favorite Tracks:

“Lucky You (feat. Joyner Lucas)” / “Stepping Stone” / “Not Alike (feat. Royce Da 5’9)”.

São Paulo, 22 anos, formado em Recursos Humanos, apaixonado por músicas e séries. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.