Review: Ed Sheeran – No.6 Collaborations Project (2019)

Poucos álbuns têm sido tão destinados ao mainstream quanto o “No.6 Collaborations Project”, embora tenha pouca delicadeza ou fluência cultural. Muitas vezes, Ed Sheeran se sente como o convidado em sua própria festa.

Dado todo o tempo que Ed Sheeran passou sozinho no palco com seu violão e seus pedais, sempre foi fácil classificá-lo como um artista solo, enquanto lotava estádio após estádio. Um álbum de colaborações pode parecer incompatível com essa imagem, mas Sheeran é famoso por ser um artista extremamente amigável. Já se foram os dias de símbolos matemáticos como títulos – embora talvez não; ele ainda não lançou um álbum com o sinal de subtração. Sua ascensão à fama foi nada menos que extraordinária, passando de um artista independente para aquele com diversos hits, antes de quebrar recordes com o lançamento de “Thinking Out Loud” e “Shape of You”. Tão extraordinário quanto isso era o declínio na qualidade de sua música; era um sinal do que estava por vir no seu quarto álbum de estúdio, “No. 6 Collaborations Project”. Esse projeto não é parecido com seus três primeiros discos; ao contrário, é mais parecido com um álbum do DJ Khaled. Sheeran construiu uma carreira substancial cantando com uma voz comovente que era diferente de qualquer coisa nas rádios – e, neste ponto de sua carreira, parece que ele abandonou essa singularidade.

O acompanhamento do EP “No.5 Collaborations Project” (2011), não reproduz o típico som do Ed Sheeran que ouvimos no decorrer da década. O que mais chama atenção quando olhamos para a tracklist é a vasta gama de artistas A-List do mundo do rap – bem como um pequeno punhado de músicos de R&B e pop. A lista de convidados inclui Khalid, Camilla Cabello, Cardi B, Justin Bieber, Travi$ Scott, Eminem e Bruno Mars. O próprio Ed Sheeran diz que queria trabalhar com pessoas de quem atualmente é um grande fã. Entre tantas personalidades, o recatado Sheeran aparece como algum tipo de MC tímido, mas entusiasmado, ao invés de ser o ponto focal do álbum. Ele parece feliz em assumir o papel de coadjuvante na maior parte do repertório, seguindo o estilo dos seus colaboradores e se perdendo um pouco no processo. Dito isto, “No.6 Collaborations Project” não faz parte do cânon matemático do Ed Sheeran e funciona como uma compilação colaborativa, e não como um álbum coeso. Não é uma audição envolvente, mas, para ser justo, tem algumas contribuições cativantes.

As músicas variam de inofensivas a esquecíveis, além de atrocidades absolutas; mas pelo menos ele parece estar se divertindo – é justo dizer que a qualidade do álbum diminui gradualmente. Liricamente, o repertório ocupa um espaço mais estreito. Repetidas vezes, Sheeran reclama de se sentir desconfortável nos círculos de amizade – um tema incoerente para se discutir em um álbum colaborativo. O que acontece quando você coloca Ed Sheeran e Justin Bieber na mesma música? Normalmente, o resultado é um sucesso. Para eles, “I Don’t Care” representou um retorno aos holofotes depois de um tempo longe. É um emparelhamento inteligente que funciona em escala global e mostra o seu talento para melodias crescentes. Dessa vez, ele abandonou os riffs acústicos e chamou o produtor Max Martin para criar um ritmo vagamento influenciado pelo dancehall e sons eletrônicos de “Shape of You”. 

Também mostra o talento do Ed para um refrão impermeável. Inquieta, alegre e com uma melodia agitada, a música capta uma sensação de estranheza que poderia dar lugar ao abandono. “Eu estou em uma festa que eu não quero estar”, Sheeran começa em uma rápida cadência antes de mudar para algo pseudo-soulful. Mais tarde, Bieber reduz o leve desconforto de seu amigo dizendo: “Com todas essas pessoas ao redor, fico louco de ansiedade” – uma admissão surpreendente para uma música pop. A música continua descrevendo um cenário em que ambos artistas estão em uma festa. Mas este não é o tipo de festa que eles podem desfrutar. O refrão fica definitivamente cativante após algumas escutas, mas ao mesmo tempo não há muita coisa acontecendo nessa canção. Com uma pequena ajuda de Chance the Rapper e PnB Rock, Ed Sheeran resolveu homenagear as mulheres em “Cross Me”.

Ela começa um pouco decepcionante para ser honesto; graças a introdução apresentada por PnB Rock. As coisas melhoram com a chegada do próprio Ed Sheeran. Seu canto soa naturalmente melhor. O trabalho de produção se beneficia de um padrão de bateria estável e sintetizadores atmosféricos. Interpolando um som eletrônico, a música oferece uma produção realmente fluida e com vida própria. A música fala sobre estar em um relacionamento com seu único e verdadeiro amor. O primeiro verso e o pré-refrão realizados por Ed Sheeran detalham quão carinhoso e protetor ele é. Ele diz que ele tem plena fé em sua garota, então adverte outros homens a não perder seu tempo se aproximando dela. No segundo verso, recebemos a participação de Chance the Rapper, que nos lembra de todo reconhecimento que as mulheres merecem. Produzido por Fred Gibson, também há um pouco de R&B nesta criação pop. A bateria atmosférica de “Beautiful People” é polida e intocada, enquanto o sintetizador é completamente nostálgico e emotivo.

O estilo descontraído do Khalid combina bem com a suavidade vocal do Ed Sheeran, à medida que se unem para resistir aos efeitos negativos que a fama pode ter na vida de uma pessoa. Os dois insistem em permanecer fiéis a quem eles são enquanto cantam: “Não nos encaixamos bem porque somos apenas nós mesmos”. É verdade que é um álbum de colaborações, mas isso não significa que Ed Sheeran não deve ser o convidado em sua própria festa – o que acontece em faixas como “South of the Border”. Talvez esse fosse o plano? Não tenho ideia, mas isso não agrega valor a um projeto onde as estrelas convidadas têm momentos mais brilhantes que o artista principal. “South of the Border” parece algo que nenhum deles teria feito por vontade própria. Além do sabor latino na melodia da guitarra, possui um som perfeitamente adequado para os vocais da Camilla Cabello. O problema é o Ed Sheeran, que não consegue encontrar equilíbrio na primeira metade da música. Os momentos mais brilhantes do álbum ocorrem durante a interação entre Ed Sheeran e outros artistas britânicos. “Take Me Back to London” é liricamente simples, mas incrivelmente genuína. Com apoio do Stormzy, é uma música de grime muito melhor em termos de fluxo e letras. É um sucesso definitivo onde o rap do Ed Sheeran apresenta alguma substância.

Embora apresente diferentes estilos ao longo do LP, ele permanece fiel ao seu som mais suave em faixas simbólicas. “Best Part of Me” e “Way To Break My Heart”, com YEBBA e Skrillex, respectivamente, são características mais lentas e sensíveis. As participações especiais, no entanto, dão nova vida ao que poderia ter sido uma experimentação. “Way to Break My Heart”, em particular, é uma peça de amor tradicional – o tipo de música que lhe deu fama inicialmente – com um pouco de dubstep. O dueto com Travi$ Scott, “Antisocial”, é outro destaque discutível do álbum – possui ganchos cativantes e uma quantidade surpreendente de ousadia em pouco menos de 3 minutos. A bateria patenteada do Scott está inerentemente presente, assim como as improvisações líricas. É uma química estranha exsudada entre dois músicos que não tem nada em comum. O som auto-sintonizado e pesado do rapper de Houston adiciona uma sensação sombria e distante. A presença de 50 Cent e Eminem em “Remember the Name” surpreende mais do que o esperado. A batida parece algo retirado diretamente de 2006. Ainda é bom ouvir algo tolerável sair da voz do Slim Shady – uma agulha no palheiro atualmente. Dito isto, “Remember the Name” faz um bom trabalho ao permitir que cada artista mostre seu talento e som específico pelos quais se tornaram famosos, sem pisar no pé um do outro. Cada artista lança um verso completo sobre sua ascensão à fama através de provações e tribulações. Embora Sheeran tenha enfrentado muitas críticas por incluir o rap em sua música no passado por apropriação e estilo inadequado, ele mostra um fluxo decente e consegue acompanhar as lendas do rap.

Outra música onde Sheeran e seus convidados atiram em todos os cilindros é a excêntrico “Feels”, com Young Thug e J Hus. O rap melódico e auto-sintonizado do Thug é a peça perfeita para o refrão apertado do Sheeran – além disso, J Hus se sente completamente confortável sobre a batida saltitante. “BLOW” encerra o LP com uma energia estrondosa – mas não de uma maneira boa. É uma colaboração lasciva com Chris Stapleton e Bruno Mars que chocará os fãs mais devotos do Ed Sheeran. O trio é uma escolha bastante incomum, com cada músico vindo de uma formação musical diferente do country, R&B e pop. “BLOW” é uma canção de hard rock pesada coberta por guitarras elétricas e pancadas de bateria. “Eu estou indo, querida / Eu estou indo até você / Engatilhado, carregado, vou dar meu tiro esta noite”, eles cantam no refrão sexual. É possivelmente a colaboração mais decepcionante do álbum – um verdadeiro desastre. Por fim, “No.6 Collaborations Project” é uma coleção de músicas pop descartáveis ​​que Ed Sheeran escreveu com seus companheiros para rir e dominar as plataformas de streaming. Ele nunca se sente na vanguarda; em vez disso, age como um fã obstinado na frente do concerto de seu artista favorito. Ele é um admirador falhando em levar sua arte adiante.

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Favorite Tracks:

“Beautiful People (feat. Khalid)” / “Cross Me (feat. Chance the Rapper & PnB Rock)” / “Take Me Back to London (feat. Stormzy)”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.