Review: David Gray – Gold in a Brass Age (2019)

Lançamento: 08/03/2019
Gênero: Rock, Rock alternativo, Folk rock
Gravadora: IHT Records
Produtor: Ben de Vries

“Gold in a Brass Age” é quente, atraente, possui um conforto imediato e envolve o ouvinte em um mundo completamente texturizado e reconfortante.

Embora David Gray tenha vários hits e álbuns de sucesso, sua música não possui o imediatismo que se poderia esperar de um artista de sua estatura. Tome “Babylon” como exemplo, sua canção mais conhecida, a produção é subestimada; o riff de guitarra central é flutuante e leve; e o refrão possui uma melodia humilde e instantaneamente irresistível. Quando desmembrada, “Babylon” parece uma faixa básica em uma dúzia de situações diferentes, mas algo sobre Gray torna possível pegar o que é comum e, através de composições detalhadas e um pouco fora de ordem, transformá-las em algo verdadeiramente grande. Sua música recompensa a paciência. Seus álbuns se expandem com uma profundidade recém descoberta. “Mutineers” (2014), por exemplo, era inicialmente demasiado e lânguido – preso no meio do tempo – mas posteriormente suas canções floresceram de tal forma que o mesmo se tornou completamente interessante. O mesmo vale para “Gold in the Brass Age”, o décimo primeiro álbum de estúdio do David Gray. O primeiro single, “The Sapling“, culmina em uma linda treliça vocal – com uma cadência quase gospel; uma técnica reprisada com sucesso em “Hall of Mirrors”. A nítida batida do segundo single, “A Tight Ship”, proporciona ao registro uma rapidez necessária.

Para a maior parte de suas músicas, no entanto, “Gold in the Brass Age” adota uma abordagem similarmente granular e lenta, do tipo tipificada por álbuns como “White Ladder” (1999) e o minimalista “Foundling” (2010). Assim com “Mutineers” (2014), que foi produzido por Andy Barlow, “Gold in the Brass Age” continua indo em direção ao folk. Para esse disco, ele se uniu a Ben de Vries, filho do famoso produtor Marius de Vries, cuja produção polida remonta aos dias em que Gray chegou ao estrelato com “White Ladder” (1999). O próprio título se parece com um sucessor espiritual de “Babylon”, especialmente por causa do peso inicial da guitarra. No entanto, seria incorreto chamar “Gold in the Brass Age” de um álbum reminiscente do passado, uma vez que se baseia claramente nos pontos fortes do “Mutineers” (2014). Gray faz isso adotando um tipo de composição dirigida pela precisão, uma espécie de minimalismo enganoso. Mesmo que algumas dessas músicas construam um refrão de múltiplas camadas, nunca há um pingo de excesso. Cada nova harmonia ou instrumento incorporado tem um propósito claro e específico, e em vários momentos o registro puxa a música de volta ao seu clímax, ao invés de fornecer mais elementos sonoros. “Hall of Mirrors”, um clássico no quesito produção, deriva seu impulso de uma batida eletrônica, sobre a qual sintetizadores e teclas entram e saem.

Durante boa parte da música, há apenas a voz, o baixo e a bateria, com outros instrumentos fornecendo vislumbres importantes de entusiasmo para acentuar os vocais. Assim como a música parece estar crescendo, tudo cai para fora da mixagem, exceto por alguns dedilhados de guitarra e abafados vocais de fundo. Em seguida, Gray introduz o refrão vocal, cantando: “Baby, quando esse chão muito sólido / Vem subindo / Ei, não olhe para baixo agora”. É um final otimista que cimenta o seu status como um grande escritor contemporâneo. Ao contrário das letras de suas melhores canções de amor – “This Year’s Love”, “Be Mine” e “The One I Love”, para citar algumas – “Gold in the Brass Age” tem uma abordagem abstrata e imagística, evitando linhas narrativas ou conceitos centrais muito óbvios. Existem alguns agrupamentos lineares relativamente diretos, como a bela reflexão de “A Tight Ship”. Mas estão espalhados fracamente por todo o LP, que prefere imagens opacas como: “Mesmo dilúvio antigo / Coloque sentimentos mais sutis na centrífuga”, ou “Cavalos brancos trovejantes / Sempre congelados em estase”. Várias dessas misturas líricas mais vagas criam a sensação de “menos palavras que precisam ser compreendidas” e de “mais notas que precisam ser ouvidas”, da mesma forma que se ouve um acorde de guitarra ou um arpejo de piano.

Isso é música, afinal de contas; o som toma primazia, e Gray claramente adotou esse mantra ao escrever o “Gold in the Brass Age”. Essa abordagem beneficia o sentimento textural e não-narrativo do registro, mas às vezes é fácil desejar alguma clareza em meio a toda essa coisa abstrata. Quando Gray conta uma história usando imagens poéticas, como ele faz em “Birds of the High Arctic”, do “Mutineers” (2014), tudo parece formar um círculo. Musicalmente, o disco às vezes também flutua. Na canção de ninar “It’s Late”, Gray repete: “É tarde, acorde / Mel, acorde, é tarde”. Mas o ritmo sonambúlico da música é mais passível de manter o ouvinte em paz cochilando. “Furthering” conclui com um punhado de experimentos envolvendo auto-sintonização na sua voz, indicações de que ele talvez tenha passado algum tempo ouvindo “22, A Million” (2016) do Bon Iver. Mas há um lado positivo em momentos como esses – já que mesmo com quase 30 anos de carreira – David Gray ainda está explorando novos sons. Ele ainda não perdeu a habilidade de escrever canções que crescem ao longo do tempo, e liricamente continua sendo um dos mais subestimados compositores vivos. Em suma, “Gold in the Brass Age” é uma adição impressionante na sua discografia que, embora leve tempo para ser entendido, alcança um raro equilíbrio.

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Favorite Tracks:

The Sapling” / “A Tight Ship” / “Hall of Mirrors”.

São Paulo, profissional de Recursos Humanos, apaixonado por músicas, filmes, séries e animes. Fã dos Beatles, amante do futebol e palmeirense fanático.